sábado, junho 20, 2009

PICHÓN RIVIÈRI - GRUPOS OPERATIVOS

Alguém me cedeu este texto, mas não me recordo agora em que ocasião...
Mas é um texto muito útil...

Pichón Rivière começou a trabalhar com grupos à medida que observava a influência do grupo familiar em seus pacientes. Sua primeira experiência com grupo foi a Experiência Rosário (1958), onde Pichón dirigiu grupos heterogêneos através de uma didática interdisciplinar. Seguindo os conceitos da psicologia social, afirmou que o homem desde seu nascimento encontra-se inserido em grupos, o primeiro deles a família se ampliando a amigos, escola e sociedade. Portanto é impossível conceber uma interpretação de ser humano sem levar em conta seu contexto, ou a influência do mesmo na constituição de diferentes papéis que se assume nos diferentes grupos por que passamos. Pichón desenvolveu, então, a técnica dos grupos operativos. Ele entende por grupo operativo aquele centrado em uma tarefa de forma explícita (ex.: aprendizado, cura, diagnóstico de dificuldade), e uma outra tarefa de forma implícita, subjacente à primeira. Dentro desta concepção, desenvolveu conceitos e instrumentos que possibilitam a compreensão do campo grupal como estrutura em movimento, o que deixa claro o caráter dinâmico do grupo, que pode ser vertical, horizontal, homogêneo, heterogêneo, primário ou secundário. O objetivo da técnica é abordar, através da tarefa, da aprendizagem, os problemas pessoais relacionados com a tarefa, levando o indivíduo a pensar; o indivíduo "aprende a pensar", passando de um pensar vulgar para um pensar científico. A execução da tarefa implica em enfrentar alguns obstáculos que se referem a uma desconstrução de conceitos estabelecidos - desconstrução de certezas adquiridas. Para o grupo implica em trabalhar sobre o objeto-objetivo (tarefa explícita) e sobre si (tarefa implícita), buscando romper com estereótipos e integrar pensamento e conhecimento. Assim, entrar em tarefa significa o grupo assumir o desafio de conquistar o desejo na produção e a produção no desejo. Desafio a partir do momento que nossa sociedade vê como dissociados trabalho e prazer (Baremblitt,1982) Antes de entrar em tarefa o grupo passa por um período de "resistência", onde o verdadeiro objetivo, da conclusão da tarefa, não é alcançado. Essa postura paralisa o prosseguimento do grupo. Realizam-se tarefas apenas para passar o tempo, o que acaba por gerar um insatisfação entre os integrantes (tal período denomina-se pré-tarefa). São tarefas sem sentido onde faltam-lhe a revelação de si mesmo. Somente passado este período, o grupo, com o auxílio do coordenador, entra em tarefa, onde serão trabalhadas as ansiedades e questões do grupo. A partir dessas, elabora-se o que Pichón chamou de projeto, onde aplicam-se estratégias e táticas para produzir mudança. Foram nas atividades e análise de grupos que Pichón desenvolveu os conceitos de verticalidade e horizontalidade. O primeiro se trata da história pessoal de cada integrante, história essa que faz parte da determinação dos fenômenos no campo grupal, por horizontalidade entende-se como a dimensão grupal atual, elementos que caracterizam o grupo. A intersecção entre a verticalidade e a horizontalidade dá origem aos diferentes papéis que o indivíduo assume no grupo. Os papéis se formam de acordo com a representação que cada um tem de si mesmo que responde as expectativas que os outros têm de nós. Constata-se a manifestação de vários papéis no campo grupal, destacando-se o papel do porta-voz, bode expiatório, líder e sabotador. Porta-voz: é aquele que expressa as ansiedades do grupo, ele é o emergente que denuncia a ansiedade predominante no grupo a qual está impedindo a tarefa; Bode expiatório: é aquele que expressa a ansiedade do grupo, mas diferente do porta-voz, sua opinião não é aceita pela grupo, de modo que este não se identifica com a questão levantada gerando uma segregação no grupo, pode-se dizer dele como depositário de todas as dificuldades do grupo e culpado de cada um de seus fracassos; Líder: A estrutura e função do grupo se configuram de acordo com os tipos de liderança assumidos pelo coordenador, apesar de a concepção de líder ser muito singular e flutuante. O grupo corre o risco de ficar dependente e agir somente de acordo com o líder e não como grupo; Sabotador: é aquele que conspira para a evolução e conclusão da tarefa podendo levar a segregação do grupo; No início do grupo, os papéis tendem a ser fixos, até que se configure a situação de lideranças funcionais. Todo grupo denuncia, mesmo na mais simples tarefa, um emergente grupal. Este é exatamente aquilo que numa situação ou outra se enche de sentido para aquele que observa, para quem escuta. O observador observa o existente segundo a equação elaborada por Pichón: EXISTENTE ===>> INTERPRETAÇÃO ===>> EMERGENTE ===>> EXISTENTE O existente só ocorre à medida que faz sentido (para o observador) e a partir de uma interpretação se torna o emergente do grupo. este novo emergente leva à um novo existente, o qual por sua vez requer uma nova interpretação, que levará à outro emergente. O coordenador toma um papel muito importante a medida que é dele que emana as interpretações, ele é quem dá o sentido ao grupo, e é este sentido que mobilizará uma aprendizagem, uma transformação grupal. Ele atua primariamente como um orientador que favorece a comunicação intergrupal e tenta evitar a discussão frontal. GRUPO OPERATIVO Chamamos grupo operativo a todo grupo no qual a explicitação da tarefa e a participação através dela permite não só sua compreensão, mas também, sua execução(...) O grupo pode ser visualizado em dois planos: o da temática, extensão de temas que constituirão a armação da tarefa; e o da dinâmica, no qual a interrelação evidenciará o sentir que se mobiliza em dita temática. Bauleo. Todo conjunto de pessoas ligadas entre si por constantes de tempo e espaço, e articuladas por sua mútua representação interna, que se propõe explícita ou implicitamente uma tarefa que constitui sua finalidade. Podemos dizer então que estrutura, funçäo,coesäo e finalidade, juntamente com o número determinado de integrantes, configuram a situação grupal que tem seu modelo natural no grupo familiar. Pichon-Rivière. TEORIA DO VÍNCULO "É sempre uma situação em forma de espiral contínua, onde o que se diz ao paciente, por exemplo - interpretação, no caso de um vínculo terapêutico - determina uma certa reação do paciente que é assimilada pelo terapeuta que por sua vez a reintroduz em uma nova interpretação". Para Pichon, isto constitui um aprendizado tanto do ponto de vista teórico como do ponto de vista objetivo. Pois à medida que conhece, se conhece, ou à medida que se ensina, se aprende. Esta série de pares dialéticos devem ser considerados para qualquer operação. "Todo vínculo é bi-corporal e tripessoal", isto é, em todo vínculo há uma presença sensorial corpórea dos dois, mas há um personagem que está interferindo sempre em toda relação humana, que é o terceiro. Sempre há alguém na mente de um ou outro que está olhando, vigiando e corrigindo - alguns aspectos do que Freud descreveu como complexo superego - ideal do ego - é algo que funciona automaticamente como uma escala de valores onde a sinalização é interna e determina que a comunicação se estabeleça de uma maneira distorcida e misteriosa. ESTRUTURA "Todo comportamento tem um caráter de estrutura significativa e que o estudo positivo de todo comportamento humano consiste no esforço por fazer acessível esta significação" (...) "As estruturas constitutivas do comportamento não são dados universais, e sim fatos específicos nascidos de uma gênese passada em situação de sofrer transformação que perfila uma evolução futura". (...) "O postulado básico de nossa teoria de enfermidade mental é: toda resposta inadequada, toda conduta desviante, é a resultante de uma leitura distorcida e empobrecida da realidade. A doença implica, portanto, numa perturbação do processo de aprendizado da realidade, um déficit no circuíto da comunicação, processos esses (aprendizado e comunicação) que se realimentam mutuamente". 1) Princípio da policausalidade: no campo específico da conduta desviante podemos dizer que na gênese das neuroses e psicoses nos deparamos com uma pluralidade causal, uma equação etiológica composta por vários elementos que vão se articulando sucessiva e evolutivamente ao que Freud chamou de séries complementares...Intervêm: O fator constitucional, onde se distinguem os elementos genotípicos e hereditários e os fenotípicos, isto é, aqueles elementos resultantes do contexto social que se manifestam em um código biológico. O fator disposicional, que está determinado pelo impacto da presença da criança no grupo familiar, as características adquiridas pela constelação familiar com esta presença, os vínculos positivos ou negativos da estrutura edípica triangular. Aqui surgem os chamados pontos disposicionais considerados como um estancamento dos processos de aprendizado e comunicação, o que Freu denominou de fixação da libido. O fator atual ou desencadeante, que se refere a uma determinada quantidade de privação, uma perda, uma frustração ou sofrimento, que determina uma inibição do aprendizado e consequente regressão ao ponto disposicional e recorrência às técnicas de controle da angústia por meio das quais o sujeito tentará se libertar da situação de sofrimento. 2) Princípios de pluralidade fenomenológica: leva em consideração as três áreas de expressão e conduta: a área da mente, a área do corpo e a área do mundo externo. Cada área é o campo projetivo onde o sujeito coloca seus vínculos num inter-jogo entre mundo interno e contexto externo, mediante processos de internalização. Cada uma dessas áreas tem um código expressivo que lhe é próprio. Assim é possível construir toda uma psicopatologia em função das áreas de expressão predominantes e as valências positivas ou negativas em cada uma delas (pôr exemplo: o fóbico projeta e realiza sentimentos positivos e negativos na área três, do mundo externo; a histeria tem predomínio de expressão na área dois, do corpo, etc.). 3) Princípio de continuidade genética e funcional: este princípio postula a existência de um núcleo patogenético central de natureza depressiva e que todas as formas clínicas seriam derivadas daquele núcleo. Este princípio está ligado à teoria de Pichon-Rivière de enfermidade única. Haveria então um núcleo patogenético depressivo (enfermidade básica) e uma instrumentação através de técnicas defensivas do mesmo, que são características da posição esquizo-paranóide descrita pôr Melanie Klein e a que Pichon denomina pato-plástica ou funcional. O fracasso na elaboração do sofrimento da posição depressiva acarreta, de forma inevitável, o predomínio de defesas que implicam o bloqueio das emoções e da atividade da fantasia. Essas defesas estereotipadas impedem sobretudo um certo grau de auto-conhecimento e insight da realidade. Isto é fundamental para entender a importância do momento depressivo de integração na realização dos grupos operativos. Pois a tentativa de evitar este sofrimento "operativo" leva a um bloqueio do afeto, da fantasia e do pensamento, que determina uma conecção empobrecida com a realidade, uma dificuldade para modificá-la e de modificar-se nesta interação dialética que seria justamente um dos critérios operativos. Em termos de grupo, podemos chamar operativo ou capacidade de autognosis ao que permite ao grupo elaborar um projeto com a inclusão da morte como situação própria e concreta. Isto significa enfrentar os problemas existenciais e a conquista de uma adaptação ativa à realidade com um destino e uma ideologia de vida próprias. 4) Mobilidade das estruturas: se refere basicamente às estruturas que são instrumentais e situacionais em cada aqui e agora do processo de interação. Ou seja, que as modalidades ou técnicas de manejo das ansiedades básicas, com sua localização de objetos e vínculos nas distintas áreas, é modificável segundo os processos de interação com os quais o sujeito se compromete. Esta afirmação tem importantes implicações no trabalho diagnóstico, pois todo diagnóstico será então situacional e historicamente determinado. PRÉ-TAREFA, TAREFA E PROJETO Pré-tarefa são todas aquelas atividades onde a presença dos medos básicos (ansiedade de perda e ataque) determinam a utilização de técnicas defensivas que estruturam o que se denomina resistência à mudança. A pré-tarefa está caracterizada pôr uma situação de impostura que paralisa o prosseguimento do grupo. Se faz "como se" se trabalhasse, "como se" se efetuasse um trabalho especificado. Nesta impostura o grupo aparece sem capacidade, com uma certa transparência, onde o sujeito é como o negativo de si mesmo, faltando-lhe revelação de si mesmo. Concorre para ressaltar a estranheza aos comportamentos alheios a ele como grupo e como sujeito, mas afins a ele como homem alienado. Realiza, então uma série de tarefas para passar o tempo (protelação, atrás da qual se oculta a impossibilidade de suportar as frustrações de início e término da tarefa) o que gera uma insatisfação constante. Isto se observa particularmente no tipo de manejo do tempo que realiza o grupo. Outra das formas características de se manifestar a pré-tarefa é o "obsoletismo dinâmico" que é uma série de movimentos que apresentam uma ação mas que na realidade são realizados a fim de impedir qualquer situação de transformação. É a expressão "gato pardismo" nos grupos, de mudar algo para que nada mude. O momento da tarefa consiste na abordagem e elaboração das ansiedades, e emergência da posição depressiva básica o que, em termos de Pichon, se expressaria como consciência de finitude e possibilidade de incluir a idéia da própria morte a partir de onde se poderia estruturar a tarefa possível em termos de tempo e espaço. Na passagem da pré-tarefa à tarefa se efetua um salto pôr somação quantitativa de insight através do qual se personifica e se estabelece uma relação com o outro (diferenciado). O grupo aparece com uma percepção global dos elementos em jogo, com possibilidade de instrumentá-los, com um contato com a realidade onde é possível sua colocação como sujeito ativo, onde pode elaborar estratégias e táticas, onde pode intervir nas situações provocando transformações. Entramos, assim então, na idéia de projeto ou produto que seriam aquelas estratégias e táticas para produzir uma mudança que, pôr sua vez, voltariam a modificar o sujeito com o qual o processo se põe outra vez em marcha. PAPEL E LIDERANÇA A análise dos papéis e a forma em que se configuram, constitui uma das operações básicas, tendentes à constituição de um ecro grupal. Cada um dos participantes de um grupo constrói seu papel em relação aos outros; assim, de uma articulação entre o papel prescrito e o papel assumido, surge a atuação característica de cada membro do grupo. Este papel se constrói baseado no grupo interno (representação que cada um tem dos outros membros) e que vai constituindo "o outro" generalizado do grupo. Na relação do sujeito com este "outro generalizado" se vai constituindo o rol operativo diferenciado, que permitirá a construção de uma estratégia, uma tática, uma técnica e uma logística para a realização da tarefa. Os quatro papéis mais destacados, que se perfilam na operação grupal são: porta-voz, bode expiatório, líder e sabotador. O porta-voz é aquele que sendo depositário da ansiedade grupal, aparece, no grupo, expressando-a de diversas maneiras (através de palavras, atos ou silêncios). Nele se inclui uma interação entre sua verticalidade e a horizontalidade do grupo, o que lhe permite ser um emergente qualificado para denunciar qual é a ansiedade predominante que está impedindo a tarefa. É importante discriminar no processo de depositação que constrói os diferentes papéis, os três elementos que a constituem: o depositante e o depositário, para permitir assim, uma redistribuirão d ansiedade e a ruptura do estereótipo dos papéis. Outro papel que aparece frequentemente nos grupos, o de bode expiatório, surge como contrapartida ou decadência do chamado líder messiânico. Esta situação é característica quando existe uma forte predominância do polo paranóico. O bode expiatório é o depositário de todas as dificuldades do grupo e culpado de cada um de seus fracassos. As ideologias messiânicas, ou com tendência à idealização, que se fazem a cargo do grupo, tendem constantemente a desenvolver este tipo de papel. Outros papéis que Pichon destaca em sua importância são: o de sabotador e o do bobo do grupo Estes papéis, quase universais, são depositários das forças que se opõem à tarefa no interior do grupo (grupo conspirador), o que determina o aparecimento de mecanismos de segregação. A segregação é o fantasma que ameaça constantemente o grupo e é uma tentativa fracassada de redistribuirão da ansiedade, o que implica em dificuldades para enfrentar situações de mudanças. Podemos dizer que assim como a projeção é o fantasma que ameaça constantemente a comunicação interpessoal, a segregação é o principal inimigo na construção de uma comunicação grupal. A detecção dos líderes tem uma importância fundamental na compreensão da dinâmica do grupo, tanto é assim, que a estrutura e a função do grupo se configuram de acordo com os tipos de liderança assumidos pelo coordenador. A liderança pode ser assumida tanto pelo coordenador como pelos diferentes membros do grupo e a análise e a elucidação em ambos os casos é necessária para quebrar as estereotipias de funcionamento. A teoria dos papéis se compõe então, dessa representação que cada um tem de si mesmo e que responde a uma representação de expectativas que as demais pessoas têm de nós. Em função das expectativas que temos dos outros, e que os outros têm de nós, se produz uma correlação de condutas que denominamos interrelação social. Assim se dispõe cada um para o outro com um protótipo de atitudes na qual cada um pode pré-julgar ou pré-dizer qual é o tipo de conduta que receberá como respostas às mensagens que emite. Isto é o que se chama expectativa de papel, ou seja, todas as condutas que esperamos das pessoas ao nosso redor. Este conceito, no campo de certas psicologias sociais, constitui o que se chama análise da atitude social, que configura o estudo das disposições que cada um de nós tem para reagir frente a um fato social determinado. Consideramos que, justamente, operar um grupo, consiste em romper com estas expectativas fixas e atitudes prototípicas, gerando novos modos de comunicação e efeitos de sentido que possibilitem uma transformação grupal. ECRO GRUPAL Esquema Conceitual, Referencial e Operativo Este esquema conceitual-referencial está baseado na idéia de uma inter-disciplina que compreenda o estudo geral da problemática abordada. Esta noção de inter-disciplina é a que vai dar origem à necessidade de heterogeneidade nos grupos operativos, onde a maior heterogeneidade entre seus membros corresponde à maior homogeneidade na tarefa. Este ECRO é instrumental e operativo no sentido que a aprendizagem do grupo se estrutura como um processo contínuo e com oscilações, articulando os momentos do ensinar e do aprender a que se dá no aluno e professor como um todo estrutural e dinâmico. Esquema Corporal O esquema corporal se conforma através de senso-percepções que vêm do próprio corpo como também do corpo do outro. Recebemos informações, através do córtex cerebral, de cinco diferentes tipos: 1. Sensações que vêm da superfície corporal. 2. Sensações que vêm do interior do corpo. 3. Sensações que provêm da tensão muscular. 4. Sensações que informam a postura corporal. 5. Sensações que provêm da percepção visual. Considerando cada membro, cada órgão, como parte de um grupo interno corporal, conclui-se que todos os órgãos de nosso corpo constituem um grupo, cuja tarefa é a aprendizagem e a correção das enfermidades orgânicas. A tarefa do terapeuta consiste em esclarecer os conflitos que existem entre eles, evitando que um dos órgãos seja o depositário da ansiedade do grupo, assim como o enfermo mental é o depositário da enfermidade do grupo familiar. Esta concepção de grupo orgânico e de grupo psicológico é fundamental para o tratamento grupal dos enfermos chamados orgânicos e sem provas de sua organicidade. O estudo do corpo do grupo nos leva ao conceito de distância social. Existiria uma distância ótima, uma altura espacial e emocional ótima, que permite uma melhor comunicação, uma maior segurança psicológica e uma maior operatividade para cada situação. Se a distância é exagerada aparecem perturbações na comunicação; se, pelo contrário, existe um excesso de aproximação, se produz uma situação de rejeição e bloqueio no outro. Esta distância social implica tanto o corporal como o emotivo, tanto o espaço do eu como o espaço do id. Dizemos, finalmente, que devemos entender o esquema corporal não como a representação empírica do próprio corpo, mas sim como a representação fantasmática grupal constituída pôr todos os vínculos espaço-temporais. CONE INVERTIDO É um esquema constituído pôr vários vetores na base dos quais se fundamenta a operação no interior do grupo. A partir da análise inter-relacionada destes vetores se chega a uma avaliação da tarefa que o grupo realiza. A eleição do desenho do cone invertido se deve a que em sua parte superior estariam os conteúdos manifestos e em sua parte inferior, as fantasias latentes grupais. Pichon propõe que o movimento de espiral que vai fazer explícito o que é implícito, atua ante os medos básicos subjacentes, permitindo enfrentar o temor à mudança. Os vetores são: Filiação e Pertinência: a filiação se pode considerar como um asso anterior à pertinência, é uma aproximação não fixa com a tarefa. Seriam aqueles que estão interessados pelo trabalho grupal, seriam "os torcedores e não os jogadores". Pertinência é quando os participantes entram no grupo, "na cancha". Na dinâmica grupal, tradicionalmente é medida em relação à presença no grupo, à pontualidade do seu início, às intervenções etc. Cooperação: é dada pela possibilidade do grupo fazer consciente a estratégia geral do mesmo. "Se vê na justiça dos passes, na exatidão das jogadas gerais". No movimento grupal se manifesta pela capacidade de se colocar no lugar do outro. Pertinência: é um terceiro vetor que surge da realização dos dois anteriores. "Se mede pela quantidade de suor que tem a camiseta ao final da partida", é a realização da tarefa estratégica. "O gol contra seria o cúmulo da falta de pertinência". Cabe aclarar que o alcance da pertinência grupal não é proposta como um ato de vontade, mas sim como a expressão do desejo grupal, revelado na análise dos medos básicos. Aprendizagem: a aprendizagem inclui vários aspectos que são o da estratégia - o da tática (que seria moldar na prática os objetivos estratégicos); o da técnica, que é a arte e o artesanato para levar a tarefa adiante, e a logística, que é a possibilidade de avaliar as estratégias dos elementos que se opõem à realização da tarefa em relação aos do próprio grupo, para permitir uma operação no nível adequado. Para Pichon, o indivíduo nos momentos de intensa resistência à mudança, voltaria regressivamente mais que a comportamentos próprios da etapa libidinal onde está predominantemente fixado, a repetir atitudes mal aprendidas que dificultaram sua passagem a uma etapa posterior. Assim substitui o conceito de instinto pelo de necessidade não satisfeita. A repetição seria provocada pôr dificuldades na aprendizagem e na comunicação, não permitindo assim a elaboração de uma estratégia adequada em seu devido momento. Assim, a transferência, mais que uma simples repetição, seria a colocação em jogo de estratégias e táticas mal aprendidas, com a intenção de poder corrigir as dificuldades ou os obstáculos que não puderam ser encarados daquela vez. A aprendizagem operativa no grupo, através da tarefa, permite novas abordagens ao objeto e o esclarecimento dos fantasmas que impedem sua penetração, permitindo a operação grupal. Comunicação: esse vetor é tomado por Pichon como o lugar privilegiado pelo qual se expressam os transtornos e dificuldades do grupo para enfrentar a tarefa. Na medida em que cada transtorno da comunicação remete-se a um transtorno da aprendizagem, veremos os sujeitos grupais tratarem de desenvolver velhas atitudes, em geral mal aprendidas, com a intenção de abordar os objetos novos de conhecimento. Este objeto pode ser nos grupos operativos, indistintamente, desde a compreensão de um conceito ao desenvolvimento de um processo terapêutico. Entendendo a aprendizagem, então, como a ruptura de certos estereótipos de comunicação e a obtenção de novos estilos, o que implica sempre reestruturações e redistribuirão dos papéis desempenhados pelos integrantes do grupo. Tele: este vetor se refere ao clima afetivo que prepondera no grupo em diferentes momentos. É um conceito tomado da sociometria de Moreno para assinalar o grau de empatia positiva ou negativa que se dá entre os membros do grupo. A fundamentação deste conceito parte da base de que todo encontro é na realidade um reencontro, ou como gostava de dizer o próprio Pichon: "Todo amor é um amor à primeira vista". Isto quer dizer que o afastamento e a aproximação entre as pessoas de um grupo, não tem que ver com essa pessoa real presente, mas com a recordação de outras pessoas e outras situações que ela evoca. INTERPRETAÇÃO A interpretação no grupo operativo está tomada do modelo da interpretação psicanalítica que, sinteticamente, consistiria em procurar fazer explícito o implícito. O propósito geral da interpretação é o esclarecimento em termos das ansiedades básicas, aprendizagem, esquema referencial, semântica, decisão etc. Desta maneira coincidem a aprendizagem, a comunicação, esclarecimento e a resolução de tarefas com a cura. Tenta-se criar então um novo esquema referencial. COORDENADOR E OBSERVADOR O coordenador de grupo operativo não pode trabalhar nem como um característico psicanalista de grupo nem como um simples coordenador de grupo de discussão e tarefa. Sua intervenção se limita a sinalizar as dificuldades que impedem ao grupo enfrentar a tarefa. Dispõe para isso de um ECRO a partir do qual tentará decifrar essas dificuldades e num processo adequado em relação aos quatro passos que são: estratégia, tática, técnica e logística, irá propondo ao grupo as hipóteses que lhe permitam tomar-se a si mesmo como objeto de estudo e ir revelando as dificuldades que aparecem na comunicação e aprendizagem. O coordenador não está ali para responder às questões, mas para ajudar o grupo a formular aquelas que permitirão o enfrentamento dos medos básicos. Ele cumpre no grupo um papel prescrito: o de ajudar os membros a pensar, abordando o obstáculo epistemológico configurado pelas ansiedades básicas. Seu instrumento é a sinalização das situações manifestas e a interpretação da causalidade subjacente. Forma uma equipe com o observador que, na forma tradicional de grupo operativo, é um observador não participante. Este, ao mesmo tempo em que serve de tela de projeção por sua característica de permanecer silencioso, recolhe material expresso tanto verbalmente como pré-verbalmente nos distintos momentos grupais. As notas do observador são analisadas logo em conjunto com o coordenador que com esses elementos pode repensar as hipóteses formuladas e adequá-las em função do processo grupal.
BIBLIOGRAFIA BAREMBLITT, Gregório (organizador) Grupos: Teoria e Técnica – Editora Graal, IBRAPSI, Rio de Janeiro, 1986; www.continents.com/ www.geocities.com/pichon_br/

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