domingo, maio 16, 2010

VYGOTSKI: APRENDIZADO E DESENVOLVIMENTO. UM PROCESSO SÓCIO-HISTÓRICO.

APRESENTAÇÃO

O relatório de leitura apresenta o registro dos principais conceitos da teoria de Lev Semyonovitch Vygotsky e sua abordagem sócio-interacionista do desenvolvimento e aprendizagem.

A elaboração deste relatório foi possível, a partir das leituras dos livros: Vygotsky: Aprendizado e Desenvolvimento. Um Processo Sócio-Histórico, de Marta Kohl de Oliveira e A Formação Social da Mente, de Lev Semyonovitch Vygotsky.

INTRODUÇÃO


Lev Semyonovitch Vygotsky, iniciou sua carreira como psicólogo após a Revolução Russa de 1917. As condições da sociedade e da psicologia na Rússia pós-revolucionária eram fonte dos problemas imediatos com os quais Vygostky se defrontava e fonte de inspiração para que ele desenvolvesse uma teoria marxista do funcionamento intelectual humano.
As condições da psicologia européia forneceram o cenário inicial para as suas teorias. Até a segunda metade do século XIX, o estudo da natureza humana era um atributo da filosofia. Os seguidores de Jonh Locke enfatizavam a origem das idéias a partir de sensações produzidas por estimulação ambiental, mas o maior problema da análise psicológica para estes, era descrever as leis de associação pelas quais sensações simples combinavam-se para produzir idéias complexas. Os seguidores de Immanuel Kant afirmavam que idéias de espaço e tempo e conceitos de quantidade, qualidade e relação originavam-se na mente humana e não poderiam ser decompostas em elementos mais simples. Ambos os grupos mantinham-se irredutíveis em suas posições e desenvolviam-se tendo como pressuposto, a partir dos trabalhos de René Descartes, que o estudo científico do homem deveria restringir-se ao seu corpo físico, cabendo à filosofia o estudo de sua alma.
Apesar do conflito entre essas abordagens, os termos dessa discussão, foram mudados irrevogavelmente após a publicação quase simultânea de três livros: A Origem das Espécies, de Darwin, Die Psychophysik, de Gustav Fechner e Reflexos do Cérebro, de I. M. Sechenov. Estes livros podem ser vistos como constituintes essenciais do pensamento psicológico do final do século XIX. Nenhum desses autores se considerava psicólogo, mas eles forneceram as questões centrais que preocupariam a psicologia, na segunda metade do século. Várias escolas de psicologia se propuseram a responder as questões centrais formuladas, na época, contribuindo com respostas parciais dentro de perspectivas teóricas limitadas.
A primeira escola de psicologia fundada por Wilhelm Wundt, em 1860, voltava-se à descrição do conteúdo da consciência humana e sua relação com a estimulação externa. Wundt propôs explicitamente, que as funções mentais complexas, os “processos psicológicos superiores” não poderiam, em principio ser estudadas pelos psicólogos experimentais, e que só poderiam ser pesquisadas através de estudos históricos dos produtos culturais tais como as lendas, costumes e linguagem.
Por volta do começo da Primeira Guerra Mundial, os estudos introspectivos dos processos conscientes humanos sofreram ataques vindos de psicólogos dos Estados Unidos e da Rússia, que descontentes com as controvérsias em torno das descrições introspectivas corretas das sensações, e com a conseqüente esterilidade da pesquisa resultante, renunciaram ao estudo da consciência em prol do estudo do comportamento. A estratégia básica das correntes psicológicas que estudavam o comportamento consistia em identificar as unidades da atividade humana e então especificar as regras pelas quais esses elementos se combinam para produzir fenômenos mais complexos. Essa estratégia concentrou-se naqueles processos psicológicos compartilhados tanto por animais quanto por seres humanos, relegando os processos psicológicos superiores – pensamento, linguagem e comportamento volitivo. Já os psicólogos gestaltistas se contrapunham a um ponto: a validade de se analisar os processos psicológicos em seus constituintes básicos. A psicologia da Gestalt demonstrou que muitos fenômenos intelectuais e fenômenos perceptuais não poderiam ser explicados pela postulação de elementos básicos da consciência nem pelas teorias comportamentais baseadas na unidade estímulo-resposta. Os gestaltistas rejeitavam a possibilidade de através de processos psicológicos simples, explicar os processos mais complexos. Este era o cenário da psicologia européia quando então, surge Vygotsky.
Nas primeiras décadas do século XX, a psicologia na Rússia, assim como na Europa, movia-se entre escolas antagônicas.
Em 1923, no primeiro congresso soviético de neuropsicologia, inicia-se a primeira grande mudança intelectual e organizacional na psicologia após a revolução. Nessa época dois nomes se destacavam: G.I. Chelpanov, um adepto da psicologia introspectiva de Wundt e opositor de behaviorismo, que atribuía um papel restrito ao marxismo na psicologia, aceitando que essa teoria poderia ajudar a explicar a organização social da consciência, mas não as propriedades da consciência individual e K. N. Kornilov com sua abordagem reatológica, que procurava submeter todos os ramos da psicologia a uma estrutura marxista, usando as reações comportamentais como os elementos básicos. Kornilov formou uma equipe de jovens cientistas dedicados à formulação e implementação de uma teoria da psicologia comportamental e marxista. Surge então, Vygotsky que começava a divergir da autoridade recentemente estabelecida, pois deixou claro que nenhuma das escolas de psicologia existentes fornecia as bases firmes necessárias para o estabelecimento de uma teoria unificada dos processos psicológicos humanos, mas ele se referia com freqüência à “crise na psicologia”, impondo-se a tarefa de formular uma síntese das concepções antagônicas em bases teóricas completamente novas. Vygotski procurava uma abordagem abrangente que possibilitasse a descrição e a explicação das funções psicológicas superiores, em termos aceitáveis para as ciências naturais. A maior razão para a relevância permanente do seu trabalho está no fato de que, em 1924 e na década subseqüente, ele se dedicou à construção de uma crítica penetrante à noção de que a compreensão de funções psicológicas superiores humanas poderia ser atingida pela multiplicação e compilação dos princípios derivados da psicologia animal, em particular aqueles princípios que representam uma combinação mecânica das leis tipo estímulo-resposta, e ao mesmo tempo, ele produziu uma crítica devastadora das teorias que afirmam que as propriedades das funções intelectuais do adulto são resultados unicamente da maturação, ou estão de alguma maneira pré-formadas na criança, esperando simplesmente a oportunidade de se manifestarem.
Vygotsky seguia a linha dos influentes sociólogos franceses, ao enfatizar as origens sociais da linguagem e do pensamento. Ele foi o primeiro psicólogo moderno a sugerir os mecanismos pelos quais a cultura torna-se parte da natureza de cada pessoa e tornou-se um dos primeiros defensores da associação da psicologia cognitiva experimental com a neurologia e a fisiologia. Ele lança as bases para uma ciência comportamental unificada, ao propor que tudo isso deveria ser entendido à luz da teoria marxista da história da sociedade humana.

1.HISTÓRIA PESSOAL E INTELECTUAL

Lev Semyonovitch Vygotsky nasceu na cidade de Orsha, próxima a Minsk, capital Bielarus, em 05 de novembro de 1896. Formou-se em Direito pela Universidade de Moscou, em 1917 e estudou Medicina em Moscou e Kharkov. Foi professor e pesquisador nas áreas de psicologia, pedagogia, filosofia, literatura, deficiência física e mental e trabalhou na área chamada pedologia (ciência da criança que integra os aspectos biológicos, psicológicos e antropológicos). Criou o laboratório de psicologia na escola de formação de professores de Gomel e participou da criação do Instituto de Deficiências, em Moscou. Fundou uma editora e a revista literária Verask. Casou-se em 1924 com Rosa Simekhova com quem teve duas filhas. Desde 1920 conviveu com a tuberculose morrendo em 1934, aos 37 anos.

Sua produção escrita não chegou a constituir um sistema explicativo completo e articulado, que possibilitasse extrair uma “teoria Vygotskiana” bem estruturada, mas seus textos jovens, escritos com entusiasmo e pressa, eram repletos de idéias fecundadas que precisaram ser canalizadas num programa de trabalho a longo prazo para serem explorados em toda sua riqueza. Este trabalho existiu e foi multiplicado e desenvolvido na obra de seus colaboradores, entre os quais foram: Alexander Romanovich Luria e Alexei Nikolaievich Leontiev.

Vygotsky e seus colaboradores (Luria e Leontiev) buscavam uma abordagem alternativa, que possibilitasse uma síntese entre as duas abordagens predominantes naquele momento, a Psicologia como ciência natural, que procurava explicar processos elementares sensoriais e reflexos, tomando o homem basicamente como corpo e a Psicologia como ciência mental que descrevia as propriedades dos processos psicológicos superiores, tomando o homem como mente, consciência, espírito mais próxima da filosofia e das ciências humanas, com uma abordagem descritiva, subjetiva e dirigida a fenômenos globais, sem preocupação com a análise desses fenômenos em componentes mais simples. Ele propôs em sua abordagem, integrar numa mesma perspectiva, o homem enquanto corpo e mente, membro da espécie humana e participante de um processo histórico, ser biológico e ser social.

Vygotsky dedicou-se ao estudo de funções psicológicas superiores ou processos mentais superiores, e deixou explicito as seguintes idéias centrais, pilares básicos de seu pensamento:

(I) As funções psicológicas têm um suporte biológico, pois são produtos da atividade cerebral. O homem, enquanto espécie biológica possui uma existência material que define limites e possibilidade para o seu desenvolvimento;

(II) O funcionamento psicológico fundamenta-se nas relações sociais entre o indivíduo e o mundo exterior, as quais desenvolvem-se num processo histórico. O homem transforma-se de biológico em sócio-histórico, num processo em que a cultura é parte essencial da constituição da natureza humana. O funcionamento psicológico está baseado fortemente nos modos culturalmente construídos de ordenar o real.

(III) A relação homem/mundo é uma relação mediada por sistemas simbólicos e estes são os elementos intermediários entre o sujeito e o mundo.

2.A MEDIAÇÃO SIMBÓLICA

O conceito de mediação é central para compreender o fundamento sócio-histórico do funcionamento psicológico. A presença de elementos mediadores introduz um elo a mais nas relações individuo e meio, tornando-as mais complexas. Vygotsky distinguiu dois tipos de mediadores: os instrumentos e os signos. O instrumento é um elemento social e mediador entre o individuo e o mundo, que amplia as possibilidades de conhecer, controlar e transformar a natureza. Ele é feito ou buscado especialmente para um certo objetivo.

O signo por sua vez, age como instrumento da atividade psicológica e não nas ações concretas, e são chamados por Vygotsky de “instrumentos psicológicos”. Estes são orientados para o próprio sujeito e dirigem-se ao controle de ações psicológicas, do próprio individuo ou de outras pessoas. Em sua forma elementar, o signo é uma marca externa que auxilia o homem nas tarefas que exigem memória ou atenção. Eles são interpretáveis como representação da realidade e podem referir-se a elementos ausentes do espaço e do tempo presentes.

A mediação é um processo essencial para tornar possível, atividades psicológicas voluntárias, intencionais, controladas pelo próprio indivíduo. Ao longo da evolução da espécie humana e do desenvolvimento de cada indivíduo, ocorrem, entretanto, duas mudanças qualitativas fundamentais no uso dos signos. Por um lado, a utilização de marcas externas vai se transformar em processos internos de mediação; esse mecanismo é chamado por Vygotsky de processo de internalização. Por outro lado, são desenvolvidos sistemas simbólicos, que organizam os signos em estruturas complexas e articuladas.

Ao longo do processo de desenvolvimento, o indivíduo deixa de necessitar de marcas externas e passa a utilizar signos internos, isto é, representações mentais que substituímos objetos do mundo real. Essa capacidade de lidar com representações é que possibilita ao homem libertar-se do espaço e do tempo presentes, fazer relações mentais na ausência das próprias coisas, imaginar, fazer planos e ter intenções.

Os signos passam a ser compartilhados pelo conjunto dos membros do grupo social, permitindo a comunicação entre os indivíduos, o aprimoramento da interação social e construção de sistemas de signos, o qual consistirá numa espécie de “código” para decifração do mundo. É o grupo cultural onde o individuo se desenvolve que lhe fornece formas de perceber e organizar o real, as quais vão constituir os instrumentos psicológicos que fazem a mediação entre o individuo e o mundo.

Esses sistemas de representação da realidade consistem numa espécie de “filtro” através do qual o homem será capaz de ver o mundo e operar sobre ele. Quando Vygotsky fala em cultura, refere-se a todos os elementos carregados de significado. A cultura é pensada por ele como uma espécie de “palco de negociações”, em que seus membros estão num constante movimento de recriação e reinterpretação de informações, conceitos e significados. A vida social é um processo dinâmico, onde cada sujeito é ativo e onde acontece a interação entre o mundo cultural e o mundo subjetivo de cada um.

Neste sentido, e novamente associado a sua filiação marxista, Vygotsky postula a interação entre vários planos históricos: a história da espécie (filogênese), a história do grupo cultural, a história do organismo individual da espécie (ontogênese) e a seqüência singular de processos e experiências vividas por cada indivíduo.

O processo de desenvolvimento do ser humano ocorre “de fora para dentro”. Primeiro o indivíduo realiza ações externas que serão interpretadas pelas pessoas ao seu redor. A partir dessa interpretação é que será possível o individuo atribuir significados a suas próprias ações e desenvolver processos psicológicos internos. Para Vygotsky, o fundamento do funcionamento psicológico tipicamente humano é social e, portanto, histórico.

3. PENSAMENTO E LINGUAGEM

A linguagem é o sistema simbólico básico de todos os grupos humanos, a questão do desenvolvimento da linguagem e suas relações com o pensamento ocupa lugar central na obra de Vygotsky. Ele trabalha com duas funções básicas da linguagem. A principal função é a de intercâmbio social: é para se comunicar com seus semelhantes que o homem cria e utiliza os sistemas de linguagem. É a necessidade de comunicação que impulsiona, inicialmente o desenvolvimento da linguagem. A segunda função da linguagem: é a de pensamento generalizante. A linguagem ordena o real, agrupando todas as ocorrências de uma mesma classe de objetos, eventos, situações, sob uma mesma categoria conceitual. É essa função generalizante que torna a linguagem um instrumento de pensamento: a linguagem fornece os conceitos e as formas de organização do real que constituem a mediação entre o sujeito e o objeto de conhecimento. Vygotsky considerou dois processos como precursores do pensamento e da linguagem humana: Fase pré-verbal (desenvolvimento de pensamento) e fase pré-intelectual (desenvolvimento de linguagem).

O que define a fase pré-verbal do desenvolvimento do pensamento e a inteligência prática, capacidade de solução de problemas e de alteração do ambiente para obtenção de determinados fins, independente da linguagem. O uso da linguagem (sons, gestos) é pré-intelectual no sentido de que ela não tem ainda função de signo, funciona como meio de expressão emocional e de comunicação difusa com os outros. A trajetória do pensamento desvinculado da linguagem e a trajetória de linguagem independente do pensamento se unem e o pensamento se torna verbal e a linguagem racional.

O surgimento do pensamento verbal e da linguagem como sistema de signos é um momento crucial no desenvolvimento da espécie humana, momento em que o biológico transforma-se no sócio-histórico. Antes de dominar a linguagem, a criança demonstra capacidade de resolver problemas práticos, de utilizar instrumentos e meios indiretos pra conseguir determinados objetivos. Por volta dos dois anos, o percurso do pensamento encontra-se com o da linguagem e inicia-se uma nova forma de funcionamento psicológico: a fala torna-se intelectual, com função simbólica, generalizante e o pensamento torna-se verbal, mediado por significados dados pela linguagem.

O significado é um componente essencial da palavra e é um ato de pensamento, pois o significado de uma palavra já é em si uma generalização. No significado da palavra é que o pensamento e a fala se unem em pensamento verbal. É no significado que se encontra a unidade das duas funções básicas da linguagem: o intercâmbio social e o pensamento generalizante.

São os significados que vão propiciar a mediação simbólica entre o indivíduo e o mundo real, constituindo-se no filtro através do qual o individuo é capaz de compreender o mundo e agir sobre ele. O significado de uma palavra representa um amálgama tão estreito do pensamento e da linguagem, que fica difícil dizer se se trata de um fenômeno da fala ou de um fenômeno do pensamento. Podemos considerar o significado como um fenômeno do pensamento.

Vygotsky distingue dois componentes do significado da palavra: o significado propriamente dito e o “sentido”. O significado propriamente dito refere-se ao sistema de relações objetivas que se formou no processo de desenvolvimento da palavra, consistindo num núcleo relativamente estável de compreensão da palavra, compartilhado por todas as pessoas que a utilizam. O sentido, por sua vez, refere-se ao significado da palavra para cada individuo, composto por relações que dizem respeito ao contexto de uso da palavra e às vivências afetivas do indivíduo. A experiência individual é sempre mais completa do que a generalização contida nos signos. A generalização e a abstração só se dão pela linguagem.

O individuo desenvolve gradualmente, o chamado “discurso interior” que é uma forma interna de linguagem, dirigida ao próprio sujeito e não a um interlocutor externo. É um discurso sem vocalização, voltado para o pensamento, com a função de auxiliar o individuo nas suas operações psicológicas. Um diálogo consigo próprio, constitui-se uma espécie de “dialeto pessoal”. É fragmentado, abreviado, contendo quase só núcleos de significado e não todas as palavras usadas num diálogo com outros. A internalização do discurso é um processo gradual, que se completará em fases mais avançadas da aquisição da linguagem. A fala egocêntrica acompanha a atividade da criança, começando a ter função pessoal, ligada às necessidades do pensamento. A criança fala alto para si mesma, independentemente da presença de um interlocutor. Esta fala, é utilizada como apoio ao planejamento de seqüências a serem seguidas, como auxiliar na solução de problemas.

Para Vygotsky, o surgimento da fala egocêntrica, com essa função claramente associada ao pensamento, indica que a trajetória da criança vai dos processos socializados para os processos internos. Ao tomar posse da linguagem, inicialmente utilizada apenas com a função de comunicação, a criança passa a ser capaz de utilizá-la como instrumento (interno, intrapsíquico) de pensamento. Como esse processo é gradual, a fala egocêntrica aparece como um procedimento de transição, no qual o discurso já tem a função que terá como discurso interior, mas ainda tem a forma da fala socializada, externa.

A questão da fala egocêntrica é o ponto mais explicito de divergência entre Vygotsky e Piaget. Para Piaget a função da fala egocêntrica seria uma transição entre estados mentais individuais não verbais, de um lado, e o discurso socializado e o pensamento lógico, de outro. Piaget postula uma trajetória “de dentro para fora”, enquanto Vygotsky considera que o percurso é de “fora para dentro” do individuo. O discurso egocêntrico é portanto, tomado como transição entre processos diferentes para cada um desses teóricos. Tanto o aspecto interior da fala – semântico e significativo – quanto o exterior – fonético -, embora formem uma verdadeira unidade, têm as suas próprias leis de movimento.

4. DESENVOLVIMENTO E APRENDIZADO

Vygotsky não chegou a formular uma concepção estruturada do desenvolvimento humano. Ele não nos oferece uma interpretação completa do percurso psicológico do ser humano, mas reflexões e dados de pesquisa sobre vários aspectos do desenvolvimento. Ele enfatiza a importância dos processos de aprendizado. É este que possibilita o despertar de processos internos de desenvolvimento que, não fosse o contato do individuo com certo ambiente cultural, não ocorreriam. O desenvolvimento fica impedido de ocorrer na falta de situações propícias ao aprendizado.

Vygotsky denomina a capacidade de realizar tarefas de forma independente de nível de desenvolvimento real e caracteriza o desenvolvimento de forma retrospectiva, em etapas já alcançadas, já conquistadas pelo individuo. Para compreendermos adequadamente o desenvolvimento devemos considerar não apenas o nível de desenvolvimento real da criança, mas também seu nível de desenvolvimento potencial, sua capacidade de desempenhar tarefas com a ajuda de adultos ou de companheiros mais capazes. Essa possibilidade de alteração no desempenho de uma pessoa pela interferência de outra é fundamental na sua teoria, porque representa, um momento do desenvolvimento: não é qualquer indivíduo que pode, a partir da ajuda de outro, realizar qualquer tarefa. A idéia de nível de desenvolvimento potencial capta, um momento do desenvolvimento que caracteriza não as etapas já alcançadas, mas etapas posteriores, nas quais a interferência de outras pessoas afeta significativamente o resultado da ação individual.

Ele atribui importância extrema à interação social no processo de construção das funções psicológicas humanas. É a partir da postulação da existência desses dois níveis de desenvolvimento – real e potencial que ele define a zona de desenvolvimento proximal, como a distância entre o nível de desenvolvimento real que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes. Ela refere-se ao caminho que o individuo vai percorrer para desenvolver funções que estão em processo de amadurecimento e que se tornarão funções consolidadas, estabelecidas no seu nível de desenvolvimento real. É na zona de desenvolvimento proximal que a interferência de outros indivíduos é a mais transformadora.

A escola tem um papel essencial na construção do ser psicológico adulto dos indivíduos que vivem em sociedades escolarizadas, e este só se dará adequadamente, quando a escola dirigir o ensino para estágios de desenvolvimento ainda não incorporados pelos alunos, funcionando como motor de novas conquistas psicológicas. O processo de ensino-aprendizado na escola deve ser construído, tomando como ponto de partida o nível de desenvolvimento real da criança. O percurso a ser seguido nesse processo estará balizado pelas possibilidades do nível de desenvolvimento potencial das crianças.

O objetivo de Vygotsky é trabalhar com a importância do meio cultural e das relações entre os indivíduos na definição de um percurso de desenvolvimento da pessoa humana, e não propor uma pedagogia diretiva, autoritária. Ele trabalha com a idéia de reconstrução, de reelaboração, por parte do indivíduo, dos significados que lhe são transmitidos pelo grupo cultural.

Vygotsky trabalha também com um outro domínio da atividade infantil: o brinquedo, que também cria uma zona de desenvolvimento proximal na criança, tendo enorme influência em seu desenvolvimento. A brincadeira de “faz-de-conta” é privilegiada em sua discussão sobre o papel do brinquedo no desenvolvimento, pois a criança é levada a agir num mundo imaginário, onde a situação é definida pelo significado estabelecido pela brincadeira e não pelos elementos reais do concretamente presentes, e também, é uma atividade regida por regras, pois faz com que a acriança se comporte de forma mais avançada do aquela habitual para sua idade. No brinquedo a criança comporta-se de forma mais avançada do que nas atividades da vida real e também aprende a separar objeto e significado. A escola e a pré-escola poderiam utilizar deliberadamente das brincadeiras para atuar no processo de desenvolvimento das crianças.

A questão da evolução da escrita na criança é bastante importante no conjunto de colocações de Vygotsky. Ele tem uma abordagem genética da escrita: preocupa-se com o processo de sua aquisição, o qual se inicia muito antes da entrada da criança na escola e se estende por muitos anos. Considera, que para compreender o desenvolvimento da escrita na criança é necessário estudar o que ele chama de “a pré-história da linguagem escrita”, isto é, o que se passa com a criança antes de ser submetida a processos deliberados de alfabetização. A principal condição necessária para que uma criança seja capaz de compreender adequadamente o funcionamento da língua escrita é que ela descubra que a língua escrita é um sistema de signos que não tem significado em si, e que funcionam como um suporte para a memória e a transmissão de idéias e conceitos.

Na concepção que Vygotsky tem do ser humano, a inserção do individuo num determinado ambiente cultural é parte essencial de sua própria constituição enquanto pessoa. O aprendizado é o processo fundamental para a construção do ser humano e isto envolve a interferência direta ou indireta de outros indivíduos e a reconstrução pessoal da experiência e dos significados.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho possibilitou a organização dos textos pesquisados e a seleção dos dados mais importantes desses textos. Além disso, contribuiu para o desenvolvimento de habilidades necessárias ao estudo e a assimilação da concepção epistemológica e psicológica da teoria do desenvolvimento de Vygotsky e o contexto histórico-cultural onde esta se inscreve.

BIBLIOGRAFIA

OLIVEIRA, M. K. - Vygotsky: Aprendizado E Desenvolvimento. Um Processo Sócio-Histórico. São Paulo: Scipione, 1993.

VYGOTSKY, L. S. - A Formação Social Da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

O SEGREDO DO INDIVÍDUO

1. O INDIVIDUO E SUA MARCA

1.1. A Originalidade da denominação, ou “um nome para si”

Durante o século XIX, ocorrerá a acentuada difusão do sentimento de identidade individual. O processo de dispersão dos prenomes, iniciado no século XVIII, será acelerado pela Revolução, revelando a vontade de individualização, a preocupação em sublinhar o corte das gerações e o desejo de adaptação a essa nova norma sugerida pelas classes dominantes, e que propaga-se verticalmente, da aristocracia para o povo, da cidade para o campo, sendo favorecida em sua transmissão, pela precisão e complicação crescentes da hierarquia social.

As regras de transmissão familiar dos nomes perdem sua autoridade, enfraquecendo-se, traduzindo o definhar das virtudes hereditárias. A descrença na existência de um patrimônio de caráter transmitido pela denominação favorece o individualismo.

Subsistindo a família de estrutura complexa e a pobreza da gama de prenomes, agrava o risco de confusão, deixando o sistema denominativo, arcaico. O esquecimento do prenome, na linguagem corrente, dá lugar ao apelido, que vincula-se a grupos marginais: o mundo dos artistas e o da boemia, os circuitos da prostituição e do crime, referindo-se a valores e comportamentos arcaicos.

O desejo de individualizar e o risco de homônimo, incrementado pela urbanização, estimula a originalidade e revela o processo de diversificação em curso. Os processos de alfabetização e da escolarização estabelecem um novo vínculo entre o indivíduo, seu prenome e sobrenome. Esta nova familiaridade é registrada pelo crescimento efetivo de cônjuges capazes de assinarem suas certidões de casamento.

Em Fontaineblau, os humildes, conscientes de que, distintamente dos poderosos, não deixariam marcas, habituam-se a gravar nas rochas e árvores, suas iniciais.

Durante a segunda metade do século, com a circulação do correio - e especialmente por volta de 1900 com a expedição de 8 milhões de cartões-postais - contribuiu para a acumulação de símbolos do eu e sinais de possessão individual, até os próprios animais domésticos ganham aos poucos seus nomes.

1.2. O Espelho e a identidade corporal

A contemplação da auto-imagem deixa de ser um privilégio. O uso do espelho aponta para importância do olhar para si. Nas aldeias do século XIX, somente o barbeiro possuía um verdadeiro espelho, para o uso masculino. Os mascates difundem os pequenos espelhos para que as mulheres contemplem seus rostos, mas as aldeias ignoram os espelhos que possibilitam a visualização do corpo inteiro. Entre os camponeses, a identidade corporal continua a ser lida nos olhos dos outros e através de uma escuta interior. O código de boas maneiras, das classes mais providas, proibirá por muito tempo que uma moça admire sua nudez, mesmo através dos reflexos de sua banheira. Para evitar tal vergonha, são colocados pós para turvar a água do banho.

O estimulo erótico da imagem do corpo, provocado pela proibição em visualizá-la, está presente nesta sociedade que enche os bordéis de espelhos antes de pendurá-los, na porta do armário nupcial.

No final do século, a difusão do espelho permite a organização de uma nova identidade cultural, um novo conceito de beleza. O espelho de corpo inteiro permitirá o surgimento da estética do esbelto e guiara o nutricionismo por novos rumos.

1.3. A Democratização do Retrato

A difusão social do retrato revela a demonstração da própria existência, o registro de sua própria lembrança, além de atestar o sucesso e manifestar a posição. Para o burguês trata-se de criar uma linhagem, de inaugurar seu prestigio por meio de seu êxito pessoal. O século da comemoração é também o da fundação das genealogias comerciais, orgulhosamente ostentadas e a moda do retrato satisfaz o desejo de igualdade.

O retrato tem o papel inovador da técnica que reproduz o desejo da imagem de si, convertida ao mesmo tempo em mercadoria e instrumento de poder. Ele se difunde e torna-se íntimo no final do Antigo Regime, é então que triunfa a miniatura, os pingentes, os medalhões, as coberturas de caixinhas de pó facial ostentam rostos amados.

Entre 1786 e 1830, o physionotrace de Gilles-Louis Chrétien contribui, pelo menos na capital, para alimentar a moda do retrato. Em apenas um minuto ele reproduz com o aparelho os contornos da sombra desenhada pelo rosto do modelo, ele pode fazer retratos sobre madeira ou marfim. Os perfis obtidos não tem vida nem expressão.

Em 1839, Daguere registra a patente do procedimento que lhe permite fixar em uma placa de metal, após um quarto de hora de exposição um retrato único, vendido por cinqüenta a cem francos. O artista constrói a imagem em função do rosto e da fisionomia. A fotografia que permitira a democratização do retrato.

Em 1851, a descoberta do registro instantâneo reduz o tempo da pose. Em 1854, Disdéri, lança o retrato em forma de cartão de visita. Em 1862, ele vende sozinho 2400 cartões por dia. Ascender à representação e posse de sua própria imagem é algo que instiga o sentimento de auto-estima, que democratiza o desejo do atestado social.

Milhões de retratos fotográficos impõem normas gestuais que renovam a cena privada, ensinando a olhar com novos olhos para o corpo. O desejo de idealizar as aparências, o repúdio ao feio, convergem para o retrato-foto, técnica difundida após 1860 que suavizava os traços do rosto, manchas, rugas, verrugas inconvenientes por uma artística delicadeza. O álbum de fotografias da família delimita a configuração de parentela e conforta a coesão do grupo.

O retrato modifica a visão das idades da vida e o sentimento do tempo. Ele renova a nostalgia, representando antepassados desaparecidos e parentes desconhecidos, canalizando os fluxos sentimentais, modificando as condições psicológicas de ausência, atenuando a angústia da perda e contribuindo para desarmar o remorso causado pelo o desaparecimento das pessoas. Por fim, este novo processo favorece a vulgarização e a contemplação da imagem da nudez, que difunde um novo tempo do desejo.

1.3. A Perenidade da recordação

Dentro do cemitério manifesta-se o desejo de imprimir sua marca. No início do século XIX, evidencia a tumba individual e a emergência do novo culto aos mortos. O inédito apelo à permanência da lembrança, revela o epitáfio personalizado, procedimento inteiramente novo para a grande maioria da população. Os epitáfios enaltecem os méritos do esposo, do pai ou do cidadão, inscrevendo-se sobre si o avanço da privacy. A industrialização dos túmulos tende a apagar aos poucos todo o discurso original substituído por estereótipos que os medalhões-fotografias incrustados nas pedras irão individualizar.

O primeiro texto fúnebre surge em 1847. Nas pequenas paróquias rurais, a pedra tumular, o epitáfio por muito tempo, continuará esbarrando no sentimento de igualdade.

A época tende a reforçar o sentimento do eu: a tentação de forjar heróis, o ascenso da meritocracia: a importância atribuída ao quadro de honra, ao ritual das distribuições de prêmios, o diploma que se pendura na parede do salão comum. Para muitos humildes, será a emoção de ler seu nome em uma nova coluna de jornal. Até o próprio gesto criminoso traduz a aspiração de herói.

1.4. Os limites do panóptico

O reajustamento do individuo impõe-se com maior razão às autoridades, que, no interior do espaço público, passam paulatinamente do anonimato para relações de interconhecimento. A multidão dissolve-se em um agregado de pessoas com pensamento absorvido por seus interesses privados, tornando preciso a identificação e o controle social.

O Estado civil, secularizado desde 1792, codificado a 28 Pluvioso do ano III, os recenseamentos da população e as listas nominais estabelecidas a cada cinco anos, as listas eleitorais, censitárias até 1848, estendidas ao conjunto da população masculina em março de 1848, e a seguir em setembro de 1851, constituem as referências do sistema. Certas categorias são ademais objeto de procedimentos especiais: os operários, teoricamente sujeitos à carteira desde o Consulado, carteira que eles próprios passarão a portar desde a lei de 22 de junho de 1854; os militares; os domésticos; as mulheres da vida registradas pela Chefatura da Polícia; as crianças abandonadas às quais se deseje atribuir um estado civil ou tutela; os viajantes e especialmente os itinerantes e nômades, que devem providenciar passaportes antes de efetuar suas andanças.

O reconhecimento interpessoal e a memória visual continuarão por muito tempo a ordenar as listas de migrantes e de autoridades. Estas exigências administrativas contribuíram para desenvolver a posse, o uso e a codificação dos “papéis”. A construção do tempo pessoal autoriza a elaboração de uma história individual, condição para a identificação e para a comunicação autônoma. O procedimento mais usual para escarafunchar melhor a personalidade de outro é a investigação de moralidade ou o recurso ao certificado de boa conduta, que era fornecido muitas vezes pelo prefeito e o padre. Está prática institucionaliza e incita o recurso ao boato e o desvendamento da vida privada. Confessores e padres travestidos em conselheiros matrimoniais e parentes da província se convertem em agentes de informação, advogados notórios encarregados de interrogar seus confrades, quadros da administração indagados quanto às qualificações de seus subordinados, domésticos incumbidos de registrar boatos.

A trama da vida privada é impregnada de informações, recomendações e pressões, vale dizer, chantagem.

1.5. O olho do policial

As instituições policiais desempenharam o papel de laboratórios, na busca de singularidades individuais. A identificação da criança perdida era difícil e é a difícil identificação das prostitutas que condena ao fracasso o sistema regulamentado elaborado sob o Consulado.

Até o início da Terceira República, a administração continua a utilizar o método da "descrição”. O olhar do policial detalha a cor dos cabelos e dos olhos, avalia o talhe e se necessário observa deformidades. Isto evidência a ineficiência de semelhante método, baseado em descrições neutras e imprecisas. Para desmascarar o disfarce a policia conta apenas com a perspicácia do olhar de seus agentes.

1.6. Medidas ósseas em busca da marca

No final do século, novas técnicas permitem que se atribua a cada individuo uma identidade invariável e passível de demonstração. Este sistema elimina a falsificação do estado civil. Em 1876 a policia emprega a fotografia, no final da década, a Chefatura já possui 60 mil fotos. Em 1882, com o emprego da identificação antropométrica estabelecida por Alphonse Bertillon, com cinco ou seis medidas ósseas efetuadas com rigor e conforme procedimento fixo são o bastante para marcar um individuo.

Desde o inicio do século XX triunfa a identificação pelas marcas corporais e mais precisamente pelas impressões digitais, apropriadas por Galton que saberá convencer Alphonse Bertillon a integrar o novo dado ao boletim antropométrico.

A lei de 16 de julho de 1912, impõe aos nômades e itinerantes, inclusive industriais e comerciantes do exterior a posse de uma carteira de identidade antropométrica onde consta nome, sobrenome, data e local de nascimento, filiação descrição, impressões digitais e a foto do individuo.

Em 1860 opera-se uma transformação no momento do triunfo da República. O movimento de individualização que anima o século culmina ao passo que o neokantismo inspira dirigentes e estabelece que o controle do individuo é essencial à sobrevivência do grupo.

2. AS AMEAÇAS DO CORPO

2.1. A alma e o corpo

A dicotomia entre a alma e corpo varia conforme a extração social, o nível cultural e o grau de fervor religioso. Muitos etnólogos, entre os quais Françoise Loux, evidenciaram a coerência e o domínio do corpo no seio da sociedade tradicional. Os provérbios coletados por folcloristas em fins do século XIX refletem uma visão laicizada da existência, que privilegia o orgânico. Delineiam uma moral da moderação, constatam que o repúdio à posição mediana, o respeito ao justo meio favorecem a saúde e buscam, aqui, um bem estar mais refinado que o prazer.

A convicção de que o corpo encontra-se perfeitamente ligado à ordem cósmica, vegetal e animal, devido a uma serie de correspondências simbólicas, revelando um caráter obsessivo destaca crenças arcaicas, que são acompanhadas por uma norma higiênica que admite o bom desempenho das funções naturais. È um sistema de opiniões e atitudes que define uma frente de resistência à difusão da higiene acadêmica, contra-ataques até no interior burguês. Em oposição às crenças antigas inscreve-se a permanente tendência a acentuar a mensagem cristã baseada no antagonismo entre a alma e o corpo. Desdenhando os limites dogmáticos do desprezo pela carne, desenhados pelo mistério da Encarnação, da Eucaristia e a fé na ressurreição, reduzindo os despojos mortais a uma provisória prisão, justificando assim a guerra permanente entre os anseios, os impulsos orgânicos e alma.

A partir dos meados do séc XIX declinam as mortificações pouco adequadas à feminização da prática. Interioriza-se assim a renúncia a si mesmo no cotidiano e inaurgura-se a contabilidade dos pequenos sacrifícios. A alma, guia, detentora do segredo da vocação do corpo, dirige sua efetivação. É a alma que modela simultaneamente o corpo e o espírito femininos, a maternidade é primeiramente vocação metafísica daquela que tem o dever de colaborar com a obra da natureza.

2.2. As mensagens da cenetesia

Os ideólogos, em especial Cabanis abandonam as noções da alma-guia e do principio vital, tentando unificar os campos da medicina e da fisiologia, dando mais atenção à relação entre o físico e o moral, ao vinculo existente entre a vida orgânica a vida social e a atividade mental. Em fins do século XVII cenestesia, percepção interior do corpo o conjunto das sensações orgânicas cuja tradução no comportamento constitui instintos. Durante todo o século os especialistas mostram-se convencidos da extrema influencia de um inconsciente percebido como rumor das funções viscerais de onde emergem os atos da consciência. A personalidade aflora já completamente armada de dentro deste inconsciente. Freud contribui para arrebatar a vida orgânica, o monopólio do inconsciente para instalá-lo no próprio aparelho psíquico.

A cenestesia valoriza a escuta do corpo, que não é nossa. Escuta ao desenvolvimento das funções orgânicas e suas repercussões no plano mental, vigilância permanente que privilegia a analise da fisiologia. Constrói-se no cotidiano um grosseiro sistema de imagens da saúde física e psíquica, permitindo comportamentos individuais.

Operou-se uma revolução, a progressiva identificação do sujeito com o corpo, o que implica em atenuamento do desprezo pelo orgânico pela animalidade. Instala-se a solidão dos apetites sentido como sendo os da própria pessoa, e não, expressão das exigencias do outro.

2.3. O leito e o quarto individuais

O século XIX assitiu a continuidade do processo de desamontoamento dos corpos nos espaços coletivos por volta do Antigo regime. O leito individual tornou-se simples precaução sanitária, especialmente nos hospitais e a privatização do espaço reservado ao enfermo demorará a triunfar nestes estabelecimentos, pois contrariava os ritos de sociabilidade popular. A transferência desta preocupação para o espaço privado, ocorrerá como processo acelerado, pela epidemia de cólera em 1832. Os médicos lutam durante todo o tempo contra o leito coletivo e a prosmicuidade.

A nova solidão do leito individual conforta o sentimento de pessoa, favorece autonomia, facilita o surgimento do monologo interior, as modalidades da prece, as formas de devaneio, as condições de adormecer e do despertar. O desenvolvimento do sono, do pesadelo, tudo é transtornado. Atenua-se o calor da fraternidade e se desenvolve na criança a exigência da boneca ou da confortadora mão materna.

Na burguesia avança a idéia do quarto individual, o quarto da moça transformado em templo de sua vida privada, confundindo-se com a personaldade da ocupante. Os locais de defecação são, na verdade, busca do monólogo interior e em 1900 difunde-se o sanitário, mais tarde, transformado em banheiro. Este espaço transforma-se no templo de contemplação de si mesmo.

2.4. A higiene intima

Os progresso da higiene intima revolucionam a vida privada. A reconhecida influência do físico sobre o moral valoriza e recomenda o limpo e acentuam a delicadeza das elites, distinguindo-as do imundo Zé-povinho. Tudo contribui para o estabelecimento de um novo estatuto do desejo sexual e da repulsão, que avivam o impulso das práticas higiênicas. Normas regulam a prática do banho conforme o sexo, a idade, o temperamento e a profissão. A relação entre a água e esterilidade dificultam o avanço da higiene intima da mulher. A higiene tem um caráter fragmentado, além de que propaga-se das classes superiores para a burguesia.

No final do século a limpeza torna-se uma necessidade, traduzindo muitas vezes a idéia de dignidade. Para a elite a higiene para o povo estava ligada a aparência.

2.5. A ameaça do desejo

É no seio do espaço privado que o individuo se prepara para afrontar o olhar dos outros, revelando a constituição da imagem social do corpo. Surge o sucesso da lingerie, valorizando a nudez. Ocorrera a acumulação erótica evidenciada nas vestimentas femininas, que contribuirá para a renovar a mitologia libidinosa difundindo-se rapidamente por toda a sociedade.

Algo para reflexão seria o desejo de conservação o cuidado de proteger-se, o medo da castração, a permanente lembrança da ameaça do desejo realizando um neurótico encontro com a aceitação dos refinados complicadores, em harmonia com a pertubadora hipertrofia do imaginário erótico.

2.6. As estratégias da aparência

Dentro do privado aparece a toalete que prepara a aparição em público, difundido entre 1880 e 1910. O homem do século XIX não se orgulha de seu corpo, exceto de seus pêlos. Todas as modas deste século, inauguram a difusão de um novo estilo de vida privada.

2.7. O pudor e a vergonha

No século XIX, o pudor e a vergonha pretendem reger os comportamentos, ocultando um duplo sentimento: o medo de ver o Outro – o corpo - de outro, o temor de que o segredo íntimo seja violado pela indiscrição. Surgem ansiedades de todos os tipos, como “ o mal branco”, medo de sair e ser visto por desconhecidos, a eurofobia, medo de não impedir o rubor da face.

3. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA.

Coleção dirigida por Philippe Áries/Georges Duby - Historia da vida privada da revolução francesa à primeira Guerra (4) - Michelle Perrot.

Bastidores – O segredo do Individuo – pág. 419 – 455.

domingo, maio 02, 2010

NOTÁVEIS MULHERES BRASILEIRAS

Pesquisava rapidamente pela internet, dados biográficos sobre personalidades femininas que marcaram a história brasileira, e encontrei algumas referências que resolvi publicá-las aqui, sem deixar de citar a fonte pesquisa. Pareceu-me interessante resgatar um pouco a memória destas mulheres...

SÉCULO XVI

Madalena Caramuru

Filha da índia Moema e do português Diogo Álvares Corrêa, Madalena Caramuru foi a primeira mulher brasileira a saber ler e escrever, segundo atestam alguns historiadores, como Gastão Penalva e Francisco Varnhagen.

Em 1534, Madalena casou-se com Afonso Rodrigues, natural de Óbidos, Portugal, que segundo Gastão Penalva, foi o responsável pelo ingresso de Madalena no mundo das letras.

Madalena escreveu uma missiva de próprio punho ao Padre Manoel da Nóbrega, no dia 26 de março de 1561, pedindo que as crianças escravas fossem tratadas com dignidade. Oferecida a quantia de 30 peças para o resgate das crianças.

Em homenagem a Madalena, os Correios lançaram um selo que simboliza a luta pela alfabetização da mulher no Brasil, em 14 de novembro de 2001.


Mãe Benta

A lendária doceira Benta Maria da Conceição Torres, negra, inventou a receita de bolinhos feitos com ovos e açúcar que imortalizou seu nome como parte da culinária típica brasileira. Viveu no Rio de Janeiro no início do século 19 e era mãe do cônego Geraldo Leite Bastos.

Durante o período regencial, o padre Feijó costumava freqüentar a casa de Mãe Benta para conversar com o amigo Geraldo e saborear os quitutes preparados pela doceira.

Muitos procuraram imitar os bolinhos de Mãe Benta, mas as religiosas do Convento da Ajuda, no Rio de Janeiro, guardavam a sete chaves o segredo da receita. Faleceu no Rio de Janeiro, no dia 30 de agosto de 1851 e foi sepultada no Cemitério São Francisco de Paula.

Ana Pimentel

Ana Pimentel teve grande importância na construção do Brasil colonial. Casada com o nobre português Martim Afonso de Sousa, ela recebeu do marido a incumbência de administrar a capitania de São Vicente no dia 3 de março de 1534.

Em 1536, Ana fez uma carta de doação de sesmaria para Brás Cubas, que só tomou posso efetiva das terras em 1540. Nomeou ainda, sucessivamente, como capitão-mor da capitania de São Vicente, Antônio de Oliveira e Cristóvão de Aguiar d´Altero.

Em 1544, nomeou Brás Cubas capitão-mor e ouvidor da capitania e, contrariando ordenes do marido, autorizou, o acesso dos colonos ao planalto paulista, onde se encontravam terras mais férteis e um clima mais ameno do que no litoral.

Ana Pimentel providenciou o cultivo de laranja na capitania com o objetivo de combater o escorbuto, uma doença provocada pela falta de vitamina C que atacava os embarcados durante a travessia do Atlântico. É responsável também pela introdução do cultivo do arroz, do trigo e da criação de gado na região.

O papel administrativo de Ana Pimentel na capitania, por mais de uma década, foi reconhecido pelo sociólogo Gilberto Freire em seu discurso na Academia Pernambucana de Letras, em 11 de novembro de 1986.

SÉCULO XVII

Ana Paes d´Altro

Nascida provavelmente na Bahia em 1605, Ana Paes d´Altro, também conhecida como Ana de Holanda, foi uma figura emblemática e controversa do domínio holandês em Pernambuco.

Casou-se com o senhor de engenho Pêro Garcia em 8 de maio de 1624. Ficou viúva e se casou com Carlos de Tourlon, comandante da guarda do príncipe Maurício de Nassau. Neste momento, crescia entre os luso-brasileiros residentes em Pernambuco o descontentamento com o governo holandês.

O engenho de Ana Paes foi palco de um dos combates mais violentos da guerra contra os holandeses, ocorrido em 17 de agosto de 1645, que resultou na vitória das forças luso-brasileiras à custa de muitas perdas de ambas as partes. Por conta do episódio, o engenho de Ana Paes acabou conhecido como a Casa Forte, que deu nome à batalha e ao bairro do Recife.

Nos anos de 1970 o compositor Chico Buarque de Holanda escreveu, em parceria com Rui Guerra, o musical Calabar, onde o personagem de Ana de Holanda é o pivô dos atritos entre os protagonistas.

Rosa Maria de Siqueira

Rosa Maria de Siqueira foi uma heroína dos mares. Nasceu na capitania de São Vicente, filha de Isabel da Costa Siqueira e Francisco Luís Castelo Branco.

Em viagem a Portugal a esquadra em que estava foi assaltada por piratas argelinos no meio do Oceano Atlântico. Em 1714, destacou-se com bravura na defesa das naus Nossa Senhora do Carmo e Santo Elias, carregadas de açúcar, tabaco e corante, além de 120 passageiros.

Rosa Maria dirigiu o movimento de resistência ao ataque, encorajando os combatentes, distribuindo armas e pólvora. Seus feitos no mar foram noticiados e referenciados na cidade de Lisboa e reconhecidos pela Corte portuguesa.


Maria Úrsula de Abreu e Lencastre

Maria Úrsula de Abreu e Lencastre ficou conhecida como a mulher soldado. Nasceu na capitania do Rio de Janeiro, em 1682, filha de João de Abreu.

Aos 18 anos fugiu da terra natal, disfarçada de homem, para Lisboa onde assentou praça como soldado em 1º de novembro de 1700. Na índia, destacou-se em números combates sem revelar o sexo.

Em 1714, retirou o disfarce e casou-se com o oficial militar Afonso Teixeira Arraes de Melo. Recebeu do rei D. João V uma renda regular. Morreu em Goa, na Índia, cercada de honras.


SÉCULO XVIII
Marquesa de Santos (1797-1867)

A aristocrata Domitila de Castro Canto e Melo nasceu no dia 27 de dezembro de 1797, em São Paulo. Amante oficial de Dom Pedro I, exerceu grande influência durante o Primeiro Reinado. Foi designada primeira dama da imperatriz D. Maria Leopoldina.

Domitila de Castro recebeu do imperador, com quem teve cinco filhos, o título de marquesa de Santos numa provocação a José Bonifácio de Andrada, que pertencia a uma família santista. Enfrentou séria oposição na corte mesmo depois de nomeada camarareira-mor da imperatriz. Seu poder se manteve até a morte da imperatriz em 1826.

O romance com Dom Pedro acabou quando ele resolveu acertar um segundo casamento com a duquesa de Leuchtemberg, Amélia Beauharnais. Domitila voltou para São Paulo e, em 1842, casou-se com o influente brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, com quem teve mais cinco filhos. Morreu em São Paulo no dia 3 de novembro de 1867, sendo sepultada no cemitério da Consolação (SP), cujas as terras foram doadas por ela ao Estado.

Maria Graham (1785-1842)


A escritora inglesa Maria Graham é a mais conhecida entre os viajantes estrangeiros que estiveram no Brasil no século 19. Deixou consideráveis manuscritos onde retratam suas impressões sobre o cotidiano brasileiro.

Em 1823, foi preceptora da princesa Maria da Glória. Nessa ocasião, acertou a ida à Londres para trazer livros e material didático. Retornando ao Rio de Janeiro, instalou-se no Paço Imperial, mas o convívio ficou difícil porque havia discordância em relação aos métodos didáticos que adotava, o que a levou a abandonar a tarefa e voltar para a Inglaterra.

De volta ao país, casou com lorde Calcott e, em 1824, publicou "Viagem ao Brasil" que narra a vida na corte de Dom Pedro e Dona Leopoldina. Após sua morte, em 1842, seu marido doou ao Museu Britânico os desenhos a lápis que Maria Graham fizera no Brasil.

SÉCULO XIX
Bertha Lutz (1894-1976)

Bertha Maria Júlia Lutz nasceu em São Paulo no dia 2 de agosto de 1894, filha da enfermeira inglesa Amy Fowler e do cientista e pioneiro da medicina tropical Adolfo Lutz. É uma das pioneiras da luta pelo voto feminino e pela igualdade de direitos entre homens e mulheres no país.

Desde 1918, Bertha tornou-se uma defensora incansável dos direitos da mulher no país. Publicou na "Revista da Semana" de 14 de dezembro uma carta denunciando o tratamento dado ao sexo feminino propondo a formação de uma associação de mulheres, visando a "canalizar todos esses esforços isolados".

Bertha empenhou-se na luta pelo voto feminino e junto com outras mulheres, entre as quais Maria Lacerda de Moura, criou, em 1919, a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, que foi o embrião da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF). Foi a segunda mulher a ingressar no serviço público brasileiro, após ser aprovada em concurso do Museu Nacional, no Rio de Janeiro - a primeira é Maria José Rabelo Castro Mendes, admitida em 1918 no Itamaraty.

Em 1922, representou as brasileiras na assembléia-geral da Liga das Mulheres Eleitoras, nos Estados Unidos, onde foi eleita vice-presidente da Sociedade Pan-Americana.

O direito de voto feminino foi estabelecido por decreto-lei do presidente Getúlio Vargas apenas dez anos depois, em 1932. Em 1936, Bertha Lutz assumiu o mandato de deputada federal na vaga deixada pelo titular, Cândido Mendes. Defendeu a mudança da legislação referente ao trabalho da mulher e dos menores de idade, propondo a igualdade salarial, a licença de três meses para a gestante e a redução da jornada de trabalho, então de 13 horas.

Quando a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher, Bertha, já doente, foi convidada pelo governo brasileiro a integrar a delegação do país no primeiro Congresso Internacional da Mulher, realizado na capital do México. Este foi seu último ato em prol da melhoria da condição feminina. Faleceu no Rio de Janeiro a 16 de setembro de 1976.

Chiquinha Gonzaga (1847-1935)

Francisca Edwiges Neves Gonzaga foi a primeira compositora da música popular brasileira, autora de duas mil composições e abolicionista. Nasceu no dia 17 de outubro de 1847, na cidade do Rio de Janeiro.

Aos 16 anos, foi forçada pelos pais a se casar com Jacinto Ribeiro do Amaral, um oficial da Marinha mercante com quem teve três filhos: João Gualberto, Maria do Patrocínio e Hilário.

O encontro de Chiquinha Gonzaga com o meio boêmio carioca aconteceu com o fim do seu casamento. Como uma mulher separada no século XIX era uma aberração na sociedade, Chiquinha pagou um preço alto. Foi expulsa de casa por seu pai que, a partir daquele momento, renegou sua paternidade. Levou consigo apenas o filho mais velho, João. Maria foi criada pela avó materna e Hilário, por uma tia.

Em 1877, estreou como compositora com a polca "Atraente", que foi publicada pela editora de Joaquim Antonio Calado, amigo que a ajudou a ingressar no universo musical. Com ele formou uma dupla que foi precursora do choro ou chorinho. Como maestrina, a estréia aconteceu com a opereta "A Corte na Roça", em 1885.

Ao lado da carreira de maestrina, compositora e pianeira, dedicou-se também às campanhas abolicionista e republicana. Chiquinha vendia suas músicas de porta em porta e, com o dinheiro obtido, libertou o escravo Zé da Flauta. Após a abolição da escravatura, compôs um hino em homenagem à princesa Isabel. Na campanha republicana, protestava contra a monarquia em locais públicos, utilizando-se do seu prestígio para propagar a idéia.

Chiquinha é a autora da primeira marcha carnavalesca do país, "Ô Abre-Alas", composta em 1899. Faleceu em seu apartamento, no dia 28 de fevereiro de 1935, antevéspera de Carnaval.

Cora Coralina (1889-1985)

Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretãs, pseudônimo Cora Coralina, nasceu em Goiás Velho, antiga capital do estado de Goiás, em 20 de agosto de 1889. Quando jovem, interessou-se por poesia e romances lendo tudo o que lhe chegava às mãos.

Aos 14 anos, começou a escrever pequenos poemas ou "escritinhos", como os chamavam, o que não era bem-visto pela família. Publicou em 1965 o livro "Poemas dos becos de Goiás e estórias mais" que teve mais de 10 edições nos anos seguintes. Nele destaca-se o "Poema do Milho" que exalta a natureza e "Poema da Vida". Onze anos depois compõe "Meu Livro de Cordel".

Aos 70 anos, com problemas financeiros, decidiu fazer doces de frutas para vender. Tinha orgulho de jamais ter escrito para se lamentar da vida. Preferia, ao invés, louvar as coisas da terra e sua gente.

Na década de 80, passou a se corresponder com o poeta Carlos Drummond de Andrade, que admirava seu talento, a qualidade do seu caráter e a considerava uma mulher de espírito. Faleceu em Goiânia no dia 10 de abril de 1985.

Cora Coralina foi homenageada no Festival Nacional de Mulheres nas Artes e recebeu o título de doutora honoris causa, concedido pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Em 1983, lança "Vintém de Cobre-Meias Confissões de Aninha", recebendo em seguida os o título de Intelectual do Ano da União Brasileira de Escritores e o troféu Juca Pato, tendo sido a primeira mulher a ser agraciada com eles.

Ana Néri (1814-1890)

Nascida em 13 de dezembro de 1814 na então Vila da Cachoeira do Paraguassu, Bahia, Ana Justina Ferreira Néri entrou para a história com precursora da Enfermagem no Brasil e uma das heroínas da Guerra do Paraguai.

Ana Néri ficou por quase cinco anos servindo como enfermeira voluntária ao lado do Exército brasileiro. Pretendia amenizar o sofrimento dos que lutavam pela defesa da pátria, entre eles seus três filhos: Isidoro Antônio, Antônio Pedro e Justiniano. Trabalhou no hospital de Corrientes, onde cuidou de mais de 6 mil soldados internados, em Salto, Humaitá, Curupaiti e Assunção. Na capital paraguaia montou uma enfermaria-modelo com os recursos financeiros pessoais que herdou da família.

Em sua homenagem, Carlos Chagas batizou com seu nome a primeira escola oficial brasileira de enfermagem de alto padrão, em 1926. Vitor Meireles pintou seu retrato em tamanho natural, que foi exposto na sede da Cruz Vermelha Brasileira.

Ana Néri faleceu em 20 de maio de 1880, aos 66 anos. Está sepultada no cemitério de São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro.

SÉCULO XX
Benedita da Silva

Política ativista do Movimento Negro e Feminista, Benedita Souza da Silva Santos foi a primeira senadora negra do Brasil. Natural do Rio de Janeiro, Bené, como ficou conhecida, começou a trabalhar desde menina: vendeu limão e amendoim, foi operária fabril e entregava a roupa lavada e passada por sua mãe.

Foi professora da escola comunitária da favela Chapéu Mangueira, adotando o método Paulo Freire de alfabetização de crianças e adultos. Organizou associação das mulheres do Chapéu Mangueira, que fundou e presidiu.

Em 1982, foi eleita vereadora nas eleições municipais pela legenda do Partido dos Trabalhadores (PT). Tornou-se a primeira mulher negra a atingir os mais altos cargos da história do Brasil: vereadora, deputada federal constituinte, reeleita para um segundo mandato em 1990, senadora, em 1994, e vice-governadora no pleito de 1998.

Seus mandatos foram marcados pela defesa das mulheres e negros. É autora do projeto que inscreveu Zumbi dos Palmares no panteão dos heróis nacionais; fez de 20 de novembro o "Dia nacional da consciência negra"; responsável pela criação de delegacias especiais para apurar crimes raciais; pela obrigatoriedade do quesito cor em documento; lei contra assédio e direito trabalhistas extensivos às empregadas domésticas.

Na noite de 5 de abril de 2002, Benedita da Silva assumiu o comando do Estado do Rio de Janeiro, com a renúncia do então governador. No dia 23 de dezembro de 2002, a primeira mulher a governar o Estado do Rio recebeu do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva a indicação para o Ministério da Assistência e Promoção Social, cargo que ocupou até janeiro de 2004.

Irmã Dulce (1914-1992)

Maria Rita Lopes Pontes nasceu em Salvador no ano de 1914. Aos 13 anos, tentou entrar para o Convento do Desterro, mas foi recusada por ser jovem demais.

Em 1932, entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, em Sergipe. Após seis anos de noviciado, recebeu o hábito de freira e adotou o nome de Dulce, em homenagem a mãe.

De forma obstinada e com uma fé inabalável, Irmã Dulce saía pelas ruas do centro de Salvador em busca de doações. Começou seu trabalho num barracão, para onde levava doentes e desabrigados. Ali trabalhou com idosos, doentes, pobres, crianças e jovens carentes. Chegou a receber a visita do Papa João Paulo II quando ele esteve no Brasil em 1980.

Em 1959, Irmã Dulce conseguiu um terreno para construir o Albergue Santo Antônio. Em 1970, foi fundado o Hospital Santo Antônio, ao lado do albergue, obra que hoje possui mais de 1.000 leitos e atende a 4.000 pessoas por dia. Irmã Dulce também abriu um orfanato para 300 menores e passou muitos anos saindo diariamente para pedir donativos de porta em porta.

Com problemas respiratórios, Irmã Dulce foi internada no dia 11 de novembro de 1990, passando por vários hospitais. Faleceu no dia 13 de março de 1992, em sua casa, no Convento Santo Antonio.

Era chamada de Irmã Dulce dos Pobres, Peregrina da Caridade ou Mãe Dulce pelos milhares de necessitados que atendia, mas a verdade é que todos gostariam de chamá-la de Santa Dulce da Bahia, como fazia o escritor Jorge Amado.

Rachel de Queiroz (1910 - 2003)

Nascida numa família de intelectuais no dia 17 de novembro de 1910, em Fortaleza (CE), Rachel de Queiroz foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 1977. Era prima do escritor José de Alencar e teve como tataravô Bárbara Pereira de Alencar, uma das líderes da revolta republicana deflagrada no Nordeste em 1817.

Em 1930, publicou seu primeiro romance, O Quinze, que narra o drama dos flagelados da seca e a pobreza dos nordestinos. Demonstrando preocupação com questões sociais e hábil na análise psicológica de seus personagens, teve papel de destaque no desenvolvimento do romance nordestino.

Em 1939, foi agraciada com o Prêmio Felipe d'Oliveira pelo livro As Três Marias. Escreveu ainda João Miguel (1932), Caminhos de Pedras (1937) e O Galo de Ouro (1950).

Em 1992, publicou o romance Memorial de Maria Moura, que deu a Raquel diversos prêmios, entre eles o "Romance do Ano", conferido pela Associação Paulista de Críticos de Arte, o "Intelectual do Ano", conferido pela União Brasileira de Escritores e o "Prêmio Camões", concedido em Lisboa para o melhor autor do ano em língua portuguesa.

Na política, a escritora participou da campanha que levou à derrubada de Getúlio Vargas em 1945 e ajudou nas articulações do golpe de 1964, que depôs João Goulart.

Rachel de Queiroz morreu no dia 4 de novembro de 2003, aos 92 anos, poucos dias após ter sofrido um acidente vascular cerebral.

Fonte:
"Dicionário Mulheres do Brasil de 1500 até a Atualidade", coordenação de Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil, editora Jorge Zahar Editor.

Sites:

Mulher Governo

(http://www.redegoverno.gov.br/mulhergoverno/)

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