ESTE SOU EU

CARL ROGERS. Este sou Eu. In: Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1976.
Capítulo 1.
Este capítulo é síntese de duas exposições muito pessoais que Carl Rogers faz para a Universidade de Brandeis e a Universidade de Wisconsin, na realização de conferências. São experiências pessoais e temas filosóficos que se tornaram para ele mais significativos. “Quem sou eu? Um psicólogo cujos interesses principais foram durante muitos anos, os da psicoterapia “, relata o autor. Ele extrai alguns parágrafos do prefácio do seu livro Client-Centered Therapy, para indicar subjetivamente o que isso significa para ele. “Este livro trata do sofrimento e da esperança, da ansiedade e da satisfação que invadem o consultório de qualquer psicoterapeuta. Trata da minha tentativa de captar a sua experiência, de aprender o significado, o sentimento, a sensação e o “sabor” que isso representa para ele. Trata da vida tal como ela é realmente vivida e que se revela no processo terapêutico – com sua força cega e a sua tremenda capacidade de destruição, mas sua tendência avassaladora para o crescimento, se se dispuser das condições para essa maturação.”
Carl Rogers, foi o quarto de seis filhos. Educado numa família extremamente unida e de atmosfera religiosa e moral muito estrita e intransgigente, que cultuava o valor do trabalho. Seus pais diziam que eles eram diferentes das outras pessoas: nada de álcool, nada de danças, de jogos de cartas, ou seja, uma vida social muito reduzida e muito trabalho. Tornou-se assim uma criança solitária que lia incessantemente. Aos doze anos, na fazenda de seu pai, interessou-se por duas coisas que tiveram provavelmente uma influência real no seu trabalho futuro. Ficava fascinado pelas grandes borboletas noturnas, e mais tarde por agricultura científica. Aprendeu como era difícil verificar uma hipótese. Adquiriu deste modo conhecimento e o respeito pelos métodos científicos através dos trabalhos práticos.
Durante seus dois primeiros anos de curso secundário alterou-se a sua vocação profissional em consequencia de apaixonadas reuniões estudantis sobre religião: desistiu da agricultura científica a favor do sacerdócio. Transferiu-se da agricultura para a história. No primeiro ano foi escolhido entre os doze estudantes americanos para uma viagem à China, para participar num Congresso Internacional da Federação Mundial dos Estudantes Cristãos. Fato que, provocou sua independencia de pensamento, resultando em grandes tensões nas relações com seus pais, mas tornando-o uma pessoa independente. Durante esta viagem se apaixonou-se por uma moça que conhecia desde a infância, e com quem se casou com consentimento relutante dos seus pais, logo que terminou os estudos secundários. Carl Rogers estava convencido de que o apoio do amor da jovem com quem se casou, e a afeição da sua companhia ao longo de todos estes anos foram um fator de enriquecimento extremamente importante na sua vida.
Dediciu então entrar no Union Theological Seminary, neste tempo o seminário mais liberal do país (1924), para se preparar para uma missão religiosa. Esteve em contanto com o Dr. A.C. McGiffert que tinha uma profunda crença na liberdade de investigação e na busca da verdade, levasse ela onde levasse. Sentiasse interessado por questões tais como o sentido da vida, a possibilidade de uma melhoria construtiva da vida do indivíduo, mas não poderia trabalhar no campo determinado por uma doutrina religiosa específica em que devia acreditar. Então logo, interessou-se por conferências e cursos sobre psicologia e psiquiatria. Começou a trabalhar em filosofia da educação com William H. Kilpatrick, que considerava um grande professor. Iniciou trabalhos clínicos com crianças, sob a direção de Leta Hollingworth, uma pessoal sensível e prática. E logo, dedicou-se ao trabalho psicopedagógico e começou a pensar em tornar-se psicólogo clínico. Foi bolsista interno no Instituto para Orientação da Criança, convivendo com David Levy e Lawson Lowrey, mergulhou nas perspectivas dinâmicas de Freud. Após dois anos no Instituto, empregou-se como psicólogo no “Child Study Departament” da Associação para a Proteção à Infância em Rochester, Nova Iorque.
Os doze anos que passou em Rochester foram altamente preciosos para ele. Durante os primeiros oito anos, absorveu-se completamente no seu serviço de psicologia prática, num trabalho de diagnóstico e de planejamento de casos com crianças delinquentes e sem recursos, crianças que eram enviadas pelos tribunais e pelos serviços sociais. Foi um período de isolamento profissional, um período onde aprender era uma obrigação. Ao longo, deste período em Rochester, Carl Rogers, começou a duvidar se seria um psicólogo. A Universidade de Rochester, fê-lo ver que o trabalho que ele realizava não era psicologia e que não estava interessada no seu ensino no departamento de Psicologia. Começou então a dar aulas no Instituto de Sociologia, sobre como compreender e tratar crianças difícieis. Pouco depois, o Instituto de Pedagogia, tambem incluiu suas aulas no programa de educação, e finalmente o departamento de Psicologia pediu autorização para fazer o mesmo, acabando por aceitá-lo como psicólogo.
Foi neste período que seu filho e sua filha atravessaram a infância, ensinando-o muito mais acerca do indivíduo, da sua evolução e das suas relações do que aquilo que ele poderia ter aprendido profissionalmente. Ele não acredita ter sido muito bom pai durante os seus primeiros anos, mas, felizmente, a sua esposa era muito boa mãe, pelo que, com a passagem do tempo, ele foi se tornando um pai melhor e mais compreensivo.
Em 1940 aceitou o cargo de professor efetivo na Universidade Estadual de Ohio. Acreditava que sua admissão se deu devido a publicação de sua obra Clinical Treatment of the Problem Child que elaborara a custo durante o período de férias ou em curtos feriados. A vida profissional de Carl Rogers – cinco anos em Ohio, doze anos na Universidade de Chicago e quatro na Universidade de Wisconsin – esta suficientemente bem documentada naquilo que escreveu. Ele limitou-se a fazer alguns apontamentos sobre aspectos que lhe pareceram significativos. A saber:
Aprendeu a viver numa relação terapêutica cada vez mais profunda com um número sempre crescente de clientes. “A terapia é a experiência na qual posso me distanciar e tentar ver essa rica experiência subjetiva com objetividade, aplicando todos os elegantes métodos científicos para determinar se não estou iludindo a mim mesmo” . Os seus períodos de trabalhos mais fecundos foram os momentos em que pode afastar-se completamente do que os outros pensavam, das obrigações profissionais e das exigências do dia-a-dia, quando ganhava uma perspectiva sobre o que estava fazendo. Sua mulher e ele encontravam lugares de refúgio isolados no México e nas Caraíbas, onde ninguém sabia que ele era um psicólogo; aí, suas principais atividades eram pintar, nadar, fazer pesca submarina e fotografia a cores. Ele sabia o valor do privilégio de estar só.
ALGUMAS COISAS FUNDAMENTAIS APRENDIDAS POR CARL ROGERS
"Nas minhas relações com as pessoas descobri que não ajuda, a longo prazo, agir como se eu fosse alguma coisa que não sou. Não serve de nada agir calmamente e com delicadeza num momento em que estou irritado e disposto a criticar. Não me serve de nada agir como se eestivesse bem quando me sinto doente. Tudo o que fica dito, significa que nunca achei que fosse útil ou eficaz nas minhas relações com as outras pessoas tentar manter uma atitude de fachada, agindo de certa maneira na superfície quando estou passando pela experiencia de algo completamente diferente. Descobri que sou mais eficaz quando posso ouvir a mim mesmo aceitando-me, e quando posso ser eu mesmo: tenho a impressão de que com os anos, aprendi a tornar-me mais capaz de ouvir a mim mesmo, de modo que sei melhor do que antigamente o que estou sentindo num dado momento – que sou capaz de compreender que estou irritado, ou que sinto em relação a um indivíduo uma impressão de rejeição, ou, pelo contrário, de afeição ou então ainda, que me sinto aborrecido e sem interesse pelo que está se passando; Atribuo um enorme valor ao fato de poder me permitir compreender uma outra pessoa. Se me permito compreender, na realidade, uma outra pessoa, é possível que essa compreensão acarrete uma alteração. E todos nós temos medo de mudar. Compreender é duplamente enriquecedor. Verifiquei que me enriquece abrir canais através dos quais os outros possam comunicar os seus sentimentos, a sua particular percepção do mundo. Consciente de que a compreensão compensa, procuro reduzir as barreiras entre os outros e mim, para que eles possam, se for esse o seu desejo, revelar-se mais profundamente.
É sempre altamente enriquecedor poder aceitar outra pessoa. Toda pessoa é uma ilha, no sentido muito concreto do termo; a pessoa só pode construir uma ponte para comunicar com as outras ilhas se primeiramente se dispôs a ser ela mesma e se lhe é permitido ser ela mesma. Quanto mais aberto estou às realidades em mim e nos outros, menos me vejo procurando, a todo o custo, remediar as coisas. Posso ter confiança nas minhas experiências. A minha atitude é muito bem expressa por Max Weber, o artista, quando diz” Ao prosseguir os meus humildes esforços de criação, dependo numa grande medida daquilo que ainda não sei e daquilo que ainda não fiz”. A experiência é para mim a suprema autoridade. A minha própria experiência é a pedra de toque de toda a validade. Os fatos são amigos. Aquilo que é mais pessoal é o que há de mais geral. A experiência mostrou-me que as pessoas têm fundamentalmente uma orientação positiva. A vida no que tem de melhor é um processo que flui, que se altera e onde nada está fixado.

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