quinta-feira, outubro 01, 2009

ANÁLISE

Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.


Fernando Pessoa, 12-1911

domingo, junho 21, 2009

EDUCAÇÃO? EDUCAÇÕES: APRENDER COM O ÍNDIO - REFLEXÃO


A partir da reflexão sobre o texto “Educação? Educações: aprender com o índio” de Carlos Rodrigues Brandão, apreende-se que a educação acontece de forma ampla e diversificada e que cotidianamente aprende com o homem a continuar o trabalho da vida. Compreende-se que não existe apenas um único modelo, um único local determinado para seu acontecimento e ainda, um único responsável para transmiti-la, mas existem várias educações. O saber é adquirido através de diferentes vivências e situações de trocas entre pessoas em todos os contextos sociais coletivos, tais como, os ambientes familiares, religiosos, culturais e de lazer, que são favoráveis para que a educação aconteça e desenvolva cidadãos mais críticos e participativos na construção de uma sociedade mais justa. A educação participa do processo de produção de crenças e ideias, de qualificações e especialidades que envolvem a troca de símbolos, bens e poderes, e que em conjunto constrói tipos de sociedade. A força desta está em ajudar a pensar e a criar o saber que constitui e legitima os tipos de homens, e ainda, integrar o processo de resistência contra a dominação contribuindo significativamente para uma pratica social transformadora. Mas, sua fraqueza está em colaborar para manutenção e reprodução das condições econômico-sociais adversas da sociedade e da ideologia dos segmentos dominantes. Se a missão da educação visa “transformar sujeitos e mundo em alguma coisa melhor”, não há como ignorar as outras formas de educação e pretender a imposição de um único modelo de educação que dê conta disto. Caso contrário, a elaboração de um discurso ideológico com vistas à reprodução de uma mesma situação provocará resultados não diretamente esperados e contrários ao seu objetivo real. Logo, é preciso pensar a educação para não correr o risco de deseducar ao pretender educar.


sábado, junho 20, 2009

ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA

CARL ROGERS. Os fundamentos de uma abordagem centrada na pessoa. In: Um jeito de Ser. São Paulo: EPU, 1987.
Capítulo 3. Este capítulo é fundamentado num artigo escrito em 1963, numa idéia embrionária que germinou numa conferência sobre a teoria da psicologia humanística, realizada no ínicio dos anos setenta e que resultou num artigo “A tendência formativa” (1978), e na leitura de três autores que se encontram no limite extremo da ciência atual: Fritjof Capra, Magohah Murayama e Ilya Prigogine. Este capítulo baseia-se em muitas fontes e integra essas idéias antigas e recentes na estrutura do modo de ser centrado na pessoa. Duas tendências a serem destacadas: Tendência à realização, uma característica da vida orgânica, e Tendência formativa, característica do universo como um todo. Juntas constituem a pedra fundamental da abordagem centrada na pessoa. Os indivíduos possuem dentro de si vastos recursos para a autocompreensão e para modificação de seus autoconceitos, de suas atitudes e de seu comportamento autônomo. Esses recursos podem ser ativados se houver um clima passível de definição, de atitudes psicológicas facilitadoras. Há três condições que deve estar presentes para que se crie um clima facilitador de crescimento. Elas se aplicam, na realidade, a qualquer situação na qual o objetivo seja o desenvolvimento da pessoa.
Primeiro elemento: autenticidade, sinceridade ou congruência.
Quanto mais o terapeuta for ele mesmo na relação com o outro, quanto mais puder remover as barreiras profissionais ou pessoais, maior a probabilidade de que o cliente mude e cresça de um modo construtivo. O terapeuta se faz transparente para o cliente. O cliente pode ver claramente o que o terapeuta é na relação. Portanto, dá-se uma grande congruência, entre o que está sendo vivido em nível profundo, o que está presente na consciência e o que está sendo expresso pelo cliente.
Segundo elemento: aceitação, interesse ou consideração, chamado de “aceitação incondicional”.
O terapeuta deseja que o cliente expresse o sentimento que está ocorrendo no momento, qualquer que ele seja – confusão, ressentimento, medo, amor, etc. O terapeuta tem uma consideração integral e não condicional pelo cliente.
Terceiro elemento: compreensão empática.
O terapeuta capta com precisão os sentimentos e os significados pessoais que o cliente está vivendo e comunica essa compreensão ao cliente. Se as pessoas são aceitas e consideradas, elas tendem a desenvolver uma atitude de maior consideração em relação a si mesmas. Quando as pessoas são ouvidas de modo empático, isto lhes possibilita ouvir mais cuidadosamente o fluxo de suas experiências internas. A abordagem centrada no cliente baseia-se na confiança em todos os seres humanos e em todos os organismos. Pouco importa que o estímulo venha de dentro ou de fora, pouco importa que o ambiente seja favorável ou desfavorável. Em qualquer uma dessas condições, os comportamentos de um organismo estarão voltados para a sua manutenção, seu crescimento e sua reprodução. Essa é a própria natureza do processo que chamamos vida. A tendência realizadora pode, evidentemente, ser frustrada ou desvirtuda, mas não pode ser destruída sem que se destrua também o organismo. Esta tendência construtiva e poderosa é o alicerce da abordagem centrada na pessoa. O organismo em seu estado normal, busca a sua própria realização, a auto-regulação e a independência do controle externo. Quando consigo criar um fluído amniótico psicológico surge movimento para a frente, de natureza construtiva. O substrato de toda a motivação é a tendência do organismo à auto-realização. Parece existir no universo uma tendência formativa que pode ser observada em qualquer nível. Essa tendência vem recebendo muito menos atenção do que merece. Não é preciso descrever todo o processo gradual da evolução orgânica. Já temos conhecimento da complexidade cada vez maior dos organismos. Nem sempre são bem-sucedidos em sua adaptação a um ambiente em contínua mudança, mas a tendência à complexidade é sempre evidente. O universo está em constante construção e criação, assim como em deterioração. Esse processo também é evidente no ser humano. Havendo maior autoconsciência torna-se possível uma escolha mais bem fundamentada, uma escolha mais livre de introjeções, uma escolha consciente mais em sintonia com o fluxo evolutivo. Essa pessoa está potencialmente mais consciente, não só dos estímulos com também das idéias e sonhos, do fluxo de sentimentos, emoções e reações fisiológicas advindas do seu interior. Quanto maior essa consciência, mais a pessoa flutuará segura numa direção afinada com o fluxo evolutivo.

ESTE SOU EU

CARL ROGERS. Este sou Eu. In: Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1976.
Capítulo 1.
Este capítulo é síntese de duas exposições muito pessoais que Carl Rogers faz para a Universidade de Brandeis e a Universidade de Wisconsin, na realização de conferências. São experiências pessoais e temas filosóficos que se tornaram para ele mais significativos. “Quem sou eu? Um psicólogo cujos interesses principais foram durante muitos anos, os da psicoterapia “, relata o autor. Ele extrai alguns parágrafos do prefácio do seu livro Client-Centered Therapy, para indicar subjetivamente o que isso significa para ele. “Este livro trata do sofrimento e da esperança, da ansiedade e da satisfação que invadem o consultório de qualquer psicoterapeuta. Trata da minha tentativa de captar a sua experiência, de aprender o significado, o sentimento, a sensação e o “sabor” que isso representa para ele. Trata da vida tal como ela é realmente vivida e que se revela no processo terapêutico – com sua força cega e a sua tremenda capacidade de destruição, mas sua tendência avassaladora para o crescimento, se se dispuser das condições para essa maturação.”
Carl Rogers, foi o quarto de seis filhos. Educado numa família extremamente unida e de atmosfera religiosa e moral muito estrita e intransgigente, que cultuava o valor do trabalho. Seus pais diziam que eles eram diferentes das outras pessoas: nada de álcool, nada de danças, de jogos de cartas, ou seja, uma vida social muito reduzida e muito trabalho. Tornou-se assim uma criança solitária que lia incessantemente. Aos doze anos, na fazenda de seu pai, interessou-se por duas coisas que tiveram provavelmente uma influência real no seu trabalho futuro. Ficava fascinado pelas grandes borboletas noturnas, e mais tarde por agricultura científica. Aprendeu como era difícil verificar uma hipótese. Adquiriu deste modo conhecimento e o respeito pelos métodos científicos através dos trabalhos práticos.
Durante seus dois primeiros anos de curso secundário alterou-se a sua vocação profissional em consequencia de apaixonadas reuniões estudantis sobre religião: desistiu da agricultura científica a favor do sacerdócio. Transferiu-se da agricultura para a história. No primeiro ano foi escolhido entre os doze estudantes americanos para uma viagem à China, para participar num Congresso Internacional da Federação Mundial dos Estudantes Cristãos. Fato que, provocou sua independencia de pensamento, resultando em grandes tensões nas relações com seus pais, mas tornando-o uma pessoa independente. Durante esta viagem se apaixonou-se por uma moça que conhecia desde a infância, e com quem se casou com consentimento relutante dos seus pais, logo que terminou os estudos secundários. Carl Rogers estava convencido de que o apoio do amor da jovem com quem se casou, e a afeição da sua companhia ao longo de todos estes anos foram um fator de enriquecimento extremamente importante na sua vida.
Dediciu então entrar no Union Theological Seminary, neste tempo o seminário mais liberal do país (1924), para se preparar para uma missão religiosa. Esteve em contanto com o Dr. A.C. McGiffert que tinha uma profunda crença na liberdade de investigação e na busca da verdade, levasse ela onde levasse. Sentiasse interessado por questões tais como o sentido da vida, a possibilidade de uma melhoria construtiva da vida do indivíduo, mas não poderia trabalhar no campo determinado por uma doutrina religiosa específica em que devia acreditar. Então logo, interessou-se por conferências e cursos sobre psicologia e psiquiatria. Começou a trabalhar em filosofia da educação com William H. Kilpatrick, que considerava um grande professor. Iniciou trabalhos clínicos com crianças, sob a direção de Leta Hollingworth, uma pessoal sensível e prática. E logo, dedicou-se ao trabalho psicopedagógico e começou a pensar em tornar-se psicólogo clínico. Foi bolsista interno no Instituto para Orientação da Criança, convivendo com David Levy e Lawson Lowrey, mergulhou nas perspectivas dinâmicas de Freud. Após dois anos no Instituto, empregou-se como psicólogo no “Child Study Departament” da Associação para a Proteção à Infância em Rochester, Nova Iorque.
Os doze anos que passou em Rochester foram altamente preciosos para ele. Durante os primeiros oito anos, absorveu-se completamente no seu serviço de psicologia prática, num trabalho de diagnóstico e de planejamento de casos com crianças delinquentes e sem recursos, crianças que eram enviadas pelos tribunais e pelos serviços sociais. Foi um período de isolamento profissional, um período onde aprender era uma obrigação. Ao longo, deste período em Rochester, Carl Rogers, começou a duvidar se seria um psicólogo. A Universidade de Rochester, fê-lo ver que o trabalho que ele realizava não era psicologia e que não estava interessada no seu ensino no departamento de Psicologia. Começou então a dar aulas no Instituto de Sociologia, sobre como compreender e tratar crianças difícieis. Pouco depois, o Instituto de Pedagogia, tambem incluiu suas aulas no programa de educação, e finalmente o departamento de Psicologia pediu autorização para fazer o mesmo, acabando por aceitá-lo como psicólogo.
Foi neste período que seu filho e sua filha atravessaram a infância, ensinando-o muito mais acerca do indivíduo, da sua evolução e das suas relações do que aquilo que ele poderia ter aprendido profissionalmente. Ele não acredita ter sido muito bom pai durante os seus primeiros anos, mas, felizmente, a sua esposa era muito boa mãe, pelo que, com a passagem do tempo, ele foi se tornando um pai melhor e mais compreensivo.
Em 1940 aceitou o cargo de professor efetivo na Universidade Estadual de Ohio. Acreditava que sua admissão se deu devido a publicação de sua obra Clinical Treatment of the Problem Child que elaborara a custo durante o período de férias ou em curtos feriados. A vida profissional de Carl Rogers – cinco anos em Ohio, doze anos na Universidade de Chicago e quatro na Universidade de Wisconsin – esta suficientemente bem documentada naquilo que escreveu. Ele limitou-se a fazer alguns apontamentos sobre aspectos que lhe pareceram significativos. A saber:
Aprendeu a viver numa relação terapêutica cada vez mais profunda com um número sempre crescente de clientes. “A terapia é a experiência na qual posso me distanciar e tentar ver essa rica experiência subjetiva com objetividade, aplicando todos os elegantes métodos científicos para determinar se não estou iludindo a mim mesmo” . Os seus períodos de trabalhos mais fecundos foram os momentos em que pode afastar-se completamente do que os outros pensavam, das obrigações profissionais e das exigências do dia-a-dia, quando ganhava uma perspectiva sobre o que estava fazendo. Sua mulher e ele encontravam lugares de refúgio isolados no México e nas Caraíbas, onde ninguém sabia que ele era um psicólogo; aí, suas principais atividades eram pintar, nadar, fazer pesca submarina e fotografia a cores. Ele sabia o valor do privilégio de estar só.
ALGUMAS COISAS FUNDAMENTAIS APRENDIDAS POR CARL ROGERS
"Nas minhas relações com as pessoas descobri que não ajuda, a longo prazo, agir como se eu fosse alguma coisa que não sou. Não serve de nada agir calmamente e com delicadeza num momento em que estou irritado e disposto a criticar. Não me serve de nada agir como se eestivesse bem quando me sinto doente. Tudo o que fica dito, significa que nunca achei que fosse útil ou eficaz nas minhas relações com as outras pessoas tentar manter uma atitude de fachada, agindo de certa maneira na superfície quando estou passando pela experiencia de algo completamente diferente. Descobri que sou mais eficaz quando posso ouvir a mim mesmo aceitando-me, e quando posso ser eu mesmo: tenho a impressão de que com os anos, aprendi a tornar-me mais capaz de ouvir a mim mesmo, de modo que sei melhor do que antigamente o que estou sentindo num dado momento – que sou capaz de compreender que estou irritado, ou que sinto em relação a um indivíduo uma impressão de rejeição, ou, pelo contrário, de afeição ou então ainda, que me sinto aborrecido e sem interesse pelo que está se passando; Atribuo um enorme valor ao fato de poder me permitir compreender uma outra pessoa. Se me permito compreender, na realidade, uma outra pessoa, é possível que essa compreensão acarrete uma alteração. E todos nós temos medo de mudar. Compreender é duplamente enriquecedor. Verifiquei que me enriquece abrir canais através dos quais os outros possam comunicar os seus sentimentos, a sua particular percepção do mundo. Consciente de que a compreensão compensa, procuro reduzir as barreiras entre os outros e mim, para que eles possam, se for esse o seu desejo, revelar-se mais profundamente.
É sempre altamente enriquecedor poder aceitar outra pessoa. Toda pessoa é uma ilha, no sentido muito concreto do termo; a pessoa só pode construir uma ponte para comunicar com as outras ilhas se primeiramente se dispôs a ser ela mesma e se lhe é permitido ser ela mesma. Quanto mais aberto estou às realidades em mim e nos outros, menos me vejo procurando, a todo o custo, remediar as coisas. Posso ter confiança nas minhas experiências. A minha atitude é muito bem expressa por Max Weber, o artista, quando diz” Ao prosseguir os meus humildes esforços de criação, dependo numa grande medida daquilo que ainda não sei e daquilo que ainda não fiz”. A experiência é para mim a suprema autoridade. A minha própria experiência é a pedra de toque de toda a validade. Os fatos são amigos. Aquilo que é mais pessoal é o que há de mais geral. A experiência mostrou-me que as pessoas têm fundamentalmente uma orientação positiva. A vida no que tem de melhor é um processo que flui, que se altera e onde nada está fixado.

TERAPIA COGNITIVA

Aaron T. Beck e Brad A. Alford. Teoria. In: O poder integrador da terapia cognitiva.
A teoria congnitiva articula a maneira através da qual os processos cognitivos estão envolvidos na psicopatologia e na psicoterapia efetiva. Nesta teoria a natureza e a função do processamento de informação (atribuição de significado) constitui a chave para entender o comportamento maladaptativo e os processos terapêuticos positivos. A conceitualização congnitiva da psicoterapia fornece estratégias para corrigir os conceitos disfuncionais. A estrutura teórica da terapia cognitiva constitui uma “teoria de teorias”: é uma teoria formal dos efeitos de teorias pessoais (informais) ou construções de realidade. A teoria é essencial para a prática clínica. A terapia cognitiva permite que a pessoa (através de exercícios para casa conjuntamente desenvolvidos) teste a teoria cognitiva no contexto de seu ambiente natural e de seu sistema de crenças. Esta terapia é a aplicação da teoria cognitiva de psicopatologia ao caso individual. Aaron Beck, na tentativa de fornecer apoio empírico para certas formulações psicodinâmicas de depressão, encontrou algumas anomalias – fenômenos incosistentes com o modelo psicanalítico. A teoria cognitiva originou-se de tentativas de testar os principios teóricos específicos da psicanálise. Para esta teoria, a cognição ( função que envolve deduções sobre nossas experiências e sobre a ocorrência e o controle de eventos futuros) é a chave para os transtornos psicológicos. A cognição inclui o processo de identificar e prever relações complexas entre eventos, de modo a facilitar a adaptação a ambientes passíveis de mudança.
Os axiomas formais desta teoria são:
1. O principal caminho do funcionamento ou da adaptação psicológica consiste de estruturas de cognição com significado, denominados esquemas. “significado” refere-se à interpretação da pessoa sobre um determinado contexto e da relação daquele contexto com o self.
2. A função da atribuição de significado (tanto a nível automático como deliberativo) é controlar os vários sistemas psicológicos. O significado ativa estratégias para adaptação.
3. As influências entre sistemas cognitivos e outros sistemas são interativas.
4. Cada categoria de significado tem implicações que são traduzidas em padrões específicos de emoção, atenção, memória e comportamento. Isto é denominado especificidade do conteúdo cognitivo.
5. Embora os significados sejam construídos pela pessoa, eles são corretos ou incorretos em relação a um determinado contexto ou objetivo. Quando ocorre uma distorção cognitiva ou preconcepção, os significados são disfuncionais ou maladaptativos.
6. Os individuos são predispostos a fazer construções cognitivas falhas específicas (distorções cognitivas). Estas predisposições são denominadas vulnerabilidades cognitivas. Especificidade cognitiva e vulnerabilidade cognitiva estão inter-relacionadas.
7. A psicopatologia resulta de significados maladaptativos construidos em relação ao self, ao contexto ambiental (experiência) e ao futuro (objetivos), que juntos são denominados de a tríade cognitiva.
8. Há dois níveis de significado: (a) o significado público ou objetivo de um evento e (b) o significado pessoal ou privado.
9. Há três níveis de cognição: (a) o pré-consciente, o não-intencional, o automático; (b) o nível consciente; e (c) o nível metacognitivo, que inclui respostas “realísticas” ou “racionais” (adaptativas).
10. Os esquemas evoluem para facilitar a adaptação da pessoa ao ambiente, e são neste sentido estruturas teleonômicas.
Um determinado estado psicológico não é nem adaptativo nem maladaptativo em si, apenas em relação a ou no contexto do ambiente social e físico mais amplo no qual a pessoa está.
A natureza construtivista do significado
Meichenbaum (1993) sugeria que o construtivismo é “uma terceira metáfora que está orientando o atual desenvolvimento de terapias cognitivas-comportamentais” (p. 203). Ele definiu a perspectiva construtivista como “a idéia de que os seres humanos constroem ativamente suas realidades pessoais e criam seus próprios modelos representativos do mundo” (p. 203). Neimeyer (1993) afirma que o centro da teoria construtivista é “uma visão de seres humanos como agentes ativos que, individual e coletivamente, constroem o significado de seus mundos experienciais” (p. 222). A teoria cognitiva não apenas sugere a “construção” da realidade; ela também postula a especificidade do conteúdo cognitivo, no qual respostas emocionais específicas (normais e anormais) são associadas com diferentes tipos de construções (Beck, 1976, 1958a). A visão cognitiva é consistente com as teorias de condicionamento contemporâneas, que postulam tanto características de estimulo externo quanto mediações cognitivas destas (Davey, 1992).
Definição de personalidade
“personalidade” é o termo que aplicamos a padrões específicos de processos sociais, motivacionais e cognitivo-afetivos, cujos estudos individuais constituem as diferentes áreas de especialização da pesquisa psicológica.
Teoria Cognitiva de Personalidade
Beck e colaboradores (1990) sugeriu que os processos cognitivos, afetivos e motivacionais são determinados pelas estruturas, ou esquemas, idiossincrásicos, que constituem os elementos básicos da personalidade. A definição cognitiva de personalidade inclui processos esquemáticos individuais, que teoricamente determinam a operação dos principais sistemas de análise psicológica. A teoria cognitiva considera que a personalidade baseia-se na operação coordenada de sistemas complexos que foram selecionados ou adaptados para assegurar sobreviência biológica. Os esquemas são essencialmente “estruturas de significado” conscientes e inconscientes: eles servem a funções de sobrevivência. Para ser efetivo, o processamento esquemático deve ser adaptativo a demandas sociais e ambientais imediatas por meio da coordenação e de operações de sistemas adaptativos.
O modelo cognitivo propõe que o pensamento disfuncional (que influência o humor e comportamento) seja comum a todos os distúrbios psicológicos. A avaliação realista e a modificação no pensamento produzem uma melhora no humor e no comportamento. A melhora duradoura resulta de modificações das crenças disfuncionais básicas dos pacientes.
A Terapia Cognitiva foi extensamente testada desde a publicação do primeiro estudo de resultado (1977). Estudos controlados demonstraram sua eficácia, no tratamento do transtorno depressivo maior, TAG, transtorno do pânico, fobia social, abuso de substância, transtornos alimentares, problemas de casais e depressão de pacientes internados. Entre outros: TOC, transtorno do stress pós traumático, transtornos de personalidade, depressão recorrente, dor crônica, hipocondríase e esquizofrenia.
PRINCÍPIOS DA TERAPIA COGNITIVA
1. A terapia cognitiva baseia-se em uma formulação em contínuo desenvolvimento do paciente e de seus problemas em termos cognitivos. O terapeuta busca conceituar as dificuldades do paciente em enquadramentos tríplices: pensamento atual e comportamentos problemáticos, identificação de fatores precipitantes e levantamento de hipóteses sobre eventos desenvolvimentais chaves e padrões duradouros de interpretação. O terapeuta continua a refinar essa conceituação ao longo da terapia.
2. A terapia requer uma aliança terapêutica segura. Elementos básicos necessários: cordialidade, empatia, atenção, respeito genuíno e competência.
3. A terapia enfatiza colaboração e participação ativa. O terapeuta encoraja o paciente a ver a terapia como um trabalho em equipe.
4. A terapia é orientada em meta e focalizada em problemas.
5. A terapia inicialmente enfatiza o presente. A atenção volta-se para 0 passado em três circunstâncias: quando o paciente expressa uma forte predileção em fazer isso; quando o trabalho voltado para o presente produz pouca ou nenhuma mudança ou quando o terapeuta julga que é importante.
6. A terapia é educativa, visa ensinar o paciente a ser o seu próprio terapeuta e enfatiza a prevenção de recaída.
7. A terapia visa ter um tempo limitado.
8. As sessões de terapia são estruturadas.
9. A terapia ensina aos seus pacientes a identificar, avaliar e responder aos seus pensamentos e crenças disfuncionais.
10. A terapia utiliza uma variedade de técnicas para mudar pensamento, humor e comportamento. Embora estratégias cognitivas como questionamento socrático e descoberta orientada sejam centrais à terapia, técnicas de outras orientações são também usadas dentro de uma estrutura cognitiva.

ABORDAGEM GESTALTICA

APRESENTAÇÃO

O presente trabalho tem por objetivo descrever os principais conceitos teóricos da abordagem gestáltica e os aspectos da prática terapêutica. Este estudo foi desenvolvido para a aquisição e consolidação de conhecimentos específicos desta abordagem psicológica.

ABORDAGEM GESTÁLTICA
Gestalt é forma, totalidade. Este conceito de totalidade envolve a relação entre o todo e suas partes, cujas interconexões harmoniosas e coerentes formam uma unidade significativa. A teoria da Gestalt desenvolveu-se como protesto contra a análise atomística vigente no final do século XIX. A análise atomística tentava compreender a experiência da pessoa de forma que os elementos dessa experiência eram reduzidos aos seus componentes mais simples, sendo que cada componente era analisado separadamente dos outros e, a experiência total era entendida como uma soma destes componentes. A Gestalt-terapia é uma terapia existencial-fenomenológica fundada na década de 1940, por Frederick (Fritz), um psicanalista nascido em Berlim em 1893, e Laura Perls. Esta abordagem reuniu pressupostos teóricos e filosóficos que representam um modo específico de observar o desenvolvimento humano na sua relação com o meio. A Psicologia da Gestalt, a Teoria Organísmica e a do Campo, aliadas aos pressupostos filosóficos do Humanismo, Existencialismo e Fenomenologia, permitem uma análise do processo de crescimento e das relações do indivíduo com o mundo na construção de si. A Psicologia da Gestalt foi iniciada por Max Wertheimer juntamente com Wolfgang Köhler e Kurt Koffka. Seus primeiros estudos direcionaram-se, sobretudo, às áreas da percepção, aprendizagem e solução de problemas, enfatizando a existência de leis da organização da experiência individual. Nesta perspectiva, a pessoa, por meio de sua percepção, atribui um significado existencial ao ambiente observado, reestruturando seu campo perceptual a partir do princípio figura-fundo, cuja diferenciação retrata o processo pelo qual o indivíduo hierarquiza suas necessidades, sinalizando o que é emergente e preferencial, entendendo-se a vida como uma sucessão contínua de satisfação das necessidades emergentes. A Gestalt-terapia ensina a terapeutas e pacientes o método fenomenólógico de awareness, no qual perceber, sentir e atuar são diferenciados de interpretar e modificar atitudes preexistentes. O objetivo é tornar os clientes conscientes (aware) do que estão fazendo, como estão fazendo, como podem transformar-se, e ao mesmo tempo, aprender a aceitar-se e valorizar-se. O objetivo da exploração fenomenológica da Gestalt é a awareness ou o insight. “Insight é uma formação de padrão do campo perceptivo, ou seja, é a compreensão nítida da estrutura da situação em estudo. Awaraness sem exploração sitemática é comumente insuficiente para desenvolver insight. Portanto, a Getalt-terapia usa a awareness focalizada e a experimentação para obter insight, mais o processo (o que está acontecendo) do que o conteúdo (o que está sendo discutido). O campo é um todo, no qual as partes estão em relacionamento imediato e reagem umas às outras, e nenhuma deixa de ser influenciada pelo que acontece em outro lugar do campo. Logo, o campo fenomenológico é definido pelo observador, e é significativo apenas quando se conhece seu quadro referências. Nesta abordagem, os dados não disponíveis à observação direta do terapeuta são estudados pelo enfoque fenomenológico, pela experimentação, por relatos dos participantes e por intermédio do diálogo. O diálogo existencial é uma parte essencial da metodologia da Gestalt-terapia, e é uma manifestação da perspectiva existencial de relacionamento. O relacionamento origina-se do contato. Contato é a experiência da fronteira entre o “eu” e o “não-eu”. O diálogo é baseado na experienciação da outra pessoa como ela verdadeiramente é, e mostrar o seu verdadeiro self, compartilhando awareness fenomenológica. O relacionamento terapêutico em Gestalt-terapia enfatiza quatro características de diálogo: (a) Inclusão: o posicionamento na experiência do outro, sem julgamentos ou interpretações. Isto propicia um ambiente de segurança para o trabalho fenomenológico do paciente; (b) Presença: o terapeuta se expressa para o paciente. Ele não usa presença para manipular o paciente a moldar-se a objetivos preestabelecidos, mas para encorajá-lo a regular-se de forma autônoma; (c) Compromisso com o diálogo: o terapeuta rende-se ao processo interpessoal, ou seja, o contato ocorre, sem manipulações ou controles de resultados; (d) O diálogo é vivido: o diálogo pode ocorrer através de uma dança, de uma música, ou de outra modalidade que expresse e movimente a energia entre os participantes. A Gestalt-terapia enfatiza o aqui-e-agora. A experiência imediata do paciente é trabalhada ativamente. O paciente é visto como um colaborador, aprendendo a autocurar-se. Ela considera todo o campo biopsicossocial, incluindo organismo/ambiente e utiliza ativamente variáveis fisiológicas, sociológicas, cognitivas e motivacionais.
Interdependência ecológica: o campo organismo/ambiente
A existência de uma pessoa se dá pela diferenciação entre o self e o outro, e por conectar o self e o outro. Para estabelecer um bom contato com o mundo, o individuo precisa decobrir suas próprias fronteiras. Um contato em que a pessoa percebe novidades do ambiente, faz parte de uma auto-regulação eficaz.
Metabolismo mental
A Gestalt-terapia utiliza o metabolismo como metáfora para o funcionamento psicológico. O que é nutritivo é assimilado pelo organismo que o torna parte de si, e o que é tóxico é rejeitado. Isto exige que a pessoa perceba ativamente estímulos exteriores e processe estímulos exteroceptivos com dados interoceptivos.
Regulação da fronteira
A fronteira entre o self e o ambiente deve ser mantida permeável para permitir trocas, porém firme para ter autonomia. Viver é uma progressão de necessidades, satisfeitas ou não, que atingem um equilíbrio homeostático e vão em busca do próximo momento e da nova necessidade. Perls postula que todos os comportamentos são governados pelo processo que os cientistas chamam de homeostase e que os leigos chamam de adaptação. A homeostase é o processo através do qual o organismo satisfaz suas necessidades. Homeostase processo de auto-regulação, processo pelo qual o organismo interage com o meio. Observando certos impulsos comuns a todos os seres vivos, os teóricos postularam os “instintos” como as forças condutoras da vida e descreveram a neurose como resultado da repressão daqueles instintos. O estudo do modo que o ser humano funciona no seu meio é o estudo do que ocorre na fronteira de contato entre o individuo e seu meio. Perls, considera o contato com o meio e a fuga dele ( esta aceitação e rejeição do meio) são as funções mais importantes da personalidade global. O homem necessita dos outros para sobreviver fisicamente. No nível psicológico, o homem necessita de contato com outros seres humanos, assim como, no nível fisiológico, necessita de comida e bebida. A abordagem gestáltica que considera o individuo uma função do campo organismo/meio e que considera seu comportamento como um reflexo de sua ligação dentro deste campo, dá coerência à concepção do homem tanto como individuo quanto como ser social. O que nos interessa como psicológos e psicoterapêutas, neste campo em perpétua mudança, são os grupos sempre mutantes do individuo mutante, pois ele tem que mudar constantemente se quiser sobreviver. Quando o individuo se torna incapaz de alterar suas técnicas de manipulação e interação é que surge a neurose. Para Perls, o desequilibrio surge quando, simultaneamente, o individuo e o grupo vivenciam necessidades diferentes, e quando o individuo é incapaz de distinguir qual é a dominante. Todos os distúrbios neuróticos surgem da incapacidade de individuo encontrar e manter o equilíbrio adequado entre ele e o resto do mundo e todos têm em comum o fato de que na neurose social e os limites do meio sejam sentidos como se entendendo demais sobre o individuo. Perls sugere que existem quatro mecanismos neuróticos básicos, ou distúrbios de limites capazes de impedir o crescimento: introjeção, projeção, confluência e retroflexão. (Na estrutura em cinco camadas da neurose, estes mecanismos de defesa operam basicamente na segunda e terceira camadas).
Introjeção
Introjeções são atitudes não digeridas, modos de agir, sentir e avaliar, estranhos anexados à personalidade. O homem que introjeta nunca tem uma oportunidade de desenvolver sua própria personalidade porque está muito ocupado em ficar com os corpos estranhos alojados em seu sistema. Quanto mais se sobrecarrega com introjeções, menos lugar há para que expresse ou mesmo descubra o que é de fato. A introjeção contribui para a desintegração da personalidade. Se alguém traga inteiros dois conceitos incompatíveis, pode se achar tragado em pedaços no processo de tentar reconciliá-los. A introjeção, pois, é o mecanismo neurótico pelo qual incorporamos em nós mesmos normas, atitudes, modos de agir e pensar, que não são verdadeiramente nossos.
Projeção
Assim como a introjeção é a tendência a fazer o si mesmo reponsável pelo que na realidade faz parte do meio, a projeção é a tendência a fazer o meio responsável pelo que se origina na própria pessoa. Clinicamente, reconhecemos que a doença da paranóia, que é caracterizada pelo desenvolvimento de um sistema altamente organizado de ilusões, é o caso extremo de projeção. Na projeção deslocamos a barreira entre nós e o resto do mundo exageradamente a nosso favor – de modo que nos seja possível negar e não aceitar as partes de nossa personalidade que consideramos difíceis, ou ofensivas ou sem atrativos. São nossas introjeções que nos levam ao sentimento de autodesvalorização e auto-alienação que produz projeção.
Confluência
Quando o individuo não sente nenhuma barreira entre si e seu meio, quando sente que ele próprio e o meio são um, está em confluência com este meio. As partes e o todo são indistinguíveis entre si. A pessoa em quem a confluência é um estado patológico, não pode discriminar entre o que ela é o que as outras pessoas são. Não sabe onde ela termina e começam os outros. O homem que está em confluência patológica amarra suas emoções e atividades num amontoado de completa confusão até que não mais se dá conta do que quer fazer de como está se impedindo de fazê-lo.
Retroflexão
Retroflexão significa literalmente, voltar-se rispidamente contra. O retroflexor sabe como traçar uma linha divisória entre ele e o mundo, e a esboça nítida e clara, justamente no meio – mas no meio de si próprio. A terapia consiste em retificar as falsas identificações. Na terapia temos que ajudar o individuo a descobrir o que ele é e o que ele não é; o que o gratifica e o que o contraria. Temos que guiá-lo para a integração.
Awareness
Awareness é uma forma de experiência que pode ser definida aproximadamente como estar em contato com a propria existência, com aquilo que é. Awareness total é o processo de estar em contato vigilante com os eventos mais importantes do campo individuo/ambiente, com total apoio sensoriomotor, emocional, cognitivo e energético.
Responsabilidade
A Gestalt-terapia considera as pessoas responsáveis – hábeis para responder, ou seja, elas são os agentes fundamentais na determinação de seu próprio comportamento.
Psicoterapia
Na Gestalt o único objetivo é awareness. Esta abordagem facilita a solução de problemas com o incremento da auto-regulação e do auto-suporte. Nela a autonomia e autoderteminação do paciente são consideradas os valores mais importantes. O objetivo é o crescimento e a autonomia, com um aumento da consciência. A presença ativa do terapeuta é vida e entusiasmada, honesta e direta. A abordagem geral da Gestalt-terapia é facilitar a exploração de formas que maximizem aquilo que continua a se desenvolver depois da sessão, sem o terapeuta. A tarefa da terapia é conseguir que a pessoa tome consciência de partes anteriormente alienadas e experimentá-las, considerá-las e assimilá-las, se forem ego-sintônicas, ou rejeitá-las se forem ego-alienadas. A Gestalt coloca o foco no paciente. O relacionameto é horizontal, diferenciando-se do relacionamento terapêutico tradicional. O paciente e o terapeuta falam a mesma língua. A orientação é mais para o agora do que qualquer outra forma de psicoterapia. Ela é praticada em terapia individual, em grupos, em workshops, com casais, com famílias e com crianças; e é praticada em agências de serviços familiares, hospitais, clínicas particulres, centros de crescimento, e assim por diante. Todos os estilos de Gestal-terapia têm em comum os princípios gerais: ênfase na experiência direta e na experimentação (fenomenologia), uso do contato direto e presença pessoal (existencialismo dialógico), e ênfase nos conceitos de campo “do que” e do”como” e do”aqui-e-agora”. Todas as técnicas de focalização do paciente são elaborações da questão “O que você esta percebendo agora?” e da instrução “Tente este experimento e veja o que você passa a perceber ou aprende”. São utilizadas técnicas como: encenação; fantasia dirigida; técnicas de soltura e integração e técnicas corporais.
Considerações finais
É evidente que o relato aqui exposto, sobre a abordagem gestáltica merecia ter sido mais aprofundado, mas, para o que foi proposto, já cumpriu sua finalidade, pois permitiu a assimilação dos principais conceitos teóricos e propiciou a reflexão sobre a prática terapêutica dentro desta abordagem. É fundamental destacar que o terapeuta dentro do processo terapêutico (que é o restabelecimento do si-mesmo pela integração das partes dissociadas da personalidade), deve trazer o paciente à integração verdadeira de si; de modo que este estabeleça um bom contato com o mundo e que veja a si mesmo como parte do campo total para relacionar-se tanto consigo quanto com o mundo.
Referências Bibliográficas

Yontef, Gary M. Processo, diálogo, awareness. São Paulo: Summus, 1998.
Perls, Fritz. A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. Rio de Janeiro: LTC, 1988. “O homem encontra o Ser e o devir como aquilo que o confronta, mas sempre como uma presença, e cada coisa, ele a encontra somente enquanto presença; aquilo que esta presente se descobre a ele no acontecimento e o que acontece, se apresenta a ele como Ser. Depende de ti que parte incomensurável se tornará atualidade para ti.” (Martin Buber)

BIOGRAFIA DE HENRY WALLON

HENRI WALLON (1879 - 1962)
Nasceu na França em 1879. Antes de chegar à psicologia passou pela filosofia e medicina e ao longo de sua carreira foi cada vez mais explícita a aproximação com a educação.Em 1902, com 23 anos, formou-se em filosofia pela Escola Normal Superior, cursou também medicina, formando-se em 1908.Viveu num período marcado por instabilidade social e turbulência política. As duas guerras mundiais (1914-18 e 1939-45), o avanço do fascismo no período entre guerras, as revoluções socialistas e as guerras para libertação das colônias na África atingiram boa parte da Europa e, em especial, a França.Em 1914 atuou como médico do exército francês, permanecendo vários meses no front de combate. O contato com lesões cerebrais de ex-combatentes fez com que revisse posições neurológicas que havia desenvolvido no trabalho com crianças deficientes.Até 1931 atuou como médico de instituições psiquiátricas.Paralelamente à atuação de médico e psiquiatra consolida-se seu interesse pela psicologia da criança.Na 2a guerra atuou na Resistência Francesa contra os alemães, foi perseguido pela Gestapo, teve que viver na clandestinidade.De 1920 a 1937, é o encarregado de conferências sobre a psicologia da criança na Sorbonne e outras instituições de ensino superior.Em 1925 funda um laboratório destinado à pesquisa e ao atendimento de crianças ditas deficientes.Ainda em 1925 publica sua tese de doutorado “A Criança Turbulenta”. Inicia um período de intensa produção com todos os livros voltados para a psicologia da criança. O último livro “Origens do pensamento na criança’, em 1945.Em 1931 viaja para Moscou e é convidado para integrar o Círculo da Rússia Nova, grupo formado por intelectuais que se reuniam com o objetivo de aprofundar o estudo do materialismo dialético e de examinar as possibilidades oferecidas por este referencial aos vários campos da ciência.Neste grupo o marxismo que se discutia não era o sistema de governo, mas a corrente filosófica.Em 1942, filiou-se ao Partido Comunista, do qual já era simpatizante. Manteve ligação com o partido até o final da vida.Em 1948 cria a revista ‘Enfance”. Neste periódico, que ainda hoje tenta seguir a linha editorial inicial, as publicações servem como instrumento de pesquisa para os pesquisadores em psicologia e fonte de informação para os educadores.Faleceu em 1962. A ABORDAGEM DE HENRI WALLON A gênese da inteligência para Wallon é genética e organicamente social, ou seja, "o ser humano é organicamente social e sua estrutura orgânica supõe a intervenção da cultura para se atualizar" (Dantas, 1992). Nesse sentido, a teoria do desenvolvimento cognitivo de Wallon é centrada na psicogênese da pessoa completa.Henri Wallon reconstruiu o seu modelo de análise ao pensar no desenvolvimento humano, estudando-o a partir do desenvolvimento psíquico da criança. Assim, o desenvolvimento da criança aparece descontínuo, marcado por contradições e conflitos, resultado da maturação e das condições ambientais, provocando alterações qualitativas no seu comportamento em geral.Wallon realiza um estudo que é centrado na criança contextualizada, onde o ritmo no qual se sucedem as etapas do desenvolvimento é descontínuo, marcado por rupturas, retrocessos e reviravoltas, provocando em cada etapa profundas mudanças nas anteriores.Nesse sentido, a passagem dos estágios de desenvolvimento não se dá linearmente, por ampliação, mas por reformulação, instalando-se no momento da passagem de uma etapa a outra, crises que afetam a conduta da criança.Conflitos se instalam nesse processo e são de origem exógena quando resultantes dos desencontros entre as ações da criança e o ambiente exterior, estruturado pelos adultos e pela cultura e endógenos e quando gerados pelos efeitos da maturação nervosa (Galvão, 1995). Esses conflitos são propulsores do desenvolvimento.Os cinco estágios de desenvolvimento do ser humano apresentados por Galvão (1995) sucedem-se em fases com predominância afetiva e cognitiva: Impulsivo-emocional, que ocorre no primeiro ano de vida. A predominância da afetividade orienta as primeiras reações do bebê às pessoas, às quais intermediam sua relação com o mundo físico; Sensório-motor e projetivo, que vai até os três anos. A aquisição da marcha e da prensão, dão à criança maior autonomia na manipulação de objetos e na exploração dos espaços. Também, nesse estágio, ocorre o desenvolvimento da função simbólica e da linguagem. O termo projetivo refere-se ao fato da ação do pensamento precisar dos gestos para se exteriorizar. O ato mental "projeta-se" em atos motores. Como diz Dantas (1992), para Wallon, o ato mental se desenvolve a partir do ato motor; Personalismo, ocorre dos três aos seis anos. Nesse estágio desenvolve-se a construção da consciência de si mediante as interações sociais, reorientando o interesse das crianças pelas pessoas; Categorial. Os progressos intelectuais dirigem o interesse da criança para as coisas, para o conhecimento e conquista do mundo exterior; Predominância funcional. Ocorre nova definição dos contornos da personalidade, desestruturados devido às modificações corporais resultantes da ação hormonal. Questões pessoais, morais e existenciais são trazidas à tona. Na sucessão de estágios há uma alternância entre as formas de atividades e de interesses da criança, denominada de "alternância funcional", onde cada fase predominante (de dominância, afetividade, cognição), incorpora as conquistas realizadas pela outra fase, construindo-se reciprocamente, num permanente processo de integração e diferenciação.Wallon, deixou-nos uma nova concepção da motricidade, da emotividade, da inteligência humana e, sobretudo, uma maneira original de pensar a Psicologia infantil e reformular os seus problemas. Psicogênese da Pessoa Completa Wallon procura explicar os fundamentos da psicologia como ciência, seus aspectos epistemológicos, objetivos e metodológicos.Admite o organismo como condição primeira do pensamento, pois toda a função psíquica supõe um componente orgânico. No entanto, considera que não é condição suficiente, pois o objeto de ação mental vem do ambiente no qual o sujeito está inserido, ou seja, de fora. Considera que o homem é determinado fisiológica e socialmente, sujeito às disposições internas e às situações exteriores.Psicologia Genética A psicologia genética estuda os processos psíquicos em sua origem, parte da análise dos processos primeiros e mais simples, pelos quais cronologicamente passa o sujeito. Para Wallon essa é a única forma de não dissolver em elementos separados e abstratos a totalidade da vida psíquica.Wallon propõe a psicogênese da pessoa completa, ou seja, o estudo integrado do desenvolvimento. Considera que não é possível selecionar um único aspecto do ser humano e vê o desenvolvimento nos vários campos funcionais nos quais se distribui a atividade infantil (afetivo, motor e cognitivo). Para ele o estudo do desenvolvimento humano deve considerar o sujeito como “geneticamente social” e estudar a criança contextualizada, nas relações com o meio. Wallon recorreu a outros campos de conhecimento para aprofundar a explicação do fatores de desenvolvimento (neurologia, psicopatologia, antropologia, psicologia animal).Para ele a atividade do homem é inconcebível sem o meio social; porém as sociedades não poderiam existir sem indivíduos que possuam aptidões como a da linguagem que pressupõe uma conformação determinada do cérebro, haja vista que certas perturbações de sua integridade, privam o indivíduo da palavra. Vemos então que para ele não é possível dissociar o biológico do social no homem. Esta é uma das características básicas da sua Teoria do Desenvolvimento.De acordo com Dantas (1992) Wallon concebe o homem como sendo genética e organicamente social e a sua existência se realiza entre as exigências da sociedade e as do organismo.Manteve interlocução com as teorias de Piaget e Freud. Destacava na teoria de Piaget as contradições e dessemelhanças entre as suas teorias, pois considerava esse o melhor procedimento quando se busca o conhecimento. Por parte de Piaget existia uma constante disposição em buscar a continuidade e complementariedade de suas obras. Os dois se propunham a análise genética dos processos psíquicos, no entanto, Wallon pretendia a gênese da pessoa e Piaget a gênese da inteligência.Com a psicanálise de Freud mantém uma atitude de interesse e ao mesmo tempo de reserva. Embora com formação similar (neurologia e medicina) a prática de atuação os levou a caminhos distintos. Freud abandonando a neurologia para dedicar-se a terapia das neuroses e Wallon mantém-se ligado a esta devido ao seu trabalho com crianças com distúrbios de comportamento.O método adotado por Wallon é o da observação pura. Considera que esta metodologia permite conhecer a criança em seu contexto, “só podemos entender as atitudes da criança se entendermos a trama do ambiente no qual está inserida”. Vera Lúcia Camara F. Zacharias é mestre em educação, pedagoga, diretora de escola aposentada, com vasta experiência na área educacional em geral, e, em especial na implantação de Cursos Técnicos de Nível Médio e pós-médio, assessoria e capacitação de profissionais para a utilização de novas tecnologias aplicadas à educação e alfabetização Bibliografia: Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. Isabel Galvão. Ed. Vozes, 1995. A importância do Movimento no desenvolvimento psicológico da criança in Psicologia e educação da infância – antologia. Henri Wallon. Ed. Estampa. DANTAS, Heloysa. A infância da razão. Uma introdução à psicologia da inteligência de Henri Wallon. São Paulo, Manole, 1990 GALVÃO, Izabel. Uma reflexão sobre o pensamento pedagógico de Henri Wallon. In: Cadernos Idéias, construtivismo em revista. São Paulo, F.D.E., 1993. WALLON, Henri. Psicologia. Maria José Soraia Weber e Jaqueline Nadel Brulfert (org.). São Paulo, Ática, 1986.
Fonte do artigo: http://www.centrorefeducacional.com.br/wallon.htm

BIOGRAFIA DE MELAINE KLEIN

Melanie Klein( 1882-1960) Há mais de cem anos, em 30 de março de 1882, nasceu em Viena Melanie née Reizes (1882-1960), futura Melanie Klein, psicanalista britânica de origem austríaca. Seu pai, Moritz Reizes, era um médico judeu polonês, originário de Lemberg, na Galícia, que se tornou clínico geral graças a uma ruptura com pais tradicionalistas. Sua mãe , judia eslovaca brilhante, dedica-se, por necessidades familiares, ao comércio de plantas e répteis, cuja família, erudita e culta, era dominada por uma linhagem de mulheres. Melanie Klein, pouco desejada, foi a quarta entre os filhos desse casal que não se entendia. Quando, por sua vez, se tornou mãe, também sofreria em sua vida particular as intrusões de sua mãe, Libussa, personalidade tirânica, possessiva e destruidora. A juventude de Melanie foi marcada por uma série de lutos, muitos provavelmente responsáveis pela culpa, cujos vestígios se encontram em sua obra teórica.Tinha quatro anos quando sua irmã Sidonie morreu de tuberculose com a idade de 8 anos; tinha 18 quando o pai, debilitado há longos anos, morreu, deixando-a com a mãe; tinha 20 quando seu irmão Emmanuel, que a influenciara muito e a quem estava ligada por uma relação de tons incestuosos, morreu esgotado pela doença, pelas drogas e pelo desespero. Phyllis Grosskurth observou que Melanie se casou pouco depois desse falecimento, pelo qual se sentia culpada, o que, acrescentou, “provavelmente tinha sido o objetivo perseguido por Emmanuel”.Klein estudou de início arte e história na Universidade de Viena, porém as dificuldades econômicas que se seguiram à morte do pai parecem ter sido a causa de sua renúncia aos estudos de medicina, que ela decidira empreender com o objetivo de ser psiquiatra. Essas mesmas dificuldades explicariam igualmente seu casamento precipitado, em 1903, com Arthur Klein, engenheiro químico de caráter sombrio, que ela conhecera dois anos antes, que por força de suas atividades profissionais era obrigado a muitos deslocamentos o que possibilitou a Melanie aprender muitas línguas estrangeiras e do qual se divorciaria em 1926.Em 1910, por insistência de Melanie, cronicamente deprimida, o casal, cujo desentendimento era alimentado pelas incessantes intervenções de Libussa, se fixou em Budapeste. Em 1914, sua mãe morreu e nasceu seu terceiro filho, Erich Klein (futuro Eric Clyne), que ela analisaria, como Hans e Melitta, o irmão e a irmã mais novos. Mas esse ano de 1914 foi também o de sua primeira leitura de um texto de Sigmund Freud, “Sobre os sonhos”, e do início de sua análise com Sandor Ferenczi. Essa análise foi interrompida devido à guerra. Ela recomeça, em 1924, mas em Berlim, com K.Abraham, que morreria no ano seguinte. A análise é concluída em Londres, com S.Payne.Melanie Klein logo começou a participar das atividades da Sociedade Psicanalítica de Budapeste, da qual se tornou membro em 1919. Antes, em 28 e 29 de setembro de 1918, sob a presidência de Karl Abraham, o V Congresso da International Psychoanalytical Association (IPA) se realizou nessa cidade, que Freud considerava como o centro do movimento psicanalítico. Era a primeira vez que Melanie Klein via Freud. Escutou-o ler, na tribuna, sua comunicação “Os novos caminhos da terapêutica psicanalítica” e, fortemente impressionada, tomou consciência de seu desejo de se consagrar à psicanálise. Em julho de 1919, levada por Ferenczi, apresentou, diante da Sociedade Psicanalítica de Budapeste, seu primeiro estudo de caso, dedicado à análise de uma criança de cinco anos, que na realidade era o seu próprio filho Erich. Uma versão reformulada dessa intervenção, na qual ela dissimulou a identidade do jovem paciente chamando-o de Fritz, constituiu seu primeiro escrito, publicado no “Internationale Zeitschrift für Psychoanalyse”. Um ano depois, uma terceira versão desse trabalho apareceu em “Imago”: “A criança de que se trata, Fritz, escreveu ela, é um menino cujos pais, que são de minha família, habitam na minha vizinhança imediata. Isso permitiu encontrar-me muitas vezes, e sem nenhuma restrição, com a criança. Além do mais, como a mãe segue todas as minhas recomendações, posso exercer uma grande influência sobre a educação de seu filho.”O terror branco e a onda de anti-semitismo que assolava Budapeste depois do fracasso da ditadura comunista de Bela Kun (1886-1937) obrigaram os Klein a deixar a capital e a exilar-se. Em 1920, Melanie Klein participou em Haia do Congresso Internacional da IPA. Ali, encontrou Hermine von Hug-Hellmuth e principalmente, graças à recomendação de Ferenczi, Karl Abraham. Este acabava de fundar, com a ajuda de Max Eitingon, a famosa policlínica do Berliner Psychoanalytisches Institut (BPI), onde eram acolhidos muitos pacientes traumatizados pela guerra. Atraída pela personalidade de Abraham e pela vitalidade do grupo de analistas que o cercava, Melanie Klein se instalou, em 1921, na capital alemã. Um ano depois, tornou-se membro da Deutsche Psychoanalytische Gesellschaft (DPG) e, em setembro de 1922, assistiu ao VII Congresso da IPA, durante o qual participou das primeiras discussões sobre a questão da sexualidade feminina, depois da contestação das teses freudianas por Karen Horney.No congresso psicanalítico de Haia, em 1920, conheceu Abraham, que a convidou a se mudar para Berlim, onde ela se instalou como psicanalista, continuando com ele sua análise pessoal. Quando Abraham morreu, Melanie Klein deixou Berlim, cujo meio psicanalítico aderia às idéias da Anna Freud, julgando as suas pouco ortodoxas. Em 1925, no congresso de Salzburgo, leu seu primeiro artigo sobre a técnica da análise de crianças. Impressionado com esse trabalho, Jones a convidou para dar conferências na Inglaterra, país onde Melanie Klein se instalou definitivamente em 1926. Em 1922 se divorciara do marido, de que já estava separada havia algum tempo.No começo de 1924, Melanie Klein começou uma segunda análise, com Karl Abraham, de quem adotaria algumas idéias para desenvolver suas próprias perspectivas sobre a organização do desenvolvimento sexual. Em abril, no VIII Congresso da IPA em Salzburgo, apresentou uma comunicação altamente controvertida sobre a psicanálise da crianças pequenas, na qual começava a questionar certos aspectos do complexo de Édipo. Foi apoiada por Abraham e também por Ernest Jones, que seduzido por esse discurso contestatário, até interviria junto a Freud para que este aceitasse levar em consideração essas declarações heréticas. Em 17 de dezembro do mesmo ano, Melanie foi a Viena para fazer uma comunicação sobre a psicanálise de crianças na Wiener Psychoanalytische Vereinigung (WPV), e nessa ocasião confrontou-se diretamente com Anna Freud. O debate estava então aberto, e trataria do que “devia” ser a psicanálise de crianças: uma forma nova e aperfeiçoada de pedagogia (posição defendida por Anna Freud) ou a oportunidade de uma exploração psicanalítica do funcionamento psíquico desde o nascimento (como queria Melanie Klein)?Em Berlim, Melanie fez amizade com Alix Strachey, também analisanda de Abraham. Com a ajuda do marido, James Strachey, que estava em Londres, Alix introduziu Melanie na British Psychoanalytical Society (BPS). Graças também ao apoio de Ernest Jones, fez uma série de conferências em Londres, em julho de 1925. Essa permanência na Inglaterra a encantou, a ponto de despertar nela o desejo de se estabelecer além-Mancha, o que se realizaria mais cedo do que ela imaginava em virtude da morte de Karl Abraham em dezembro de 1925. A pedido de Jones, que a convidou a passar um ano na Inglaterra, Melanie Klein deixou Berlim em setembro de 1926. Sua instalação em Londres marcou efetivamente a abertura das hostilidades entre a escola vienense e a escola inglesa: quaisquer que fossem os esforços de Jones para convence-lo de que as teses kleinianas se inscreviam na lógica das suas, Freud, desejando apoiar Anna, manifestaria um descontentamento crescente.Em Londres, Melanie Klein experimentou suas teorias, tratando filhos perturbados de alguns de seus colegas: o filho e a filha de Jones, por exemplo. Sua personalidade invasiva provocou à sua volta paixões e repulsas. Em março de 1927, Anna Freud fez uma comunicação ao grupo berlinense da DPG. Na verdade, tratava-se de um verdadeiro ataque contra as teses kleinianas em matéria de análise de crianças. Houve críticas e Freud irritou-se. A discordância entre ambas não parava de crescer, referindo-se especialmente à oportunidade da análise de crianças: parte integrante da educação geral de toda criança, afirmava Melanie Klein; necessária apenas quando a neurose se manifesta, replicava Anna, que circunscrevia a análise de crianças apenas à expressão do mal-estar parental, enquanto Melanie autonomizava a criança, tanto em sua demanda quanto no tratamento.Em setembro de 1927, durante o X Congresso Internacional em Innsbruck, o conflito se ampliou: Klein apresentou uma comunicação, “Os estádios precoces do conflito edipiano”, na qual expunha explicitamente suas discordâncias com Freud sobre a datação do complexo de Édipo, sobre seus elementos constitutivos e sobre o desenvolvimento psicossexual diferenciado dos meninos e das meninas. Em outubro de 1927, apoiada pela renovada confiança de Jones, Melanie foi eleita para a BPS.As idéias de Melanie Klein suscitaram fortes oposições, que tomaram uma amplitude considerável com a chegada na Inglaterra dos psicanalistas expulsos pelo nazismo, entre os quais A. Freud e E. Glover, que consideravam suas idéias meta psicológicas uma heresia idêntica às de Jung e Rank.Em janeiro de 1929, começou a tratar de uma criança autista de quatro anos, filha de um dos seus colegas da BPS, à qual deu o nome de Dick. Logo percebeu que ele apresentava sintomas que ela nunca havia encontrado. Não expressava nenhuma emoção, nenhum apego, e não se interessava pelos brinquedos. Para entrar em contato com ele, colocou dois trenzinhos lado a lado e designou o maior como “trem papai” e o menor como “trem Dick”. Dick fez o tem com o seu nome andar e disse a Melanie: “Corta!”. Ela desengatou o vagão de carvão e o menino guardou então o brinquedo quebrado em uma gaveta, exclamando : “Acabou!”. A história desse caso se tornaria célebre, por mostrar como alguns psicanalistas não conseguem dar aos filhos o amor que esperam deles.Dick continuou a análise com Melanie Klein até 1946, com uma interrupção durante a Segunda Guerra Mundial. Quando Phyllis Grosskurth se encontrou com ele, então com cerca de 50 anos, não tinha mais nada a ver com o menino fechado de outrora. Era até francamente tagarela.Em 1932, Melanie Klein publicou sua primeira obra síntese, “A psicanálise de crianças”, na qual expunha a estrutura de seus futuros desenvolvimentos teóricos, sobretudo o conceito de posição (posição esquizo-paranóide/posição depressiva), assim como sua concepção ampliada da pulsão de morte. Mas, nesse mesmo ano, que inaugurou um aparente período de calma institucional para ela, sua vida particular foi perturbada por conflitos que teriam, alguns anos depois, pesadas repercussões em sua vida profissional. Sua filha Melitta Schmideberg, casada com Walter Schmideberg, amigo da família Freud e de Ferenczi, tornou-se analista. Sem perceber, Melanie repetiu com sua filha o comportamento que Libussa tivera com ela. Foi por ocasião de uma retomada da análise com Edward Glover que Melitta se afastou de Melanie. Logo seria publicamente apoiada em sua atitude por seu analista, que não hesitou em manipular as tensões familiares para reforçar suas próprias posições teóricas diante de Melanie.A partir de 1933, Melanie Klein, que sofria os ataques incessantes de Glover e de Melitta, via com terror a chegada a Londres dos analistas vienenses e berlinenses que fugiam do nazismo. Confidenciou a Donald Woods Winnicott que pressentia, na instalação desses refugiados que lhe eram na maioria hostis, a iminência de um “desastre”. Alguns meses depois da chegada dos Freud a Londres, as hostilidades irromperam efetivamente. Em julho de 1942, a tensão no seio da BPS atingiu um ponto crítico. Enquanto Londres era bombardeada, tomava-se a decisão de fazer reuniões para discutir os pontos de discordância científicos e clínicos. Assim começou o período das Grandes Controvérsias, inaugurado por um ataque violento de Edward Glover contra a teoria e a prática dos kleinianos. Ernest Jones, em quem Melanie Klein acreditava ter um fiel aliado, saía freqüentemente dessa cena, cujos atores eram essencialmente mulheres, umas reunidas em torno de Melanie, outras em torno de Anna Freud. Os confrontos assumiram tal intensidade que Donald Wood Winnicott, partidário de Melanie, interrompeu uma noite os debates para observar que um ataque aéreo estava ocorrendo e era urgente procurar abrigo.Em novembro de 1946, depois de intermináveis negociações, marcadas principalmente pela demissão de Edward Glover, um “laady’s agreement” se produziu – mas que nem sempre foi respeitado-, resultando na institucionalização de uma divisão da BPS entre kleinianos, annafreudianos e independentes.Em 1995, Melanie Klein, que nada perdera de seu dinamismo e de sua agressividade, interveio de maneira esmagadora no Congresso da IPA em Genebra, apresentando uma comunicação intitulada “Um estudo sobre a inveja e a gratidão”, na qual desenvolvia o conceito de inveja, que articulava com uma extensão da pulsão de morte, à qual dava um fundamento constitucional. Ao fazer isso, reatava com aquele que sempre considerara o seu mestre, Karl Abraham. Melanie Klein acabava assim de dar partida a uma nova controvérsia, que, se não teve a amplitude das precedentes, a levou à ruptura com Winnicott e com Paula Heimann, que fora a mais inteligente e a mais ardorosa dos adversários de Glover em 1943.Nunca tendo se reconciliado com sua filha Melitta, deixando inacabada uma autobiografia parcelar e seletiva, Melanie Klein morreu de câncer do cólon em Londres, a 22 de setembro de 1960.Diferentemente de A. Freud, Melanie Klein considerava o brincar como um material suscetível de interpretação no quadro da situação transferencial. As brincadeiras eram a seu ver equivalentes às fantasias, dando acesso à sexualidade infantil e à agressividade: em torno delas podia se instaurar uma relação transferencial-contratrasferencial entre a criança e o analista.Melanie Klein conferiu lugar capital à pulsão de morte, conceito que no entanto estava longe de gozar de unanimidade no seio do mundo psicanalítico. Radicalizando a posição de Freud, fez da angústia a conseqüência direta da ação da pulsão de morte no seio do organismo. Essas considerações estavam também presentes em sua concepção das fases ou posições por que a criança passava: a posição esquizoparanóide, que traduziria o modo de relação dos quatro primeiros meses da existência, seria caracterizada por uma união entre as pulsões sexuais e as pulsões agressivas, por um objeto vivido como parcial e clivado em “bom” (gratificador) e “mau” (frustrador). “Na posição paranóide-esquizóide” , escreve Hana Segal, “a angústia dominante provém do temor de que o objeto ou os objetos persecutórios penetrem no eu, esmagando ou aniquilando o objeto ideal e o “self”. Dois mecanismos psíquicos seriam dominantes nessa fase: a introjeção e a projeção. Instalando-se por volta dos quatro meses, a posição depressiva se seguiria à posição paranóide, sendo por sua vez superada por volta do final do primeiro ano. O objeto já não é parcial, podendo ser apreendido pela criança como total, a clivagem “bom”-“mau” já não é tão categórica como outrora, a angústia é de natureza depressiva e está ligada ao temor de perder e de destruir a mãe. Em face de suas angústias, a criança desenvolve vários tipos de defesa e de atividades reparatórias, que constituem a primeira fonte da criatividade e da sublimação. A posição esquizoparanóide e a posição depressiva voltam a se fazer presentes posteriormente na vida, em especial no adulto acometido de paranóia, de esquizofrenia ou de estados depressivos.A Grã-Bretanha, sua última pátria, conforme mencionamos acima, acolheu-a em 1922. A partir desse momento, e durante trinta e quatro anos, a vida de Melanie Klein foi completamente ligada à psicanálise, às atividades da Sociedade Britânica e ao movimento internacional. Em 1960, às vésperas da morte, ela ainda estava dando instruções sobre seu último manuscrito e aos alunos que tinha em formação. Estava com 78 anos.Somente os netos conseguiram realmente distrair Melanie Klein da parcela de desumanidade- de genialidade, diriam outros- que ela reconhecia ter em si. Virginia Woolf deixou em seu “Diário” um retrato de Melanie Klein que permite entrever sua força, de outro modo silenciosa e invisível: ela era “uma mulher de caráter, com uma espécie de força meio oculta- como direi ?-, não uma astúcia, mas uma sutileza, alguma coisa trabalhando por baixo. Uma tração, uma torsão, como uma vaga sísmica: ameaçadora. Uma mulher encancida e brusca, com grandes olhos claros e imaginativos”.

CRONOLOGIA- Melanie Klein (1882-1960)
1882
- Nascimento a 30 de março, em Viena de Melanie Reizes.
- Era a filha mais nova, tinha duas irmãs e um irmão.
- O pai, de origem judaica, era médico e um estudioso do Talmud. Aos 37 anos, rompe com a ortodoxia religiosa e cursa Medicina.
- A mãe mantinha um pequeno comércio para colaborar com o marido na manutenção da casa.
1887
- Após moléstia de um ano, morte de Sidonie, sua irmã, que lhe ensinara a ler e escrever, além de rudimentos de aritmética.
1896
- Sob influência do irmão Emmanuel- descrito como alegre, amante de literatura e da música - interessa-se pelas artes. Com a ajuda dele, ainda, prepara-se para o exame de admissão ao liceu feminino, visando cursar Medicina.
1899
- Aos 17 anos, logo após a matrícula, fica noiva de Arthur Klein, que estuda engenharia química.
1900- Morte do pai, Moritz Reizes.
1902- Morre, aos 25 anos, de cardiopatia, seu irmão Emmanuel.
1903 a 1915- 31 de março: casamento com Arthur Klein.
- Mudança de projeto, com o abandono da Medicina.
- Segue cursos de Arte e História na Universidade de Viena, sem graduar-se.
- Em 1910 a família de Klein se estabelece em Budapeste.
- Nascimento dos filhos: Mellita em 1904, Hans em 1904 e Eric em 1914.
- Realiza numerosas viagens e tratamentos de repouso em decorrência de depressões.
- A mãe de Melanie Klein, Libussa, cuida da casa; ela morre em 1914.
- Aos 32 anos, Klein realiza a leitura de “A interpretação de sonhos”, de S. Freud, tem uma convicção imediata e entusiástica.
1916Início da análise com Sándor Ferenczi. Estimulada por ele, a dedicar-se a psicanálise, inicia o atendimento de crianças.
1919
- Apresenta o seu primeiro trabalho à Sociedade Psicanalítica de Budapeste: “O romance familiar em seu estado nascente” (a educação analítica de seu filho Erich)
- "O desenvolvimento de um criança".- Entra como membro nessa Sociedade em Budapeste.
- Queda do império autro-húngaro.
1920
- Contato com Freud e Abraham, no Congresso Psicanalítico de Haia.
- Neste congresso ouve a comunicação de Hermine von Hug-Hellmuth, “Sobre a técnica da análise de crianças”.
- Abraham convida-a para trabalhar em Berlim.
- Freud publica “Além do princípio de prazer”.
1921- Arthur Klein vai para a Suécia.
- Melanie Klein instala-se em Berlim com os filhos.
- Começa um processo de separação.
- Numerosos tratamentos de crianças.
- Apóio de Karl Abraham.
1923
- Melanie Klein passa a dedicar-se totalmente à Psicanálise.
- Freud publica “O Eu e o Isso”, “A organização genital infantil” e “A dissolução do complexo de Édipo”.
1924- Com 42 anos, tem início a uma análise de 14 meses com Abraham.
- Em abril Melitta se casa com Walter Schmideberg.
- No VIII Congresso Internacional de Psicanálise, Klein apresenta “A técnica da análise de crianças pequenas”.
- Descoberta do supereu arcaico e da precocidade do complexo de Édipo.
1925
- Alix Scrachey convida-a para dar um ciclo de conferências em Londres.
- Ernest Jones a convida a se estabelecer na Inglaterra.
- Morre Karl Abraham em 25 de dezembro.
1926- Divórcio de Melanie e Arthur Klein.
- Chega em Londres em setembro.
- Recebe apoio de Arthur Klein e dos psicanalistas ingleses.
- Freud publica “Inibições, sintoma e angústia”.
1927- Anna Freud publica o livro “O tratamento psicanalítico de crianças”.
- Colóquio sobre Psicanálise de crianças, onde critica as idéias de Anna Freud.
- M. Klein torna-se membro da Sociedade Britânica de Psicanálise.- Inicia-se um subgrupo kleiniano na Sociedade Britânica de Psicanálise.
- Ato de fundação analítico da prática com crianças.
1929- M. Klein realiza a análise em Dick, um menino autista com 5 anos, até 1946.
- M. Klein demonstra a importância do símbolo no desenvolvimento do eu.
1930- Começa as análises didáticas e o atendimento de adultos.
1932- Publicação simultânea, em inglês e alemão, da obra: A psicanálise da criança.
- Início da hostilidade no relacionamento de M. Klein com a sua filha Melitta.
1933- Morre S. Ferenczi.
- Chega Paula Heimann à Inglaterra.
1934- Morre seu filho Hans, com 27 anos de idade, em acidente de alpinismo, em abril.
- Sua filha Mellita Schmideberg, também analista, opõe-se ao trabalho teórico desenvolvido pela mãe, rompendo com ela.
- Em agosto, apresenta a “Contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos”.
1934-40- Descobre a posição depressiva e da fase esquizo-paranóide.
- Em 1936 realiza a conferência sobre “O desmame”.
- Em 1937 publica “Amor, ódio e reparação”, de M. Klein e Joan Rivière.
- Em 1938 Freud chega a Londres, em junho, com a mulher e a filha Anna.
- Em 1939 morre Freud em 23 de setembro.
1940
- Redação definitiva da comunicação apresentada no XV Congresso, em 1938, “O luto e a sua relação com os estados maníaco-depressivos”.
- Dissensões entre M. Klein e Anna Freud.- Segunda Guerra Mundial.
1941- M. Klein aos 59 anos realiza a análise de Richard, um menino de 10 anos.
- M. Klein realiza a vinculação entre o complexo de castração e a posição depressiva (cf. 1945, “O complexo de Édipo esclarecido pelas angústias precoces” e, em 1956-59, a redação da Narrativa da análise de uma criança).
1942-44- As Assembléias Extraordinárias e as Discussões Polêmicas organizam as oposições teóricas e políticas entre kleinianos e annafreudianos.
- Elaboração da doutrina kleiniana por M. Klein e seus discípulos, J. Rickman, C. Scott, D. Winnicott, S. Isaacs, J. Rivière e P. Heimann.
1943- Discussões entre kleinianos e opositores em sessões plenárias da sociedade Britânica.
1944- Comunicação sobre “A vida emocional dos bebês”.
- Análise de Hanna Segal.
1945Publicação da crítica de E. Glover, "Exame do sistema kleiniano de Psicologia infantil", que solicita a expulsão dos kleinianos da Sociedade. Diante da recusa, Glover demite-se.
1946- Conclusões de novembro: a Sociedade Britânica é dividida em três Grupos, e a Formação, em dois regimes de ensino.- Comunicação “Notas sobre alguns mecanismos esquizóides”, onde a “noção de identificação projetiva” seria introduzida, na redação de 1952, e desenvolvida pelos kleinianos, em particular H. Rosenfeld, a propósito das psicoses.
1947- Aos 65 anos publica “Contribuições à psicanálise” (1921-1945).
1949
- Congresso de Zurique, “Sobre os critérios do término da análise”.
- Concepção do término do tratamento como uma experiência de luto.
- Lacan publica “O estádio do espelho como formador da função do eu” , sendo que a primeira versão do estádio do espelho, foi em 1938 e a introdução do “Tempo lógico” (em 1945).
1951- Congresso de Amsterdam, “As origens da transferência”.
1952
- Edição especial de International Journal of Psycho-Analysis, dedicada aos 70 anos de Melanie Klein.- Banquete organizado por E. Jones em sua homenagem e publicação de “Os progressos da psicanálise” por seus discípulos e colegas.
1953-Congresso de Londres, intervenção sobre “A psicologia da esquizofrenia”, “Da identificação”.- Lacan expõe “Função e campo da fala e da linguagem” em Roma.
1955
- Fundação do Melanie Klein Trust (Fundação Melanie Klein).
- Congresso de Genebra, “Um estudo sobre a inveja e a gratidão”.
- Rompimento com P. Heimann.
- Publicação de “A técnica psicanalítica através do brinquedo; sua história, sua significação”, artigo escrito a partir de uma conferência de 1953. 1953 - Publicação de Inveja e gratidão.
1958- Morte de Ernest Jones.
1959
- “As raízes infantis do mundo adulto”.
- Congresso de Copenhague, “O sentimento de solidão”.
1960
- Na primavera fica anêmica.- É operada de um câncer do cólon em setembro.
- Morre aos 78 anos Melanie Klein, no dia 22 de setembro e é cremada.
1961
- Publicação da “Narrativa da análise de uma criança”.
- Necrológico de W. Hoffer, H. Segal e W. Bion no International Journal of Psycho-Analysis, v. XLII
Fonte da biografia: http://psicanalisekleiniana.vilabol.uol.com.br/index.html

CONCEITOS KLEINIANOS


SOBRE OS CRITÉRIOS PARA O TÉRMINO DE UMA PSICANÁLISE (1950)

Para Melanie Klein, os critérios para o final de uma análise são um problema importante na mente de todo psicanalista. Segundo ela, as emoções sentidas pelo bebê na época do desmame, quando os conflitos infantis arcaicos chegam a um ponto máximo, são intensamente revividas com a aproximação do final de uma análise. Antes de terminar uma análise ela indagava se os conflitos e as ansiedades vivenciadas durante o primeiro ano de vida foram suficientemente analisados e elaborados durante o curso do tratamento. O trabalho de Klein, sobre o desenvolvimento inicial levou-a a distinguir entre duas formas de ansiedade: a ansiedade persecutória, que predomina durante os primeiros seis meses de vida e faz surgir a “posição esquizo-paranóide”, e a ansiedade depressiva, que chega a um ponto culminante por volta da metade do primeiro ano, fazendo surgir a “posição depressiva”. Ela chegou a conclusão de que no começo de vida pós-natal, o bebê vivencia ansiedade persecutória proveniente tanto de fontes externas quanto de internas: externas na medida em que a experiência do nascimento é sentida como um ataque que lhe foi infligido; internas, porque a ameaça ao organismo que, de acordo com Freud, sugere pulsão de morte (medo do aniquilamento). Para Klein, a ansiedade persecutória se relaciona com perigos sentidos como ameaçadores para o ego; a ansiedade depressiva se relaciona a perigos sentidos como ameaçadores para o objeto amado (através da agressividade do sujeito). “O sentimento de culpa relativo ao dano causado por desejos canibalescos e sádicos está interligado com a ansiedade depressiva. A culpa suscita a necessidade premente de reparar o objeto amado danificado, de preservá-lo ou revivê-lo – uma premência que aprofunda os sentimentos de amor e promove relações de objeto.”
Para Klein, o fracasso na elaboração da posição depressiva está indissoluvelmente ligado a uma predominância de defesas que acarretam necessariamente uma asfixia das emoções e da vida de fantasia e impedem o insight. Ela afirma que durante a análise, o psicanalista aparece como uma figura idealizada. A idealização é usada como uma defesa contra a ansiedade persecutória e é seu corolário. É através da análise da transferência negativa assim como da positiva que a ansiedade é reduzida na raiz. Segunda ela, objetos bons – distintos dos idealizados – só podem ser estabelecidos seguramente na mente se a intensa cisão entre figuras persecutórias e ideias tiver diminuido, se os impulsos agressivos e libidinais tiverem se aproximado e o ódio tiver sido mitigado pelo amor. Um avanço na capacidade de sintetizar é uma prova de que os processos de cisão diminuíram e de que aconteceu uma integração do ego em profundidade. Quando estes aspectos positivos estão suficientemente estabelecidos, justifica-se pensar que o término de uma análise não é prematuro, ainda que ele possa fazer reviver até mesmo uma ansiedade aguda.

AS ORIGENS DA TRANSFERÊNCIA (1952)

Freud (1905) define a situação de transferência da seguinte maneira: “Que são transferências? São novas edições ou fac-símiles dos impulsos e fantasias que são despertados e tomados conscientes durante o andamento da análise. Toda uma série de experiências psicológicas é revivida, não como algo que pertence ao passado, mas que se aplica ao médico no presente momento”. A transferência opera ao longo de toda vida e influencia todas as relações humanas. Melaine Klein interessa-se pelas manifestações da transferência na psicanálise, e afirma que é característico do procedimento psicanalítico que, na medida em que o analista começa a abrir caminho dentro do inconsciente do paciente, seu passado vá sendo gradualmente revivido. Desse modo, sua premência em transferir suas primitivas experiências, relações de objeto e emoções é reforçada, e elas passam a localizar-se no psicanalista. Quanto mais profundamente conseguirmos penetrar dentro do inconsciente e quanto mais longe no passado pudermos levar a análise, maior será nossa compreensão da transferência. A ansiedade persecutória é originada das sensações vivenciadas pelo bebê por ocasião do nascimento e as dificuldades de se adaptar a condições inteiramente novas. O bebê dirige seus sentimento de gratificação e amor para o seio “bom” e seus impulsos destrutivos e sentimentos de perseguição para aquilo que sente como frustador, isto, é o seio “mau”. A relativa segurança do bebê baseia-se em transformar o objeto bom em objeto ideal, como uma proteção contra o objeto perigoso, persecutório. Esses processos (cisão, negação, onipotência e idealização) são predominantes durante os três ou quatro primeiros meses de vida (“posição esquizo-paranóide”, 1946). Os processos primários de projeção e introjeção, estando inextricavelmente ligados com as emoções e ansiedades do bebê, iniciam as relações de objeto: pela projeção, isto é, pela deflexão da libido e da agressão em direção ao seio da mãe, fica estabelecida a base para as relações de objeto; pela introjeção do objeto, em primeiro lugar o seio, as relações com os objetos internos passam a existir. Para Klein, a introjeção do seio é o início da formação do superego. O núcleo do superego é, portanto, o seio da mãe, tanto o bom quanto o mau.
A ansiedade depressiva origina-se a partir da crescente capacidade do ego de integração e síntese que leva cada vez mais, o bebê, a estados em que o amor e o ódio, e correspondentemente, aspectos bons e maus dos objetos são sintetizados. Entre o quarto e o sexto mês essas emoções (impulsos e os desejos agressivos do bebê) são reforçadas, pois o bebê percebe e introjeta cada vez mais a mãe como uma pessoa. É nestes estágio, e ligado à posição depressiva que se instala o complexo de Édipo. A ansiedade e a culpa acrescentam um poderoso impulso em direção ao início do complexo de Édipo, pois elas aumentam a necessidade de externalizar (projetar) figuras más e de internalizar (introjetar) figuras boas. Para Klein, as relações de objeto estão no centro da vida emocional. Amor, ódio, fantasias, ansiedades e defesas operam desde o começo e encontram-se ab initio indivisivelmente ligados a relações de objeto. Na análise temos de voltar repetidamente às flutuações entre objetos amados e odiados, externos e internos, que dominam o início da infância. Só podemos apreciar plenamente a interconexão entre as transferências positiva e negativa se explorarmos o interjogo inicial entre o amor e o ódio, e o círculo vicioso entre agressão, ansiedades, sentimentos de culpa e uma maior agressão, bem como vários aspectos dos objetos para os quais são dirigidas essas emoções de ansiedades conflitantes. Através da exploração desses processos arcaicos, Klein, convenceu-se de que a análise da transferência negativa, constitui uma precondição para analisar as camadas mais profundas da mente. A análise tanto da transferência negativa quanto da positiva constitui um princípio indispensável para o tratamento de todos os tipos de pacientes, criança e adultos igualmente. É unicamente analisando a situação de transferência em sua profundidade que seremos capazes de descobrir o passado, tanto em seus aspectos realistas quanto em seus aspectos fantasiosos. “A figura dos pais combinados” é uma das formações de fantasia características dos estágios mais iniciais do complexo de Édipo, que se mantida em toda a sua força, prejudica as relações de objeto e o desenvolvimento sexual. Esta fantasia extrai sua força de outro elemento da vida emocional arcaica, isto é, da poderosa inveja associada aos desejos orais frustados. Na mente do bebê, quando ele esta frustado, sua frustação se casa com o sentimento de que um outro objeto (representado pelo pai) recebe da mãe a ambicionada gratificação e o amor a ele negados naquele momento. Isto é o protótipo de situações tanto de inveja quanto de ciúme. Para Klein, é essencial pensar em termos de situações totais transferidas do passado para o presente, bem como em termos de emoções, defesas e relações de objeto. Os elementos inconscientes da transferência são deduzidos a partir da totalidade do material apresentado. Nosso campo de investigação cobre tudo aquilo que se situa entre a situação presente e as experiências. Somente através da ligação contínua das experiências mais recentes com as anteriores e vice-versa, somente explorando consistentemente a interação dessas experiências é que o presente e o passado podem se aproximar na mente do paciente. Quando as ansiedades persecutória e depressiva e a culpa diminuem, há menos premência a repetir continuamente experiências fundamentais, em consequência, antigos padrões e modos de sentir são mantidos com menor tenacidade. Essas mudanças fundamentais resultam da análise consistente da transferência; estão ligadas a uma revisão de alcance profundo das primeiras relações de objeto e refletem-se na vida presente do paciente, bem como, na modificação das atitudes em relação ao analista.

A TÉCNICA PSICANALÍTICA ATRAVÉS DO BRINCAR: SUA HISTÓRIA E SIGNIFICADO (1955 [1953])

A atenção de Klein centrou-se na ansiedade da criança. O início da técnica psicanalitica através do brincar ocorreu a partir do tratamento de um menino de cinco anos, conduzido na casa da criança, com seus próprios brinquedos. Desde o início a criança expressou suas fantasias e ansiedades principalmente através do brincar, e Klein interpretava consistentemente seu significado para a criança, com resultado de que material adicional aparecia em seu brincar. Uma precondição para a psicanálise de uma criança é compreender e interpretar as fantasias, sentimentos, ansiedades e experiências expressos através do brincar ou, se as atividades de brincar estão inibidas, as causas da inibição. A situação transferencial – espinha dorsal do procedimento psicanalítico – só pode ser estabelecida e mantida se o paciente for capaz de sentir que o consultório ou a sala de análise de crianças, e na verdade toda a análise, é alguma coisa separada de sua vida familiar cotidiana. Isto porque é apenas sob tais condições que ele pode superar suas resistências contra vicenciar e expressar pensamentos, sentimentos e desejos que são incompatíveis com as convençoes sociais, no caso de crianças, são sentidos como contrastando com muito do que lhes foi ensinado. Klein afirma ser essencial ter brinquedos pequenos porque seu número e variedade permitem à criança expressar uma ampla variedade de fantasias e experiências. É importante que esses brinquedos não sejam mecânicos e que as figuras humanas, variando apenas em cor e tamanho, não indiquem qualquer ocupação particular. O equipamento do consultório de crianças também é simples. Os equipamentos de brincar de cada criança são guardados trancados em uma gaveta particular, e ela assim sabe que brinquedos e o seu brincar com eles – o equivalente das associações do adulto – são apenas conhecidos pelo analista e por ela mesma. A caixa de brinquedo (protótipo da gaveta individual) faz parte da relação privada e íntima entre analista e paciente, característica da situação transferencial psicanalítica. Os brinquedos não são o único requisito para uma análise através do brincar, mas muitas da atividades da criança realizadas em torno da pia, são equipadas com uma ou duas tigelinhas, copos e colheres. A agressividade é expressa de várias formas no brincar da criança, seja direta ou indiretamente. É essencial permitir à criança trazer à luz sua agressividade. Mas o que conta mais é compreender por que nesse momento particular da situação transferencial aparecem os impulsos destrutivos, e observar suas consequências na mente da criança. É parte essencial do trabalho interpretativo que ele se matenha em compasso com as flutuações entre amor e ódio; entre felicidade e satisfação de um lado e ansiedade persecutória de depressão de outro. Isto implica que o analista não deve mostrar desaprovação por ter a criança quebrado um brinquedo. O analista deve permitir à criança vivenciar suas emoções e fantasias na medida em que aparecem. No brincar da criança, também encontramos a repetição de experiências e detalhes reais da vida cotidiana, frequentemente entrelaçados com suas fantasias. Qualquer atividade, tal como utilizar o papel para rabiscar ou recortar, e cada detalhe do comportamento, tais como mudanças na postura ou na expressão facial, podem dar uma pista do que está se passando na mente de uma criança, possivelmente em conexão com o que o analista ouviu dos pais sobre as suas dificuldades. As crianças pequenas são intelectualmente capazes de compreender tais interpretações. Para Klein, o superego é algo que é sentido pela criança como operando internamente de modo concreto, que consiste de uma variedade de figuras construídas a partir das experiências e fantasias da criança e deriva-se dos estágios nos quais ela internalizou (introjetou) seus pais. O simbolísmo possibilitava à criança transferir não apenas interesses, mas também, fantasias, ansiedades e culpa a outros objetos além de pessoas. Muito alívio é experimentado no brincar, e este é um dos fatores que o tornam tão essencial para a criança. Crianças com inibição severa da capacidade de formar e usar símbolos, ou seja, desenvolver a vida de fantasia, é sinal de séria pertubação. Sugeriu que tais inibições e a pertubação resultante na relação com o mundo externo e com a realidade, são características da esquizofrenia.

MINIMIZAÇÃO DA VIDA PRIVADA E GLOBALIZAÇÃO

INTRODUÇÃO
A Globalização caracteriza-se por um conjunto de transformações na ordem política e econômica mundial que vem ocorrendo nas últimas décadas. O ponto central da mudança é a integração dos mercados numa “aldeia-global”, explorada pelas grandes corporações internacionais. Os Estados abandonam gradativamente as barreiras tarifárias para proteger sua produção da concorrência dos produtos estrangeiros e abrem-se ao comércio e ao capital internacional. Esta expansão dos fluxos de informações que atingem todos os países tem afetado empresas, indivíduos e movimentos sociais, pela aceleração das transições econômicas, envolvendo mercadorias, capitais e aplicações financeiras. As fontes de informação se uniformizam devido ao alcance mundial à crescente popularização dos canais de televisão por assinatura e da Internet. Isso faz com que os desdobramentos da globalização ultrapassem os limites da economia e começem a provocar uma certa homogeneização cultural entre os países. Além das transformações políticas, sociais e econômicas, a globalização tem repercussões na constituição da subjetividade humana. Um mal-estar geral e uma corrosiva desesperança existencial espalham-se pelo mundo global e faz-nos repensar e reavaliar as bases fundamentais do tipo de sociedade que desejamos. Considerando o atual contexto histórico, vivenciado pelo o homem pós-moderno, o presente trabalho visa analisar as repercussões subjetivas causadas pelas tecnologias de informação e comunicação e a conseqüente minimização da vida privada.

1. A GLOBALIZAÇÃO

BARBOSA (2003) afirma que o conceito de globalização surgiu na década de 1980, nas escolas de administração dos Estados Unidos para posteriormente se propagar pelo mundo. Este conceito relacionava-se às estratégias das empresas que procuravam expandir as suas atividades, ultrapassando as fronteiras nacionais. Nos anos de 1990, o conceito amplia-se da expansão dos negócios para atingir todos os domínios da vida humana. Pode-se dizer que a internacionalização do comércio e a aproximação das culturas é um fenômeno recente datando dos últimos cinco séculos. A globalização pode ser caracterizada em períodos, como citado a seguir: Períodos da Globalização Data Período Caracterização 1450-1850 Primeira fase Expansionismo mercantilista 1850-1950 Segunda fase Industrial-imperialista-colonialista pós-1989 Globalização recente Cibernética, tecnológica, associativa

A PRIMEIRA FASE DA GLOBALIZAÇÃO (1450-1850)

Esta primeira globalização, resultado da procura de uma rota marítima para as Índias, assegurou o estabelecimento das primeiras feitorias comerciais européias na Índia, China e Japão, e, principalmente, abriu aos conquistadores europeus as terras do Novo Mundo. Nesta fase, estrutura-se um sólido comércio triangular, entre a Europa fornecedora de manufaturas), África (que vende seus escravos) e América (que exporta produtos coloniais). A imensa expansão deste mercado favorece os artesãos e os industriais emergentes da Europa que passam a contar com consumidores num raio bem mais vasto do que aquele abrigado nas suas cidades, enquanto que a importação de produtos coloniais faz ampliar as relações intereuropéias. Politicamente, a primeira fase da globalização se fez quase toda ela sob a égide das monarquias absolutistas que concentram enorme poder e mobilizam os recursos econômicos, militares e burocráticos, para manterem e expandirem seus impérios coloniais. Os principais desafios que enfrentam advinham das rivalidades entre elas, seja pelas disputas dinástico-territoriais ou pela posse de novas colônias no além mar, sem esquecer-se do enorme estragos que os corsários e piratas faziam, especialmente nos séculos XVI e XVII, contra os navios carregados de ouro e prata e produtos coloniais. A doutrina econômica desta primeira fase foi o mercantilismo, adotado pela maioria das monarquias européias para estimular o desenvolvimento da economia dos reinos. Ele compreendia numa complexa legislação que recorria a medidas protecionistas, incentivos fiscais e doação de monopólios, para promover a prosperidade geral. A produção e distribuição do comércio internacional era feita por mercadores privados e por grandes companhias comerciais (as Cias. inglesas e holandesas das Índias Orientais e Ocidentais) e, em geral, eram controladas localmente por corporações de ofício. Todo o universo econômico destinava-se a um só fim, entesourar, acumular riqueza.

Os principais acontecimentos que marcam a transição da primeira fase da globalização para a segunda dão-se nos campos da técnica e da política. Apartir do Século XVIII, a Inglaterra industrializa-se aceleradamente e, depois dela, a França, a Bélgica, a Alemanha e a Itália. A máquina a vapor é introduzida nos transportes terrestres (estradas-de-ferro) e marítimos (barcos a vapor). Conseqüentemente esta nova época será regida pelos interesses da indústria e das finanças, sua associada e, por vezes amplamente dominante, e não mais das motivações dinásticas-mercantís. Será a grande burguesia industrial e bancária, e não mais os administradores das corporações mercantis e os funcionários reais quem liderará o processo. A doutrina econômica em que se baseia é a do capitalismo laissez-faire, um liberalismo radical inspirado nos fisiocratas franceses e apoiado pelos economistas ingleses Adam Smith e David Ricardo que advogavam a superação do Mercantilismo com suas políticas arcaicas. No campo da política a revolução americana de 1776 e a francesa de 1789, irão liberar enorme energia fazendo com que a busca da realização pessoal termine por promover uma grande ascensão social das massas. Logo depois, como resultado das Guerras Napoleônicas e da generalizada abolição da servidão e outros impedimentos feudais, milhões de europeus (calcula-se em 60 milhões num século) abandonam seus lares nacionais e emigram em massa para os Estados Unidos, Canadá, e para a América do Sul (Brasil, Argentina, Chile e Uruguai). Outros aspectos técnicos ajudam a globalização: o trem e o barco a vapor encurtam as distâncias, o telégrafo e, em seguida, o telefone, aproximam os continentes e os interesses ainda mais. E, principalmente depois do vôotransatlântico de Charles Lindbergh em 1927, a aviação passa a ser mais umelemento que permite o mundo tornar-se menor. Nestes cem anos da segunda fase da globalização (1850-1950) os antigos impérios dinásticos desabaram (o dos Bourbons em 1789 e, definitivamente, em 1830, o dos Habsburgos e dos Hohenzollers em 1914, o dos Romanov em 1917). Das diversas potências que existiam em 1914 (O Império britânico, o francês, o alemão, o austro-húngaro, o italiano, o russo e o turco otomano) só restam depois da 2ª Guerra, as superpotências: os Estados Unidos e a União Soviética. Feridas pelas guerras as metrópoles deram para desabar, obrigando-se a aceitar a libertação dos povos coloniais que formaram novas nações. Mesmo assim, umas independentes e outras neocolonizadas, continuaram ligadas ao sistema internacional. Somam-se, no pós-1945, os países do Terceiro Mundo recém independente (a Índia é a primeira a obtê-la em 1947) às naçõeslatino-americanas que conseguiram sua autonomia política entre 1810-25, aindano final da primeira fase da globalização. No entanto nem a descolonização nemas revoluções comunistas, a da Rússia de 1917 e a da China de 1949, servirão deentrave para que a mais longo prazo o processo de globalização seja retomado.

No decorrer do século XX três grandes projetos de liderança da globalização conflitaram-se entre si: o comunista, inaugurado com a Revolução bolchevique de 1917 e reforçado pela revolução maoísta na China em 1949; o da contra-revolução nazi-fascista que, em grande parte, foi uma poderosa reação direitista ao projeto comunista, surgido nos anos de 1919, na Itália e na Alemanha,estendendo ao Japão, que foi esmagado no final da Segunda Guerra Mundial, em1945; e, finalmente, o projeto liberal-capitalista liderado pelos paísesanglo-saxãos, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. Num primeiro momento ocorreu a aliança entre o liberalismo e o comunismo (em 1941-45) para a autodefesa e, depois, a destruição do nazi-fascismo. Num segundo momento os vencedores, os EUA e a URSS, se desentenderam gerando a guerra fria (1947-1989), onde o liberalismo norte-americano rivalizou-se com o comunismo soviético numa guerra ideológica mundial e numa competição armamentista e tecnológica que quase levou a humanidade a uma catástrofe (a crise dos mísseis de 1962). Com a política da glasnost, adotada por Mikhail Gorbatchov na URSS desde 1986, a guerra fria encerrou-se e os Estados Unidos proclamaram-se vencedores. O momento símbolo disto foi a derrubada do Muro de Berlim ocorrida em novembro de 1989, acompanhada da retirada das tropas soviéticas da Alemanha reunificada e seguida da dissolução da URSS em 1991. A China comunista, por sua vez, que desde os anos 70 adotara as reformas visando sua modernização, abriu-se em várias zonas especiais para a implantação de indústrias multinacionais. A política de Deng Xiaoping de conciliar o investimento capitalista com monopólio do poder do partido comunista esvaziou o regime do seu conteúdoideológico anterior. Desde então só restou hegemônica no moderno sistemamundial a economia-mundo capitalista, não havendo nenhuma outra barreira aantepor-se à globalização. Chegamos desta forma a situação presente onde sobreviveu uma só superpotência mundial: os Estados Unidos. É a única que tem condições operacionais de realizar intervenções militares em qualquer canto do planeta (Kuwait em 1991, Haiti em 1994, Somália em 1996, Bósnia em 1997, etc.). Enquanto na segunda fase da globalização vivia-se na esfera da libra esterlina, agora é a era do dólar, enquanto que o idioma inglês tornou-se a língua universal por excelência. Pode-se até afirmar que a globalização recente nada mais é do que a americanização do mundo.

REPERCUSSÕES PARA A SUBJETIVIDADE

BARBOSA (2003) afirma que a globalização não quer dizer uniformidade ou homogeneização das condições econômicas. Identificam-se duas interpretações bastante difundidas da globalização. Para alguns autores ela é vista como um fenômeno revolucionário, uma ruptura com relação ao passado, enquanto que para outros é encarada como uma continuação da história de expansão de mercados. Entende-se que a globalização como um processo revolucionário que se desenvolve de forma lenta e progressiva, com saltos qualitativos em determinados momentos até atingir a etapa de ampliação das fronteiras do capitalismo para virtualmente todas as áreas geográficas. A globalização é marcada pela expansão dos fluxos de informações que atingem todos os países. No entanto, ela não afeta todos os países do mesmo modo, nem se manifesta com a mesma velocidade nas várias dimensões da vida coletiva. As transformações sociais, decorrentes da expansão descontrolada da dimensão econômica - como desemprego, a informalidade, a redução da importância dos movimentos sindicais e a privatização do Estado – podem ser encontradas em vários países. No âmbito cultural, existe uma indústria cultural de caráter global que envolve a mídia televisiva, jornalística, a produção cinematográfica e as mega-gravadoras de música. Ainda assim a consolidação de uma arena global de interação que transcende os vários países não elimina a diversidade dos sistemas políticos e culturais existentes nem a natureza particular da pobreza e do desemprego, com marcadas diferenças entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos. O atual processo de globalização tem sido visto e analisado como algo exclusivamente positivo, ou então, exclusivamente, negativo. Os apologistas defendem este processo como um novo tempo e espaço que abre possibilidades para realização dos indivíduos através de um progresso social e econômico positivos (com melhores padrões de vida), da inovação tecnológica (maior facilidade de locomoção, de contato com o mundo, de ganho de tempo, de acesso à informação) e da liberdade cultural. Considerando-se as influências positivas oriundas da globalização, observa-se no setor comercial, o crescimento rápido do volume total de produtos fabricados mundialmente (maior número de importações e exportações) indicando a abertura das economias e a perda de importância dos mercados internos como fonte de escoamento de produção local. O aumento das importações contribui para uma maior universalização dos padrões de consumo e das novas tecnologias. No setor tecnológico, fala-se de uma terceira revolução industrial. A primeira trouxe consigo a máquina a vapor, a segunda a eletricidade. Esta terceira revolução traz consigo a informática, as telecomunicações e a biotecnologia e também a revolução pela capacidade de produção de novos conhecimentos e pelo desenvolvimento de novos processos tecnológicos. A Internet, os computadores portáteis, a introdução de satélites e cabos de fibra óptica, o mapeamento genético, todas estas novas tecnologias vão constituindo um sistema integrado que afetam de várias formas as sociedades e culturas nacionais. Apesar destes avanços tecnológicos resultantes desta nova ordem política-econômica, outros fenômenos interferem substancialmente na constituição da subjetividade humana. DUPAS (2005) aponta para a formação de uma nova estrutura de castas – os incluídos e os excluídos - imposta pela visão tecnocrática e funcional sobre as orientações políticas e econômicas. Também aponta para o fato de que a informática tenta substituir a capacidade de julgamento humano e a nova linguagem universal é a impaciência e o arbítrio. O novo modo de regulação social passa a ser a produção de informação e não a de significados comuns partilhados com a sociedade. Assim constata-se uma crise que se instala, pois os indivíduos são expostos à velocidade e à diversidade de informações produzidas, sem ao menos as submeterem à uma análise crítica. Neste contexto, a informação passa a ser uma mercadoria e sob estas condições oferece uma ambigüidade onde neutralidade e sensacionalismo, estão presentes. A sociedade do consumo repercute na subjetividade humana, pois os indivíduos passam a “ter” a necessidade cada vez mais crescente de se beneficiarem destas tecnologias. BRUNO (2004) diz que as novas tecnologias de comunicação e de informação, tais como: os circuitos internos de TV, as câmeras colocadas sobre os espaços públicos e privados; os chips, os bancos de dados eletrônicos e programas computacionais de coleta e processamento de informação no ciberespaço e os recentes fenômenos dos weblogs e webcams na Internet constituem um novo campo de visibilidade para o indivíduo comum. De acordo com BRUNO (2004), este novo campo de visibilidade comporta duas características relevantes: a vigilância e a exposição da vida íntima e privada. Câmeras de circuito interno, chips informáticos e bancos de dados eletrônicos vêm sendo descritos, como peças de um aparato global de vigilância, uma espécie de superpanóptico, que não mais se restringe aos espaços fechados das instituições mas, se estende tanto sobre dimensões alargadas do espaço físico quanto sobre o ciberespaço, ampliando enormemente o número de indivíduos sujeitos à vigilância e à capacidade de coleta, processamento e uso de informações. BRUNO (2004) apud (Lemos, 2002; Sibilia, 2003; Mcneil, 2003; Garza, 2002; Zuern, 2003) diz que webcams e weblogs, por sua vez, têm sido explorados como novas formas de exposição de si que abalam as fronteiras entre público e privado ao encenarem no âmbito público da Internet práticas antes restritas à vida íntima (imagens do espaço privado cotidiano e escrita de diários íntimos). A minimização da vida privada consiste na exteriorização da vida pessoal através das tecnologias e ambientes virtuais e que por sua vez, adquirem caráter confessional. Trata-se da exteriorização de uma subjetividade constituída para a exposição pública, que revela-se no ato de projetar e de se fazer visível a olhar do outro. Neste contexto, a subjetividade emerge da coexistência e a mistura de códigos e de mundos, da pluralidade de identidades sociais que não podem ser explicadas através de discursos unificadores e universais. Constata-se uma subjetividade fragmentada e superficial. Novos conflitos psicológicos e novos comportamentos surgem, tais como: o isolamento social; a depressão; as angústias; os conflitos entre o prazer gerado pela vida on-line e a emergência de novas formas de defesa da intimidade e os conflitos entre o real e o virtual.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O atual paradigma tecno-econômico que enfatiza a produtividade, e que introduz novas tecnologias no contexto sócio-histórico, repercute visivelmente na constituição da subjetividade. A globalização, como um fenômeno múltiplo, pode levar a caminhos bem diversos, nos quais podemos encontrar, desde um apelo ao universalismo cultural até diversos tipos de resistência a esse processo. Neste contexto, a intensidade e rapidez dos fluxos de informações, garantidas pelo avançado desenvolvimento tecnológico dos meios de comunicação, e que desempenham papel fundamental na revelação da existência de múltiplas culturas, levam sujeitos a se depararem com a pluralidade culturais e identitárias. O advento destas tecnologias, principalmente, da Internet fez surgir novos comportamentos, novos conflitos internos, novas formas de relacionamento, novos sentimentos, ou seja uma transformação na subjetividade, que passou a ser fragmentada. Logo, a minimização da vida privada é dos muitos fenômenos resultantes da pós-modernidade. É preciso rever, criticamente o processo global e suas manifestações, para que novos caminhos práticos, teóricos e institucionais sejam construídos a fim de que minimizem esta crise mundial sob seus aspectos sócio-político e econômico, bem como, repensar a constituição desta nova subjetividade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARBOSA, ALEXANDRE DE FREITAS. O mundo globalizado: política, sociedade e economia – Antecedentes históricos, as esferas da globalização econômica, globalizadores e globalizados. Editora Contexto, São Paulo, 2003.
BRUNO, FERNANDA. Máquinas de ver, modos de ser: visibilidade e subjetividade nas novas tecnologias de informação e de comunicação. Revista FAMECOS. Porto Alegre, nº 24, julho 2004, quadrimestral pg. 110 a 124.
DUPAS, GILBERTO. Tensões contemporâneas entre o público e privado. Cadernos de Pesuisa, v. 35, n. 124, p. 33-42, jan/abr; 2005.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
Telefone celular e espaço pessoal – Luiz de C. Duarte e Colaboradores – Textos do laboratório de psicologia ambiental, 2002 – no. 02
Revoluções tecnológicas e transformações subjetivas - Ana M. Nicolaci-da-Costa – Psicologia: Teoria e Pesquisa, Mai–Ago 2002, vol. 18 n. 2 pp. 193-202
“tudo o que tenho de fixo na vida é meu celular” – os celulares como ancora da identidade dos jovens nômades urbanos - Ana M. Nicolaci-da-Costa – A questão social no novo milênio – 2004 Informação e Privacidade – Ana Amélia Menna Barreto de Castro Ferreira – Gazeta Mercantil, outubro, 2001.
SITES CONSULTADOS
Invasão de privacidade consentida? – José Paulo de Araújo – Projeto comunicar – disponível no site:

ANALÍTICS