sábado, junho 20, 2009

PSICODIAGNÓSTICO INTERVENTIVO

Anotações destacadas a partir da leitura de: Donatelli, Marizilda Fleury. A compreensão da religiosidade do cliente no Psicodiagnóstico Interventivo Fenomenológico-Existencial. Tese de Doutorado – PUC São Paulo 2005. p. 17-40.

A autora destaca que a Psicologia Clínica desenvolveu-se no século XIX, época em que o positivismo lógico era o paradigma vigente. Citando Cunha (2000) refere-se ao nascimento da avaliação psicológica, lançada no fim do século XIX e início do século XX, época que marcou a inauguração da utilização dos testes psicológicos. A autora também cita Ancona-Lopes, M. (1984) ao referir-se aos três modelos de psicodiagnósticos desenvolvidos: médico, psicométrico e behaviorista. O modelo médico enfatizou os aspectos patológicos do individuo e o uso de instrumentos de medidas de determinadas características do individuo. Do ponto de vista psicológico, a grande ênfase nos aspectos psicopatológicos colocava em segundo plano características não patológicas do comportamento das pessoas. O modelo psicométrico, com o desenvolvimento dos testes psicológicos delimitou o lugar do psicólogo como um profissional autônomo, que os utilizava para auxiliar nos diagnósticos psiquiátricos, nas seleções de pessoal e na área da educação com crianças para determinar sua capacidade intelectual, aptidões e dificuldades. O modelo behaviorista entendia que qualquer explicação sobre o comportamento humano somente seria obtido através de observação e experimentação. Desse modo, criaram-se formas próprias de avaliação do comportamento a ser estudado, não utilizando o termo “Psicodiagnóstico”, mas “análise de comportamento”. No início do século XX, alguns filósofos introduziram a idéia de que a subjetividade do pesquisador interferia na compreensão de seu objeto de estudo. Segundo Ancona-Lopes, M (1984), a Psicanálise desmistificou a idéia de que o comportamento só poderia ser entendido a partir daquilo que fosse observável, na medida em que introduziu a noção de inconsciente. Todas as correntes psicanalíticas influíram igualmente na prática do Psicodiagnóstico. Ela destaca que acentuou-se o valor das entrevistas como instrumento de trabalho, o estudo da personalidade através da utilização de observações e técnicas e se desenvolveu uma maior consideração da relação do psicólogo cliente com a instrumentalização dos aspectos transferenciais e contratransferenciais. A autora cita Trinca (1983), pois enfatiza que os processos psicodiagnósticos do tipo compreensivo, derivados da Psicanálise e conhecidos como psicodinâmicos objetivam uma compreensão psicológica globalizada do paciente e não apenas, aspectos ou partes que correspondem a determinados testes psicológicos. Segundo a autora algumas correntes da Psicologia Fenomenológica-Existencial, reformularam a visão do psicodiagnóstico, considerando que a interação com o cliente por meio de testes e outros instrumentos poderia ser útil para as pessoas, “ajudando-as no caminho do autoconhecimento”. Algumas propostas de atendimento psicológico nas clínicas-escola surgiram a partir do desconforto gerado por uma pesquisa que detectou haver alto índice de desistência ao atendimento, devido a longa espera pelo mesmo. A primeira iniciativa deu-se através da organização de Grupos de Espera, que consistia no trabalho das psicólogas com os pais cujos filhos aguardavam por atendimento. Estes grupos visavam agilizar o futuro atendimento Psicodiagnóstico providenciando encaminhamentos médicos necessários, recolhendo informações dadas por profissionais anteriormente consultados, etc, e também, minimizar a desistência oferecendo um atendimento que contivesse a ansiedade dos pais e permitisse uma melhor compreensão da necessidade do atendimento por parte destes. Os Grupos de Espera foram bastante eficientes em relação aos seus propósitos. A partir dessa experiência, foi proposto no final da década de 70, o processo de Psicodiagnóstico Interventivo (Ancona-Lopez, M. 1987), que Donatelli (2005) descreve em sua tese. Ela cita Forghieri (1993) que destaca os conceitos da Fenomenologia relevantes para a Psicologia Fenomenológica: a intencionalidade, a redução fenomenológica, a intuição das essências e a intersubjetividade. A autora destaca que a intencionalidade se define assim: o mundo sempre existe para uma consciência intencional que se constitui enquanto consciência do mundo, e comenta que a redução fenomenológica é uma atitude que busca chegar ao fenômeno “tal como se mostra” e isto implica a suspensão de crenças, valores, preconceitos, teorias e, particularmente, a suspensão da noção de consciência e do mundo considerados de forma separada. Também afirma que a intersubjetividade é compreendida como a possibilidade de ver o outro como um outro eu, numa instância pré-reflexiva, anterior a qualquer pensamento, representação ou juízo. Donatelli (2005), afirma que entender um indivíduo do ponto de vista psicológico implica conhecer os significados que atribui a suas experiências, sendo necessário compreendê-lo em seus muitos contextos, a partir das suas conexões feitas com o mundo. A Psicologia Fenomenológica, segundo Forghieri (1993) trabalha na clínica em dois movimentos: envolvimento existencial e distanciamento reflexivo. O psicodiagnóstico foi entendido como um processo que se desenvolvia a partir de um levantamento de dados do cliente cabendo ao psicólogo analisar esses dados com base na nosologia psicopatológica e dar encaminhamento possível para o caso. Fischer (USA) e Ancona-Lopez, M. (Brasil) foram as precursoras na introdução do Psicodiagnóstico Interventivo, fazendo do atendimento um processo ativo e cooperativo.As intervenções no Psicodiagnóstico Interventivo se caracterizam por propostas devolutivas ao longo do processo, acerca do mundo interno do cliente. No PsicodiagnóstIco Infantil, pressupõe-se a implicação da família na problemática, atribuída à criança, na queixa. O psicólogo não se põe no lugar de quem “detém o saber”, mas dialoga com os clientes no sentido de construírem juntos possíveis modos de compreensão acerca do que está acontecendo com a criança. O psicólogo busca compreender o campo fenomenal e evita que as explicações teóricas se anteponham ao sentido dado pelo cliente. Para isto, o psicólogo deve com os clientes, desconstruir a situação apresentada e buscar seu significado principal. É preciso que haja um envolvimento existencial e deixar-se enredar pela trama de sentidos do cliente ao mesmo tempo em que consiga uma distância suficiente para refletir sobre a situação. O Psicodiagnóstico Interventivo evita classificações, ou seja, é um modelo descritivo na medida em que faz um recorte na vida da pessoa, em dado momento e em determinado espaço, focalizando seu modo de estar no mundo, com os significados nele implícitos. Tanto as experiências do cliente quanto as impressões do psicólogo sobre elas são compartilhadas. A autora descreve como é o atendimento nesta modalidade: pode ser individual ou mais freqüentemente em instituições. Para a entrevista inicial, os pais são convocados. As apresentações habituais são feitas e eles falam sobre como vieram ao atendimento, por que e o que esperam. Depois é apresentado a forma de trabalho do psicólogo, compartilhando com eles que o Psicodiagnóstico é um processo que visa a compreensão daquilo que ocorre com a criança e com os pais. É enfatizado que os pais são parte ativa do atendimento e que tanto as informações por eles fornecidas como seu modo de entendimento da criança são essenciais para a efetivação do processo. É explicado sobre as visitas domiciliar e escolar que são realizadas neste processo. O dia, horário, e a questão do sigilo, são conversados com os pais. È certificado se os pais compreenderam a fala do psicólogo e se concordam com as informações apresentadas. As dúvidas ou perguntas dos pais são apresentadas posteriormente após a conclusão de suas comunicações. O segundo encontro destina-se a anamnese que pode ser feita de duas formas: os pais podem levar o questionário para casa para o responderem ou são entrevistados durante o atendimento. A idéia embutida nesse procedimento é apresentar novas formas de ver a situação, novas possibilidades de pensar o fenômeno em questão. Se a anamnese for concluída em um único encontro digo aos pais que tragam a criança no próximo atendimento. No primeiro contato com a criança, o psicólogo se apresenta e pergunta-lhe se ela sabe o que faz um psicólogo, e se conhece os motivos pelos quais foi trazida a esse atendimento. A primeira sessão com a criança é uma observação lúdica. Para realizá-la trabalha-se com caixa lúdica (lápis preto, de cor, e de cera, papel sulfite, canetas coloridas, tinta, pincel, bonecos da família, damas, móveis de casa, utensílios domésticos, carros diferentes tipos, etc. A caixa é apresentada fechada para a criança, para que se possa observar sua iniciativa de abri-la, se espera pela ajuda do psicólogo para fazê-lo, enfim, para ver sua reação em situação desconhecida. È observado a natureza e o conteúdo do seu brincar: se há criatividade; se há agressividade; se reproduz aspectos de sua vida, enfim tenta-se entender qual é a sua lógica, sua realidade. Nas sessões devolutivas com os pais é compartilhado as percepções do psicólogo sobre a criança, seu comportamento no atendimento e como eles se articulam com a queixa de um modo geral. Os sentimentos dos pais também são trabalhados nesta situação.

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