sábado, junho 20, 2009

MÉMORIA E SOCIEDADE - PARTE 3

Mnemosyne, a recordadora, era divindade no panteão grego. Qual o poder de Mnemosyne? Irmão de Cronos e de Okeanós, do tempo e do oceano, mãe das musas cujo coro conduz, ela preside à função poética que exige intervenção sobrenatural. É uma forma de possessão e delírio divinos, o entusiasmo. (A etimologia da palavra nos ensina que, para os gregos, "entusiasmo" significa o estado de quem tem um deus dentro de si).O intérprete de Mnemosyne é possuído pelas musas assim como o profeta o é por Apolo. Vernant, quando estuda os aspectos míticos da memória e do tempo, coteja sempre a vidência do futuro com a do passado, as revelações do que aconteceu outrora e do que ainda não é. Mnemosyne dispensa a seus eleitos uma oniciência do tipo divinatório, não de seu passado individual, mas do passado em geral, do tempo antigo. Qual a função da memória? Não reconstrói o tempo, não o anula tampouco. Ao fazer cair a barreira que separa o presente do passado, lança uma ponte entre o mundo dos vivos e o do além, ao qual retorna tudo o que deixou à luz do sol. Realiza uma evocação: o apelo dos vivos, a vinda à luz do dia, por um momento, de um defunto. É também a viagem que o oráculo pode fazer, descendo, ser vivo, ao pais dos mortos para aprender a ver o que quer saber. A anamnesis (reminiscência) é uma espécie de iniciação, como a reveleção de um mistério. A visão dos tempos antigos liberta-o, de certa forma, dos males de hoje. Vernant, descrevendo o ritual no oráculo de Lebadéia, conta que antes de entrar no país dos mortoso consultante bebia de duas fontes: no Lethe, e esquecia sua vida humana; na Mnemosyne, para lembrar o que havia visto no outro mundo. Quem guarda a memória no Hades transcende a condição mortal, não vê mais oposição entre a vida e a morte. O privilégio pertence a todos aqueles cuja memória sabe discernir para além do presente o que está encerrado no mais profundo passado e amadurece em segredo para os tempos que virão. Hoje, a função da memória é o conhecimento do passado que se organiza, ordena o tempo, localiza cronologicamente. Na aurora da civilização grega ela era vidência e êxtase. O passado revelado desse modo não é o antecedente do presente, é a sua fonte. Do estudo de Vernant sentimos a impossiblidade de separar a memória do conselho e da profecia. Lembra Flavio Di Giorgi algumas noções sobre etimologia: A raiz bruta mn em seu grau 1 expressa o caso individual, como memini (eu me lembro). Em seu grau 0 a raiz mn entra no nível da atuação social: como moneo (eu advirto, ou eu admoesto). este grau pode permitir a formação de palavras carregadas de ambiguidade cultural como "monitor" (conselheiro), de conotação positiva. Mas também "admoestador" (corregedor), de conotação negativa. Entre o ouvinte e narrador nasce uma relação baseada no interesse comum em conservar o narrado que deve poder ser reproduzido. A memória é a faculdade épica por excelência. Não se pode perder, no deserto dos tempos, uma só gota da água irisada que, nômadas, passamos do côncavo de uma para outra mão. A história deve reproduzir-se de geração a geração, gerar muitas outras, cujos fios se cruzem, prolongando o original, puxados por outros dedos. Quando Scheerazade contava, cada episódio gerava em sua alma uma história nova, era a memória épica vencendo a morte em mil e uma noites. "Dessa luta emergem as experiências francamente épicas do tempo: a esperança e a recordação" (Lukács). Referindo-se ao romancista, diz ainda Lukács que o sujeito alcança "a unidade de toda a sua vida na corrente de vida passada concentrada na recordação [...] a visão que colhe esta unidade é a intuição e o pressentimento do significado não alcançado e, portanto, inexprimível da vida" Esse sentido precisa incluir o trabalho das mãos. Alma, olho e mão entram em acordo para Valéry no narrador: é um artesão que torna visível o que está dentro das coisas: "Eu não sabia", diz uma criança a um escultor, "que dentro daquele bloco de pedra estava esse cavalo que você tirou". O narrador está presente ao lado do ouvinte. Suas mãos, experimentadas no trabalho, fazem gestos que sustentam a história, que dão asas aos fatos principiados pela sua voz. Tira segredos e lições que estavam dentro das coisas, faz uma sopa deliciosa das pedras do chão, como no conto da Carochinha. A arte de narrar é uma relação alma, olho e mão: assim transforma o narrador sua matéria, a vida humana. Trabalhar a matéria-prima da experiência: os operários aposentados florentinos, depois de fabricar, na juventude e maturidade, o objeto em série, na velhice fazem obras-primas com madeira, mosaico e couro, que, há poucos anos, podiam ser encontrados no Ponte Vecchio. É o tempo de se entregar a uma experiência profunda, de penetrar, como um artífice, a natureza das coisas. O narrador é um mestre do ofício que conhece seu mister: ele tem o dom do conselho. A ele foi dado abranger uma vida inteira. Seu talento de narrar lhe vem da experiência; sua lição, ele extraiu da própria dor; sua dignidade é a de contá-la até o fim, sem medo. Uma atmosfera sagrada circunda o narrador.
(Excertos do livro Ecléa Bosi, MEMÓRIA E SOCIEDADE:lembranças de velhos. páginas 89-91. Companhia das Letras)

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