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MÉMORIA E SOCIEDADE - PARTE 1

Ao ler este texto da professora Ecléa Bosi, me apaixonei.... Não poderia deixar de compartilhar a beleza contida nestas linhas...
Histórias de Velhos
Por que decaiu a arte de contar histórias? Talvez porque tenha decaído a arte de trocar experiências. A experiência que passa de boca em boca e que o mundo da técnica desorienta. A Guerra, a Burocracia, a Tecnologia desmentem cada dia o bom senso do cidadão: ele se espanta com sua magia negra,mas cala-se porque lhe é difícil explicar um Todo irracional. Ao transmitir as lembranças de pessoas idosas que escutei, quero expor o que pensa Walter Benjamin sobre a arte de narrar. Sempre houve dois tipos de narrador: o que vem de fora e narra suas viagens; e o que ficou e conhece sua terra, seus conterrâneos, cujo passado o habita. O narrador vence distâncias no espaço e volta para contar suas aventuras (acredito que é por isso que viajamos) num cantinho do mundo onde suas peripécias têm signficação:
Quando tudo no mundo é a mocidade verde a árvore, moça a natureza; e cada ganso te parece um cisne, e cada rapariga uma princesa; venham minhas esporas, meu cavalo! Vou correr mundo em busca da alegria! O sangue moço quer correr, ardente, e cada criatura quer seu dia... Nas frias tardes da velhice, quando é parda toda a árvore que tive; em que todo desporto é já cansaço, e toda a roda corre no declive; Oh! volta à casa, busca o teu cantinho, vai, mesmo assim, cansado e sem beleza: lá acharás o rosto que adoravas quando era jovem toda a natureza!
(Esta balada esta no livro de C. Kingsley, Os nenês d`água, traduzido por Pepita Leão)
Ou a aventura vence as distâncias no tempo, trazendo um fardo de conhecimento do qual tira o conselho. Se essa expressão parece antiquada é porque diminuiu a comunicabilidade da experiências. Hoje não há mais conselhos, nem para nós nem para os outros. Na época da informação, a busca da sabedoria perde as forças, foi substituída pela opinião. Por que despregar com esforço a verdade das coisas, se tudo é relativo e cada um fica com sua opinião? Isto também deriva das relações de produção que expulsaram o conselho do âmbito do falar vivo. A arte da narração não está confinada nos livros, seu veio épico é oral. O narrador tira o que narra da própria experiência e a transforma em experiência dos que o escutam. No romance moderno, o herói sofre as vicissitudes do isolamento e, se não consegue expressá-las de forma exemplar para nós, é porque ele mesmo está sem conselho e nãompode dá-lo aos outros. O romance atesta a desorientação do vivente. Cervantes mostra como as ações de um dos seres mais nobres, o magnânimo, o audaz Dom Quixote, estão privadas do dom do conselho. No romance, a personagem bate a cabeça sozinha, ele historia os seus desencontros,suas falhas e lacunas, especialmente a cisura indivíduo-comunidade. Aqui, comonos últimos versos do Fausto, "o insuficiente torna-se evento". A narração exemplar foi substituída pela informação de imprensa, que não é pesada e medida pelo bom senso do leitor. Assim, a união de uma cantora com um esportista ocupa mais espaço que uma revolução. A informação pretende ser diferente das narrações dos antigos: atribui-se foros de verdade quando é tão inverificável quanto a lenda. Ela não toca no maravilhoso, se quer plausível. A arte de narrar vai decaindo com o triunfo da informação. Ingurgitada de explicações, não permite que o receptor tire dela alguma lição. Os nexos psicológicos entre os eventos que a narração omite ficam por conta do ouvinte, que poderá reproduzi-la à sua vontade; daí o narrado possuir uma amplitude de vibrações que falta à informação. Herótodo conta uma pequena história da qual se pode aprender muito: Quando o rei egípcio Psamênito foi vencido e caiu prisioneiro do rei dos persas, Câmbises, este resolvei humilhá-lo. Ordenou que colocassem Psamênito na rua por onde passaria o triunfo persa e fez com que o prisioneiro visse passar a filha em vestes de escrava enquanto se dirigia ao poço com um balde na mão. Enquanto todos os egípcios elevavam prantos e gritos àquela visão, só Psamênito permaneceu mudo e imóvel com os olhos pregados no chão; e quando, pouco depois, viu o filho conduzido à morte no cortezo, permaneceu igualmente impassível. Mas, quando viu passar entre os prisioneiros um dos seus servos, um homem velho e empobrecido, então golpeou a cabeça com as mãos e mostrou todos os sinais da mais profunda dor. (Heródoto, Histoires, livro III, in Historiens grecs, caps. 10-5) A situação fica aberta à nossa interpretação. Por que teria chorao o rei Psamênito? Penso em possíveis respostas. Psamênito chorou por que a visão do velho servidor foi a gota d'água que fez transbordar seu cálice, depois de ter assistido impassível ao aprisionamento de seus entes mais caros. Psamênito chorou porque o velho servidor, testemunha de sua infância e da existência de seus pais e avós, era um elo que unia e confirmava a geração real. Seu arrastamento e prisão simbolizavam o esfacelamento da dinastia. Psamênito chorou porque a princesa poderia tramar nos bastidores a seu favor; o príncipe poderia articular uma revolta e libertar sua mãe e irmãs, mas o velho servidor já não restavam forças, sendo, portanto, inútil e cruel sua humilhação. Por que chora o narrador em certos momentos da história de sua vida? Esses momentos não são, com certeza, aqueles de que esperaríamos lágrimas e nos desconcertam. O sr. Ariosto vai contar-nos seus primeiros anos rondados pela fome quase corporificada na narrativa, a perda de seus parentes, a ruína. Sendo uma pessoa gentilíssima, sua narração procura não abalar o ouvinte em momento algum, mas ele chora quando nos conta que seu pai sustentava a família como mestre de caligrafia. Como seria a vida de um mestre de caligrafia no início do século? A informação só nos interessa enquanto novidade e só tem valor no instante que surge. Ela se esgota no instante em que se dá e se deteriora. Que diferente é a narração! Não se consuma, pois sua força está concentrada em limites como a da semente e se expandirá por tempo indefinido. Por que terá chorado o rei Psamênito? O receptor da comunicação de massa é um ser desmemoriado. Recebe um excesso de informações que saturam sua fome de conhecer, incham sem nutrir, pois não há lenta mastigação e assimilação. A comunicação em mosaico reúne contrastes, episódios díspares sem síntese, é a-histórica, por isso é que seu espectador perde o sentido da história.
(Excertos do livro Ecléa Bosi, MEMÓRIA E SOCIEDADE:lembranças de velhos. páginas 84-87. Companhia das Letras)

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