sábado, junho 20, 2009

CONCEITOS KLEINIANOS


SOBRE OS CRITÉRIOS PARA O TÉRMINO DE UMA PSICANÁLISE (1950)

Para Melanie Klein, os critérios para o final de uma análise são um problema importante na mente de todo psicanalista. Segundo ela, as emoções sentidas pelo bebê na época do desmame, quando os conflitos infantis arcaicos chegam a um ponto máximo, são intensamente revividas com a aproximação do final de uma análise. Antes de terminar uma análise ela indagava se os conflitos e as ansiedades vivenciadas durante o primeiro ano de vida foram suficientemente analisados e elaborados durante o curso do tratamento. O trabalho de Klein, sobre o desenvolvimento inicial levou-a a distinguir entre duas formas de ansiedade: a ansiedade persecutória, que predomina durante os primeiros seis meses de vida e faz surgir a “posição esquizo-paranóide”, e a ansiedade depressiva, que chega a um ponto culminante por volta da metade do primeiro ano, fazendo surgir a “posição depressiva”. Ela chegou a conclusão de que no começo de vida pós-natal, o bebê vivencia ansiedade persecutória proveniente tanto de fontes externas quanto de internas: externas na medida em que a experiência do nascimento é sentida como um ataque que lhe foi infligido; internas, porque a ameaça ao organismo que, de acordo com Freud, sugere pulsão de morte (medo do aniquilamento). Para Klein, a ansiedade persecutória se relaciona com perigos sentidos como ameaçadores para o ego; a ansiedade depressiva se relaciona a perigos sentidos como ameaçadores para o objeto amado (através da agressividade do sujeito). “O sentimento de culpa relativo ao dano causado por desejos canibalescos e sádicos está interligado com a ansiedade depressiva. A culpa suscita a necessidade premente de reparar o objeto amado danificado, de preservá-lo ou revivê-lo – uma premência que aprofunda os sentimentos de amor e promove relações de objeto.”
Para Klein, o fracasso na elaboração da posição depressiva está indissoluvelmente ligado a uma predominância de defesas que acarretam necessariamente uma asfixia das emoções e da vida de fantasia e impedem o insight. Ela afirma que durante a análise, o psicanalista aparece como uma figura idealizada. A idealização é usada como uma defesa contra a ansiedade persecutória e é seu corolário. É através da análise da transferência negativa assim como da positiva que a ansiedade é reduzida na raiz. Segunda ela, objetos bons – distintos dos idealizados – só podem ser estabelecidos seguramente na mente se a intensa cisão entre figuras persecutórias e ideias tiver diminuido, se os impulsos agressivos e libidinais tiverem se aproximado e o ódio tiver sido mitigado pelo amor. Um avanço na capacidade de sintetizar é uma prova de que os processos de cisão diminuíram e de que aconteceu uma integração do ego em profundidade. Quando estes aspectos positivos estão suficientemente estabelecidos, justifica-se pensar que o término de uma análise não é prematuro, ainda que ele possa fazer reviver até mesmo uma ansiedade aguda.

AS ORIGENS DA TRANSFERÊNCIA (1952)

Freud (1905) define a situação de transferência da seguinte maneira: “Que são transferências? São novas edições ou fac-símiles dos impulsos e fantasias que são despertados e tomados conscientes durante o andamento da análise. Toda uma série de experiências psicológicas é revivida, não como algo que pertence ao passado, mas que se aplica ao médico no presente momento”. A transferência opera ao longo de toda vida e influencia todas as relações humanas. Melaine Klein interessa-se pelas manifestações da transferência na psicanálise, e afirma que é característico do procedimento psicanalítico que, na medida em que o analista começa a abrir caminho dentro do inconsciente do paciente, seu passado vá sendo gradualmente revivido. Desse modo, sua premência em transferir suas primitivas experiências, relações de objeto e emoções é reforçada, e elas passam a localizar-se no psicanalista. Quanto mais profundamente conseguirmos penetrar dentro do inconsciente e quanto mais longe no passado pudermos levar a análise, maior será nossa compreensão da transferência. A ansiedade persecutória é originada das sensações vivenciadas pelo bebê por ocasião do nascimento e as dificuldades de se adaptar a condições inteiramente novas. O bebê dirige seus sentimento de gratificação e amor para o seio “bom” e seus impulsos destrutivos e sentimentos de perseguição para aquilo que sente como frustador, isto, é o seio “mau”. A relativa segurança do bebê baseia-se em transformar o objeto bom em objeto ideal, como uma proteção contra o objeto perigoso, persecutório. Esses processos (cisão, negação, onipotência e idealização) são predominantes durante os três ou quatro primeiros meses de vida (“posição esquizo-paranóide”, 1946). Os processos primários de projeção e introjeção, estando inextricavelmente ligados com as emoções e ansiedades do bebê, iniciam as relações de objeto: pela projeção, isto é, pela deflexão da libido e da agressão em direção ao seio da mãe, fica estabelecida a base para as relações de objeto; pela introjeção do objeto, em primeiro lugar o seio, as relações com os objetos internos passam a existir. Para Klein, a introjeção do seio é o início da formação do superego. O núcleo do superego é, portanto, o seio da mãe, tanto o bom quanto o mau.
A ansiedade depressiva origina-se a partir da crescente capacidade do ego de integração e síntese que leva cada vez mais, o bebê, a estados em que o amor e o ódio, e correspondentemente, aspectos bons e maus dos objetos são sintetizados. Entre o quarto e o sexto mês essas emoções (impulsos e os desejos agressivos do bebê) são reforçadas, pois o bebê percebe e introjeta cada vez mais a mãe como uma pessoa. É nestes estágio, e ligado à posição depressiva que se instala o complexo de Édipo. A ansiedade e a culpa acrescentam um poderoso impulso em direção ao início do complexo de Édipo, pois elas aumentam a necessidade de externalizar (projetar) figuras más e de internalizar (introjetar) figuras boas. Para Klein, as relações de objeto estão no centro da vida emocional. Amor, ódio, fantasias, ansiedades e defesas operam desde o começo e encontram-se ab initio indivisivelmente ligados a relações de objeto. Na análise temos de voltar repetidamente às flutuações entre objetos amados e odiados, externos e internos, que dominam o início da infância. Só podemos apreciar plenamente a interconexão entre as transferências positiva e negativa se explorarmos o interjogo inicial entre o amor e o ódio, e o círculo vicioso entre agressão, ansiedades, sentimentos de culpa e uma maior agressão, bem como vários aspectos dos objetos para os quais são dirigidas essas emoções de ansiedades conflitantes. Através da exploração desses processos arcaicos, Klein, convenceu-se de que a análise da transferência negativa, constitui uma precondição para analisar as camadas mais profundas da mente. A análise tanto da transferência negativa quanto da positiva constitui um princípio indispensável para o tratamento de todos os tipos de pacientes, criança e adultos igualmente. É unicamente analisando a situação de transferência em sua profundidade que seremos capazes de descobrir o passado, tanto em seus aspectos realistas quanto em seus aspectos fantasiosos. “A figura dos pais combinados” é uma das formações de fantasia características dos estágios mais iniciais do complexo de Édipo, que se mantida em toda a sua força, prejudica as relações de objeto e o desenvolvimento sexual. Esta fantasia extrai sua força de outro elemento da vida emocional arcaica, isto é, da poderosa inveja associada aos desejos orais frustados. Na mente do bebê, quando ele esta frustado, sua frustação se casa com o sentimento de que um outro objeto (representado pelo pai) recebe da mãe a ambicionada gratificação e o amor a ele negados naquele momento. Isto é o protótipo de situações tanto de inveja quanto de ciúme. Para Klein, é essencial pensar em termos de situações totais transferidas do passado para o presente, bem como em termos de emoções, defesas e relações de objeto. Os elementos inconscientes da transferência são deduzidos a partir da totalidade do material apresentado. Nosso campo de investigação cobre tudo aquilo que se situa entre a situação presente e as experiências. Somente através da ligação contínua das experiências mais recentes com as anteriores e vice-versa, somente explorando consistentemente a interação dessas experiências é que o presente e o passado podem se aproximar na mente do paciente. Quando as ansiedades persecutória e depressiva e a culpa diminuem, há menos premência a repetir continuamente experiências fundamentais, em consequência, antigos padrões e modos de sentir são mantidos com menor tenacidade. Essas mudanças fundamentais resultam da análise consistente da transferência; estão ligadas a uma revisão de alcance profundo das primeiras relações de objeto e refletem-se na vida presente do paciente, bem como, na modificação das atitudes em relação ao analista.

A TÉCNICA PSICANALÍTICA ATRAVÉS DO BRINCAR: SUA HISTÓRIA E SIGNIFICADO (1955 [1953])

A atenção de Klein centrou-se na ansiedade da criança. O início da técnica psicanalitica através do brincar ocorreu a partir do tratamento de um menino de cinco anos, conduzido na casa da criança, com seus próprios brinquedos. Desde o início a criança expressou suas fantasias e ansiedades principalmente através do brincar, e Klein interpretava consistentemente seu significado para a criança, com resultado de que material adicional aparecia em seu brincar. Uma precondição para a psicanálise de uma criança é compreender e interpretar as fantasias, sentimentos, ansiedades e experiências expressos através do brincar ou, se as atividades de brincar estão inibidas, as causas da inibição. A situação transferencial – espinha dorsal do procedimento psicanalítico – só pode ser estabelecida e mantida se o paciente for capaz de sentir que o consultório ou a sala de análise de crianças, e na verdade toda a análise, é alguma coisa separada de sua vida familiar cotidiana. Isto porque é apenas sob tais condições que ele pode superar suas resistências contra vicenciar e expressar pensamentos, sentimentos e desejos que são incompatíveis com as convençoes sociais, no caso de crianças, são sentidos como contrastando com muito do que lhes foi ensinado. Klein afirma ser essencial ter brinquedos pequenos porque seu número e variedade permitem à criança expressar uma ampla variedade de fantasias e experiências. É importante que esses brinquedos não sejam mecânicos e que as figuras humanas, variando apenas em cor e tamanho, não indiquem qualquer ocupação particular. O equipamento do consultório de crianças também é simples. Os equipamentos de brincar de cada criança são guardados trancados em uma gaveta particular, e ela assim sabe que brinquedos e o seu brincar com eles – o equivalente das associações do adulto – são apenas conhecidos pelo analista e por ela mesma. A caixa de brinquedo (protótipo da gaveta individual) faz parte da relação privada e íntima entre analista e paciente, característica da situação transferencial psicanalítica. Os brinquedos não são o único requisito para uma análise através do brincar, mas muitas da atividades da criança realizadas em torno da pia, são equipadas com uma ou duas tigelinhas, copos e colheres. A agressividade é expressa de várias formas no brincar da criança, seja direta ou indiretamente. É essencial permitir à criança trazer à luz sua agressividade. Mas o que conta mais é compreender por que nesse momento particular da situação transferencial aparecem os impulsos destrutivos, e observar suas consequências na mente da criança. É parte essencial do trabalho interpretativo que ele se matenha em compasso com as flutuações entre amor e ódio; entre felicidade e satisfação de um lado e ansiedade persecutória de depressão de outro. Isto implica que o analista não deve mostrar desaprovação por ter a criança quebrado um brinquedo. O analista deve permitir à criança vivenciar suas emoções e fantasias na medida em que aparecem. No brincar da criança, também encontramos a repetição de experiências e detalhes reais da vida cotidiana, frequentemente entrelaçados com suas fantasias. Qualquer atividade, tal como utilizar o papel para rabiscar ou recortar, e cada detalhe do comportamento, tais como mudanças na postura ou na expressão facial, podem dar uma pista do que está se passando na mente de uma criança, possivelmente em conexão com o que o analista ouviu dos pais sobre as suas dificuldades. As crianças pequenas são intelectualmente capazes de compreender tais interpretações. Para Klein, o superego é algo que é sentido pela criança como operando internamente de modo concreto, que consiste de uma variedade de figuras construídas a partir das experiências e fantasias da criança e deriva-se dos estágios nos quais ela internalizou (introjetou) seus pais. O simbolísmo possibilitava à criança transferir não apenas interesses, mas também, fantasias, ansiedades e culpa a outros objetos além de pessoas. Muito alívio é experimentado no brincar, e este é um dos fatores que o tornam tão essencial para a criança. Crianças com inibição severa da capacidade de formar e usar símbolos, ou seja, desenvolver a vida de fantasia, é sinal de séria pertubação. Sugeriu que tais inibições e a pertubação resultante na relação com o mundo externo e com a realidade, são características da esquizofrenia.

ANALÍTICS