IDENTIDADE

CIAMPA, A. C. - Identidade. In Lane, S.M.T. Psicologia social: o homem em movimento.
A nossa identidade se mostra como a descrição de uma personagem, cuja vida, aparece numa narrativa. A identidade de uma personagem constitui a de outra e vice-versa, como também a identidade dos personagens constitui a do autor, e este se oculta por trás da personagem. Somos ocultação e revelação. Nós nos identificamos com nosso nome. Nosso primeiro nome (prenome) nos diferencia de nossos familiares, enquanto o último (sobrenome) nos iguala a eles. Diferença e igualdade é uma primeira noção de identidade. O conhecimento de si é dado pelo reconhecimento recíproco dos indivíduos identificados através de um determinado grupo social que existe objetivamente. A identidade é constituída pelos diversos grupos de que fazemos parte. É pelo agir, pelo fazer que alguém se torna algo: nós somos nossas ações, nós nos fazemos pela prática. A identidade pressuposta é reposta, é vista como dada. Eu como ser social sou um ser-posto. A posição de mim me identifica, discriminando-me como dotado de certos atributos que me dão uma identidade considerada formalmente como atemporal. Cada posição minha me determina, fazendo com que minha existência concreta seja a unidade da multiplicidade que se realiza pelo desenvolvimento dessas determinações. Em cada momento de minha existência, embora eu seja uma totalidade, manifesta-se uma parte de mim como desdobramento das múltiplas determinações a que estou sujeito. Eu compareço frente aos outros como representante de mim. As identidades, no seu conjunto, refletem a estrutura social, ao mesmo tempo que reagem sobre ela conservando-a ou a transformando. Meu comparecimento frente a outrem envolve representação num tríplice sentido: eu represento enquanto estou sendo o representante de mim; eu represento enquanto desempenho papéis; eu represento enquanto reponho no presente o que tenho sido, enquanto reitero a apresentação de mim. Só posso comparecer no mundo frente a outrem efetivamente como representante do meu ser real quando ocorrer a negação da negação, entendida como deixar de presentificar uma apresentação de mim que foi cristalizada em momentos anteriores – deixar de repor uma identidade pressuposta – ser movimento, ser processo, ou, para utilizar uma palavra mais sugestiva se bem que polemica, ser metamorfose. O “ser ser o que é” implica o seu desenvolvimento concreto: a superação dialética da contradição que opõe Um e Outro fazendo devir um outro que é o Um que contém ambos. O homem é homem como uma afirmação da materialidade da contínua e progressiva hominização do homem. Não é possível dissociar o estudo da identidade do individuo do da sociedade. É do contexto histórico e social em que o homem vive que decorrem suas determinações, e conseqüentemente, emergem as possibilidades ou impossibilidades, os modos e as alternativas de identidade. A tendência geral do capitalismo é constituir o homem como mero suporte do capital, que o determina, negando-o enquanto homem, já que se torna algo coisificado (trabalhador-mercadoria e não trabalha autonomamente; capitalista-propriedade do capital e não proprietário das coisas). O verdadeiro problema de identidade do homem moderno: a cisão entre o individuo e a sociedade, que faz com que cada individuo não reconheça o outro como ser humano e conseqüentemente, não se reconheça a si próprio como humano. A questão da identidade nos remete necessariamente a um projeto político. Trata-se de considerar a superação dialética desse dualismo (homem só como subjetividade versus homem só objetividade) pela práxis. Trata-se de engajar em projetos de coexistência humana que possibilitem um sentido da história como realização de um futuro a ser feito com os outros. Projetos que possam tender, convergir ou concorrer para a transformação real de nossas condições de existência, de modo que o verdadeiro sujeito humano venha a existência, e estes, devem ser feitos coletivamente e de forma democrática (entendida aqui como forma racional). O que pode impedir este engajamento consciente num projeto político, é ter uma atitude, de um lado intelectual, frente à questão da relação do individuo e sociedade, semelhante àquela que nos leva a discutir quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha, e ter uma concepção de identidade como permanência, como estabilidade; patologizando a crise e a contradição, a mudança e a transformação. Assim estancamos o movimento, escamoteamos a contradição, impedimos a superação dialética. Identidade é movimento, é desenvolvimento do concreto, é metamorfose. É sermos o Um e um Outro, para que cheguemos a ser Um numa infindável transformação.

Postagens mais visitadas deste blog

PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA: SUBJETIVIDADE E MUNDO SOCIAL

DINÂMICA DE GRUPO - CONCEITOS DA TEORIA DE WILL SCHUTZ

PSICOMOTRICIDADE: PRINCIPAIS CONCEITOS