Em sua obra emblemática "Adeus professor, adeus professora?", José Carlos Libâneo delineia o novo papel do professor diante das profundas exigências impostas pelas transformações tecnológicas, científicas, econômicas e culturais da sociedade contemporânea. Sob uma perspectiva emancipadora, o autor nos convida a refletir sobre a função social da escola, defendendo a valorização da categoria docente sem ignorar gargalos estruturais como a desvalorização profissional, a falta de políticas públicas consistentes e a tendência de desprofissionalização da carreira.
A principal tese de Libâneo é que a escola precisa abandonar o modelo de mera transmissora de informações para se tornar um espaço de análise crítica, produção do conhecimento e atribuição de significados. Contudo, ao analisar a atuação do professor como mediador da aprendizagem ativa, torna-se indispensável expandir essa mediação para além do campo estritamente cognitivo: a aprendizagem crítica e a construção de significado dependem diretamente do desenvolvimento socioemocional e da educação emocional do estudante e do educador.
Onde a Pedagogia Encontra a Educação Emocional
Libâneo pontua que a prática pedagógica deve considerar as experiências, os significados e a bagagem que os alunos trazem para a sala de aula. Essa bagagem não é apenas conceitual ou cultural, mas essencialmente afetiva e comportamental.
Para transformar o estudante em um ser verdadeiramente pensante e autônomo, o professor precisa atuar também sob a ótica da Educação Emocional, reconhecendo como a autorregulação, a segurança psicológica, o sentimento de pertencimento e as dinâmicas relacionais afetam diretamente a capacidade de atenção, retenção e raciocínio crítico.
O autor também destaca a necessidade de articular o conhecimento científico à cognição prática para compreender e transformar a realidade, orientando os alunos em valores e atitudes diante da vida. É exatamente nesse ponto que a educação emocional se consolida como ponte indispensável:
Consciência Social e Empatia: Orientar valores e atitudes exige o desenvolvimento explícito de competências relativas à convivência, ao respeito às diferenças e à resolução pacífica de conflitos.
Autorregulação e Autonomia: A verdadeira emancipação citada por Libâneo só ocorre quando o aluno desenvolve não apenas o pensamento crítico, mas também a maturidade emocional para gerenciar suas frustrações, tomar decisões responsáveis e exercer sua autonomia no mundo.
A Dimensão Emocional da Atuação Docente: O resgate da atuação do professor — defendido por Libâneo como uma questão moral e de sobrevivência da carreira — passa necessariamente pela saúde emocional e pelo suporte ao próprio educador. Um ensino de qualidade exige ambientes escolares que promovam o bem-estar e a segurança psicológica dos professores, prevenindo o esgotamento profissional (burnout) e fortalecendo o clima escolar.
Conclusão: O Saber, o Fazer e o Sentir na Prática Pedagógica
Ao defender que "ensino de qualidade afinado com as exigências do mundo contemporâneo é uma questão moral, de convivência e de sobrevivência profissional" (LIBÂNEO, 2001, p. 50), o autor antecipa uma urgência da pedagogia atual: não há inovação educacional ou formação crítica que se sustente sem o desenvolvimento integrado do saber, do fazer e do sentir.
A renovação da escola contemporânea exige, portanto, professores que sejam mediadores do conhecimento e facilitadores do desenvolvimento emocional.
Referência Bibliográfica:
LIBÂNEO, José Carlos. Adeus professor, adeus professora? Novas exigências educacionais e profissão docente. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2001.
Nota da Autora:
Este artigo foi originalmente publicado em 2009 e revisado para conectar a teoria pedagógica clássica com as práticas e evidências atuais da Educação Emocional.
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