domingo, março 20, 2016

PEREGRINOS OU TURISTAS?




PEREGRINOS OU TURISTAS?

Impossível abrir mão do exercício de pensar! Pensar sobre os fatos e sobre as situações que nos atravessam. E como não seria diferente, temos a capacidade de nos informar e de conhecer. Ora o que isso significa? 

Somos bombardeados por informações que nos chegam minuto à minuto, porém, só se tornam conhecimento a partir das relações de sentido que estabelecemos com estas. Conhecimento é estabelecer relações com as informações apreendidas. Isto nos faz refletir! 

Sendo assim, pensava sobre a explanação de Yves de La Taille, a respeito da formação da ética e sobre os aspectos da pós-modernidade. Deparei-me com a metáfora do Peregrino e do Turista, apresentado por Bauman, e referido por La Taille de modo tão eloquente, que decidi escrever um pouco das reverberações deste encontro. Qual é a postura que adotamos na vida: peregrinos ou turistas? 

Para o peregrino a viagem é existencial, é um ato de fé. O peregrino está buscando modificar a identidade e quando volta da viagem traz em si experiência e aprendizagem. Para ele, o percurso é importante. Ele contempla, faz perguntas e se adapta aos lugares por onde passa. Ele participa da vida dos lugares e tem vontade, sabe querer. O peregrino tem medo de se enganar a si mesmo. 

Para o turista, a viagem existencial não está presente, ela é um ato de consumo. Ele está em busca de alteridade e traz consigo lembranças. Ele não se interessa pelo percurso, mas sua meta é a chegada. Para ele o lugar deve se adaptar a si, e escolhe lugares que lhe sejam iguais. O turista não participa da vida do lugar e se precipita em não ter relações, a não ser instrumentais, com os lugares. Ele espera algo. O turista tem medo de ser decepcionado pelo lugar que ele encontra.

Será está uma questão de escolha? Talvez seja. O fato é que me parece bem interessante tornar-se peregrino, pois este é aquele que silenciosamente busca sua essência, o sentido da vida e da verdade. Vai construindo sua identidade durante o seu difícil percurso existencial. Está em movimento e se apodera de sua vontade. Depara-se com a realidade nua e crua, com fragmentos, que demoradamente ao relacionar-se com estes, torna-se um todo, sentido, o encontro com o “eu”. Sua existência é o percurso e não a chegada. 

Já o turista é aquele que está voltado para fora de si mesmo, em busca de sensações fugazes, voltado aos prazeres ocasionais, ligados ao consumo. Vive o tédio, pois sua meta é a procura de novas sensações que se tornam desinteressantes ao serem experimentadas. O percurso é algo cansativo, pois a ele interessa a chegada e com isso não contempla as paisagens de sua viagem. Assim, ele passa o tempo trocando, de objetos, de sentimentos, de relacionamentos, etc e etc... Tudo lhe é descartável! 

Ora, diante dessa perspectiva entre peregrinos e turistas, cabe pensar com cuidado e em cuidado! O que pode modificar este contexto diluído, frágil e fragmentado? De certo modo, a escolha que fazemos diariamente pode nos apontar caminhos. 

Então, não me parece satisfatório estar aqui como turista, pois sofreremos de tédio, ou seja, teremos uma vida vazia, não suportando o tempo, não fluindo. Para dar conta do vazio, surge a busca pelo divertimento; a busca de algo para ocupar o tempo. Ora, porque não viver feliz não fazendo nada? Ócio criativo...

Finalmente, qual é o sentido de existência? Pense no seu percurso e em suas relações com o mundo, com as coisas, com os lugares e com as pessoas. Talvez esteja exatamente aí, as respostas para as questões. Peregrine e seja participante da vida!

Texto: Mirian Lopes
Foto: Domashnyaya Idilliya

domingo, março 06, 2016

BEIJAR


Beijar...
O beijo e arte...
"Por isso, eu te peço. Me provoque. Me beije a boca. Me desafie. Me tire do sério. Me tire do tédio. Vire meu mundo do avesso!"
Texto: Clarice Lispector
Arte: Leonardo Bistolfi (Italia, 1859-1933) "il sacrificio" (dettaglio) - Altare della Patria - Monumento a Vittorio Emanuele - Roma

AFRODITE



Formosa. 
Esses peitos pequenos, cheios. 
Esse ventre, o seu redondo espraiado! 
O vinco da cinta, o gracioso umbigo, o escorrido 
das ancas, o púbis discreto ligeiramente alteado, 
as coxas esbeltas, um joelho único suave e agudo, 
o coto de um braço, o tronco robusto, a linha 
cariciosa do ombro...


Afrodite, não chorei quando te descobri? 
Aquele museu plácido, tantas memórias da Grécia
e de Roma! 
Tantas figuras graves, de gestos nobres e de 
frontes tranquilas, abstratas... 
Mas aquela sala vasta, cheia, não era uma necrópole. 
Era uma assembleia de amáveis espíritos,
divagadores, ente si trocando serenas, eternas e nunca 
desprezadas razões formais.

Afrodite, Afrodite, tão humana e sem tempo... 
O descanso desse teu gesto! 
A perna que encobre a outra, que aperta o corpo. 
A doce oferta desse pomo tentador: peito e ventre. 
E um fumo, uma impressão tão subtil e tão provocante de pudor, 
de volúpia, de reserva, de abandono... 
Já passaram sobre ti dois mil anos?

Estranha obra de um homem! 
Que doçura espalhas e que grandeza... 
És o equilíbrio e a harmonia e não és senão corpo. 
Não és mística, não exacerbas, não angústias. 
Geras o sonho do amor.

Praxíteles. 
Como pudeste criar Afrodite? 
E não a macerar, delapidar, arruinar, na ânsia de 
a vencer, gozar! 
Tinha de assim ser. 
Eternizaste-a! 
A beleza, o desejo, a promessa, a doce carne...

Texto: Irene Lisboa
Arte: Gérard Daran

O CICLO DE VIDA DOS RELACIONAMENTOS


Texto: Mirian Lopes & Arte: Pascal Chove

Há um ciclo de vida próprio para os relacionamentos amorosos. Os períodos de crises e transições das fases da vida interferem na dinâmica de interações entre os parceiros. Há casais que funcionam bem realizando atividades em comum, porém, sem espaço individual; há outros que se unem na educação de filhos, mas são distanciados enquanto casal; e há casais que preservam seus interesses individuais, enquanto funcionam produtivamente em projetos comuns.

O ciclo de vida do casal começa bem antes da decisão de compartilharem o espaço da conjugalidade. De acordo com Jay Haley, a família de origem de cada um influencia este ciclo, na medida em que desempenha um papel de preparar ou não o individuo para uma vida separada dos pais.

As primeiras experiências amorosas se dão na busca sem preocupação, de um parceiro mais estável, que seja apto e tenha desejo de aceitar algo que o outro também espera resolver: seus conflitos infantis.

A relação que uma pessoa vivencia com sua mãe e seu pai, ou como os percebe enquanto casal poderá influenciar no seu interesse por uma determinada pessoa, embora este interesse pareça um acontecimento aleatório. O apaixonar-se supõe que haja uma reciprocidade e complementaridade das necessidades e anseios da vida a dois.

No ato de apaixonar-se é necessário o reconhecimento do amor. Um dos dois assumirá estar apaixonado na tentativa de estabelecer conexão com o outro. Se há enamoramento mútuo, surgirá a fantasia de unidade, e a tendência à idealização do outro e a evitação de se estar consciente sobre as dificuldades do outro.

A idealização do parceiro tornará difícil o reconhecimento de suas características e necessidades individuais, o que poderá trazer tensões futuras para o relacionamento. A crise se estabelece quando os parceiros percebem a modificação da relação, ou seja, há o reconhecimento de que o parceiro não é exatamente o que pensava-se que ele fosse ou de que ambos não são o que pensavam que fossem.

Assim o sentimento da unidade cede lugar a experiência de divisão, de distanciamento, causando desilusão e frustração. Esta fase termina quando as desilusões são desfeitas e ambos se aceitam como realmente são e o que realmente tem na relação. Os parceiros podem sobreviver a esta fase e alcançar estabilidade com a aceitação um do outro e com negociação das diferenças, resultando em mais espaço para a individualidade, ou pode haver um distanciamento que por fim resulte em separação por não haver mais interesse ou sentido de reinvestimento no relacionamento.

Os parceiros descobrem a capacidade de amar sem odiar o que cada um faz, e a manejar tensões, ceder sem que isso represente perda. Pode haver outro nível de comprometimento com o futuro, onde cada um dedica-se a compartilhar com outras pessoas as experiências adquiridas e a investirem em projetos comuns.

Todavia, há o risco de que esta dedicação faça com que pouca energia seja voltada para o relacionamento. É importante lidar com o “stress” da relação, tolerando mudanças. Este ritmo em lidar com tensões e evoluir nesse processo dependerá das características de cada pessoa e das pressões que a vida exerce sobre a relação.

Quando se reconhece que a relação não deu certo e que há a decisão de separação, haverá o processo de luto pela perda. Quando há a decisão da manutenção da relação, haverá a necessidade de que as magoas sejam trabalhadas para se chegar ao perdão, reconhecendo as dificuldades e responsabilidades da própria mudança, e das necessidades de cada um. Neste sentido, a terapia de casal tem a finalidade de auxiliar os parceiros a lidar com esse contexto encontrando alternativas para manter ou não a relação. O cuidado de si é fundamental nesse processo evolutivo.


SÍNDROME DO PÂNICO




Texto: Mirian Lopes – Arte: Federico Beber

A síndrome do pânico é caracterizada por períodos em que surgem ataques a qualquer momento do dia-a-dia de uma pessoa, na qual ela experimentará o início súbito de medo, terror, apreensão e uma sensação de morte iminente. Ela pode causar de forma lenta, sentimentos genéricos de tensão e desconforto nervoso, e pode aparecer como ataques de ansiedade aguda.

Em geral, estes ataques podem durar de 5 a 20 minutos e em média pode acontecer três ataques no período de um mês. O individuo se preocupa com as consequências do ataque ou pode mudar seu comportamento por causa do ataque.

Os sintomas são: tontura, sensação de insegurança, ou desmaio; palpitações ou frequência cardíaca acelerada (taquicardia); tremor, calafrios; sudorese; sufocação; náuseas ou dor abdominal; despersonalização; rubor; dor ou desconforto torácico; medo de morrer; medo de ficar louco ou de fazer alguma coisa descontrolada (TALBOTT et al, 1992 p. 193)

A síndrome do pânico faz parte dos chamados transtornos de ansiedade, conjuntamente com as fobias (fobia simples e fobia social), o estresse pós-traumático, o transtorno obsessivo-compulsivo e a ansiedade generalizada.

O tratamento da síndrome de pânico deve contemplar o gerenciamento das crises, a modificação da relação da pessoa com o próprio corpo, a retomada da capacidade de proteção pelo vínculo e a elaboração dos processos afetivos inconscientes que levaram ao pânico.

Para o gerenciamento das crises são utilizadas técnicas respiratórias, reorganização das posturas somático-emocionais de ansiedade, atenção dirigida, entre outras.

Os exercícios com atenção focada e ressignificação das sensações do corpo, o reconhecimento da correlação entre as posturas somáticas e os estados psicológicos, são importantes pois favorecem a intimidade com a linguagem somática que organiza a presença no mundo e ensina a pessoa como influir sobre os seus estados internos e desorganizar os padrões somático-emocionais que mantém a ansiedade e levam ao pânico.

A capacidade de restabelecer e sustentar a conexão profunda nos vínculos, também são trabalhados, ou seja, a pessoa revê sua história de vida, seus relacionamentos, e pode reorganizar os padrões de vinculação em direção a relações mais estáveis que possam oferecer uma rede de confiança e trocas afetivas, essenciais para a superação da síndrome do pânico.

Também é dado o enfoque nas situações causais, na história de vida emocional e no mapeamento das transições, crises existenciais e pressões que estavam em processo quando a síndrome de pânico começou. É fundamental identificar os afetos não elaborados que desencadearam as respostas de desconexão e que levaram à síndrome de pânico.

Em caso de necessidade, o tratamento com antidepressivos, normalmente associados aos ansiolíticos, poderá ser indicado. A técnica de relaxamento respiratório e muscular deve ser aplicada, e que consiste em exercícios de respiração e relaxamento muscular progressivo, onde o paciente exercita padrões com inspiração-expiração profundas e padrões com amplas respirações diafragmáticas, proporcionando-lhe senso de controle sobre o próprio organismo (ANDRADE et al 2005 p-38).

A dessensibilização sintomática é utilizada para levar o paciente a pensar e tentar vivenciar os sentimentos que o levam a desencadear sintomas que geram ansiedade ou submeter-se a uma exposição direta graduada aos objetos ou situações temidas (ANDRADE et al., 2005).

A reestruturação cognitiva também é utilizada para corrigir a má avaliação de sensações percebidas como ameaçadoras. A técnica da distração também pode auxiliar o paciente. Ele poderá se envolver em atividades lúdicas com jogos que exijam atenção ou iniciar uma conversa neutra com alguém.

Ler sobre a síndrome também auxilia o paciente, pois poderá modificar seu comportamento, seus pensamentos ou sentimentos.

Finalmente, há uma estratégia chamada A.C.A.L.M.E-S.E. que são assim descritas: Letra A: Significa aceitar a ansiedade. Letra C: Contemplar as coisas em sua volta em vez de ficar olhando para dentro de si mesmo, deixando acontecer ao corpo o que ele quiser; Letra A: Aja como se não tivesse ansioso. Diminua o ritmo com que faz as coisas, porém, mantenha-se ativo. Letra L: Libere o ar dos pulmões, bem devagar, calmamente, inspirando pouco ar pelo nariz e expirando longa e suavemente pela boca; Letra M: Mantenha os passos anteriores. Letra E: Examine seus pensamentos, pois talvez esteja antecipando coisas catastróficas; Letra S: Sorria, você conseguiu! Merece todo o seu crédito e todo o seu reconhecimento. Letra E: Espere o futuro com aceitação. Livre-se do pensamento mágico de que está livre definitivamente de sua ansiedade. Para prevenir as crises de pânico é necessário atenção para prática de exercícios regulares, boa alimentação, boa relação com as pessoas, e boa capacidade para liberar as tensões, em resumo, cuidado com a qualidade de vida.

ANDRADE, M. F. B.; MACEDO, M. L. M.; GUIMARÃES,R. L. L. Transtorno do pânico: uma visão cognitivo-comportamental. Monografia (Especialização em Psicologia Cognitiva – Comportamental). Faculdades Integradas de Patos. João Pessoa, 2005.

TALBOTT, John et al. Tratado de psiquiatria.. 1ª reimpressão. Porto Alegre: Arts Médicas 1992.

ANALÍTICS