Nenhum ser humano se desenvolve no isolamento. Desde o momento em que nascemos, somos inseridos em um grupo — a família — e, à medida que crescemos, expandimos nossa presença para outros círculos: a escola, os amigos, o ambiente de trabalho e a sociedade.
Foi a partir dessa constatação que o psiquiatra e psicanalista argentino Enrique Pichón-Rivière desenvolveu a Psicologia Social e a Técnica dos Grupos Operativos. Para ele, é impossível compreender o indivíduo sem analisar o contexto no qual ele está inserido e as influências que moldam seus papéis sociais.
A Educação Emocional encontra nos Grupos Operativos um terreno fértil: ambos compreendem que aprender não é apenas acumular dados teóricos, mas aprender a pensar, a sentir e a se relacionar ao enfrentar as transformações da vida.
O Que É um Grupo Operativo?
Um grupo operativo é aquele que se organiza em torno de uma tarefa. No entanto, Pichón-Rivière ensina que toda tarefa possui duas dimensões inseparáveis:
A Tarefa Explícita (Objetivo Prático): É o tema ou meta visível do grupo — como aprender um conteúdo, elaborar um projeto ou diagnosticar um problema.
A Tarefa Implícita (Dimensão Emocional): É o trabalho invisível que ocorre no campo dos afetos, medos e certezas de cada participante. Refere-se à capacidade de encarar as próprias ansiedades para que o aprendizado real aconteça.
A verdadeira Educação Emocional ocorre no equilíbrio dessas duas dimensões. Para aprender algo novo na prática, é preciso desconstruir certezas antigas — o que exige maturidade e suporte emocional.
As Fases do Processo Grupal: Da Resistência à Transformação
Diante de um desafio ou mudança, o grupo percorre caminhos dinâmicos. Pichón-Rivière identificou três momentos fundamentais dessa jornada:
1. A Pré-Tarefa (A Resistência à Mudança)
Antes de se comprometerem de fato, os indivíduos costumam vivenciar o medo do novo. Surgem dois sentimentos básicos: o medo da perda (perder a segurança do que já se sabe) e o medo do ataque (sentir-se vulnerável diante do desconhecido).
Na pré-tarefa, o grupo "faz de conta" que está trabalhando. Executam-se rotinas automáticas para passar o tempo, mantendo uma postura defensiva. Na Educação Emocional, reconhecer a pré-tarefa é vital: ela denuncia a necessidade de acolher as inseguranças antes de cobrar resultados.
2. A Tarefa (A Elaboração Emocional e a Mudança)
O grupo "entra em tarefa" quando decide enfrentar suas ansiedades e olhar de frente para o obstáculo. Há um salto de percepção (insight): as pessoas começam a integrar o pensamento com o afeto, escutam o outro com empatia e assumem o papel de sujeitos ativos do próprio aprendizado.
3. O Projeto (A Ação no Mundo)
Com a elaboração das ansiedades, o grupo constrói estratégias e metas claras para operar mudanças reais em sua realidade e no seu entorno.
Os Papéis no Campo Grupal: Como nos Posicionamos nas Relações
A forma como nos comportamos em um grupo resulta do encontro entre a nossa história pessoal (verticalidade) e o momento atual do coletivo (horizontalidade). Desta intersecção, emergem papéis dinâmicos que todos nós podemos assumir em diferentes momentos:
Verticalidade (História Pessoal)
Horizontalidade (Momento do Grupo)
O Porta-Voz: É o integrante que expressa verbalmente ou por atitudes o que o grupo está sentindo, mas ainda não conseguiu verbalizar. Ele denuncia a ansiedade dominante do momento.
O Bode Expiatório: É aquele sobre o qual o grupo projeta suas próprias dificuldades, culpando-o pelos fracassos do coletivo. Trata-se de um mecanismo defensivo de segregação que a Educação Emocional busca conscientizar e dissolver.
O Líder: Aquele que mobiliza as energias para a realização da tarefa. A liderança funcional deve ser rotativa, evitando a dependência excessiva do grupo em relação a uma única pessoa.
O Sabotador: É quem expressa a resistência à mudança do grupo, tentando interromper a evolução da tarefa por medo do novo.Objetivo Emocional: Em um grupo maduro, os papéis não são rígidos ou fixos. A rotatividade de papéis permite que todos os membros desenvolvam flexibilidade interpessoal e autoconhecimento.
A Teoria do Vínculo e a Comunicação
Para Pichón-Rivière, todo vínculo é bi-corporal e tripessoal. Isso significa que, em qualquer interação entre duas pessoas, existe sempre um "terceiro" presente na mente de cada uma — representado por normas, valores, expectativas e experiências passadas.
Quando o aprendizado ou a comunicação falham, surgem ruídos e leituras distorcidas da realidade. O processo de alfabetização e maturação emocional atua justamente na restauração desse circuito, permitindo a transição de atitudes estereotipadas para uma adaptação ativa à realidade.
O Vetor da Mudança: O Cone Invertido
Para avaliar a evolução de um grupo em sua tarefa, utiliza-se a figura do Cone Invertido, que organiza os conteúdos visíveis (manifestos) na superfície e as emoções profundas (latentes) na base.
Os principais vetores avaliados nessa dinâmica são:
Filiação e Pertinência: O grau de pertencimento e vestimenta da "camisa" do grupo.Cooperação: A capacidade de se colocar no lugar do outro e somar forças na mesma direção.
Comunicação: O canal livre de ruídos para expressar pensamentos e sentimentos.
Aprendizagem: A capacidade de romper com velhos padrões e incorporar novas condutas.
Tele: O clima afetivo e a empatia que circulam entre os participantes.
A Coordenação do Grupo: O Papel do Facilitador Emocional
O coordenador de um grupo operativo não assume o lugar de "dono do saber", nem responde a todas as perguntas. Seu papel é atuar como um facilitador do pensamento:
Sinalizar os obstáculos e preconceitos que impedem o avanço da aprendizagem.
Ajudar a nomear as emoções e ansiedades subjacentes à tarefa.
Garantir um espaço seguro para a livre circulação da palavra e a integração do conhecimento.
Aprender em grupo é aceitar o desafio de integrar trabalho e prazer, razão e emoção. Ao compreender a dinâmica dos grupos operativos, fortalecemos nossa capacidade de construir relações mais saudáveis, empáticas e operativas em todas as áreas da vida.
O Entrelaçamento Teórico no Trabalho Grupal
Sigmund Freud (A Base Psicanalítica e a Dinâmica do Desejo): Freud fundou as bases da compreensão dos grupos ao postular que a psicologia individual é, desde o início, também social. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), ele explicou como os indivíduos se ligam afetivamente através da identificação e da projeção do ideal de Eu na figura de um líder ou de uma causa comum.
Kurt Lewin (A Teoria de Campo e o Grupo como Sistema Vivo): Lewin trouxe uma perspectiva topológica e gestáltica ao introduzir a Teoria de Campo. Para ele, o grupo é mais do que a soma de suas partes; é uma totalidade dinâmica onde qualquer alteração em um dos membros afeta todo o sistema. Lewin deslocou o foco do indivíduo isolado para o campo de forças (atrações, repulsões, tensões e papéis) que atuam no "aqui e agora" do grupo.
Wilfred Bion (Os Supostos Básicos e a Vida Fantasmática): Bion aplicou a psicanálise kleiniana às dinâmicas de grupo, dividindo a vida grupal em duas dimensões: o Grupo de Trabalho (voltado para a tarefa consciente e racional) e o Grupo dos Supostos Básicos (movido por ansiedades arcaicas inconscientes). Ele identificou três estados emocionais automáticos nos grupos: Dependência, Luta-Fuga e Aasalhamento (Parelhamento).
S. H. Foulkes (A Matriz Grupal e a Grupanálise): Foulkes introduziu o conceito de Matriz Grupal, compreendendo o grupo como uma rede de comunicação viva e compartilhada. Na visão foulkesiana, a mente individual é permeada pelo coletivo; o sintoma de um membro não pertence apenas a ele, mas expressa a matriz inconsciente de todo o grupo.
Enrique Pichón-Rivière (A Síntese Operativa e a Transformação da Realidade): Pichón-Rivière realizou a grande síntese dessas teorias ao criar a Técnica dos Grupos Operativos. Ele uniu o rigor psicanalítico (Freud e Bion), a dinâmica de campo (Lewin) e a matriz comunicativa (Foulkes) a uma visão social e dialética. Para Pichón, o grupo se organiza em torno de uma tarefa para aprender a pensar, lidar com os medos básicos (perda e ataque) e transformar a adaptação passiva em uma adaptação ativa à realidade.
Como essas teorias se articulam na prática?
Teórico | Foco Principal no Grupo | Contribuição para a Prática Grupal |
Freud | Identificação e Vínculos Afetivos | Compreender a transferência e a ligação com o líder/grupo |
Lewin | Campo de Forças e Dinâmica | Mapear as tensões, o "aqui-agora" e o grupo como sistema |
Bion | Ansiedades Arcaicas e Defesas | Identificar quando o grupo foge da tarefa por medo inconsciente |
Foulkes | Matriz e Rede Comunicativa | Perceber o indivíduo como nó de uma rede social conectada |
Pichón-Rivière | Tarefa, Papéis e Aprendizagem | Mobilizar o grupo para a ação, mudança e resolução de problemas |
O entrelaçamento dessas abordagens revela que o trabalho em grupo exige olhar simultaneamente para a história individual de cada membro, para as forças invisíveis do ambiente e para a capacidade coletiva de enfrentar mudanças e construir novos caminhos.
REFERÊNCIAS
Sigmund Freud
Freud, S. (1921). Psicologia das Massas e Análise do Eu. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago.
Kurt Lewin
Lewin, K. (1948). Resolving Social Conflicts: Selected Papers on Group Dynamics. New York: Harper & Row.
Lewin, K. (1951). Field Theory in Social Science: Selected Theoretical Papers. New York: Harper & Row.
Wilfred Bion
Bion, W. R. (1961). Experiências com Grupos: os elementos da psicoterapia de grupo. São Paulo: Imago/EDUSP.
S. H. Foulkes
Foulkes, S. H. (1964). Therapeutic Group Analysis. London: Allen & Unwin.
Foulkes, S. H., & Anthony, E. J. (1957). Group Psychotherapy: The Psychoanalytic Approach. London: Penguin Books.
Enrique Pichón-Rivière
Pichón-Rivière, E. (1988). O Processo Grupal. São Paulo: Martins Fontes.
Pichón-Rivière, E. (1982). Teoria do Vínculo. São Paulo: Martins Fontes.


Sou estudante de psicologia, gostei do texto, mas como você é psicológa, gostaria que você colocasse um texto explicando a respeito do entrelaçamento da teoria psicanalítica de Freud, da teoria de campo de kurt lewin, do trabalho de bion, da matriz grupal de Foulkes e por último da teoria do grupo operativo de Pichon Riviere, com o trabalho em grupos. Penso que cada um desenvolveu seus conceitos, mas com uma finalidade só.
ResponderExcluirEstá feito!
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