sábado, junho 20, 2009

O QUE É FENOMENOLOGIA

"O QUE É FENOMENOLOGIA?", de André Dartigues, 2003.
INTRODUÇÃO

Fenomelogia é o estudo ou a ciência do fenômeno.
O primeiro texto em que figura esse termo é o Novo órganon (1764) de J. H. Lambert.
Kant retoma o termo em 177o numa carta a Lambert, onde chama de "phaenomenologia generalis".
Kant utiliza-o novamente numa carta a Marcus Herz em 1772, onde esboça o plano da obra que aparecerá em 1781 "Critica da razão pura".
Hegel introduz o termo definitivamente na tradição filosófica com o livro "Fenomenologia do espírito" (1807)

UM POSITIVISMO SUPERIOR

Segundo Dartigues (2003), Husserl tem toda a sua vida filosófica dominada pelo sentimento de uma crise da cultura. O seu esforço filosófico é destinado a resolver simultanea­mente uma crise da filosofia, uma crise das Ciências do homem e uma crise das ciências pura e simplesmente. “É a Ciência que doravante preenche o espaço deixado vazio pela filosofia especu­lativa e, sobre o seu fundamento, o positivismo, para o qual o co­nhecimento objetivo parece estar definitivamente ao abrigo das construções subjetivas da metafísica”.( p. 10).


O autor postula que no domínio das ciências, duas dentre elas são notáveis: as matemáticas, que afastando-se cada vez mais dos dados da intuição, procuram construir siste­mas formais que permitiriam unificar numa só suas diversas disci­plinas, e a psicologia, que de acordo com a tendência positivista, busca “constituir-se como ciência exata conforme o modelo das ciências da natureza, elimi­nando assim os aspectos subjetivos e, portanto, aparentemente não científicos, que o uso da introspecção comporta”.(p.11)

A partir de 1880, a segurança do pensamento posi­tivista começa a ser abalada, “pois cada vez mais os fundamentos e o alcance da ciência tornam-se objeto de interrogação: terão as leis que ela descobre uma validez universal?”

O autor, coloca que Husserl abandona em 1884 decide consagrar-se à solução desses problemas. Então, entra em com contato com Franz Brentano que traz grande contribuição pois consiste numa escola que visa a exploração do campo de consciência e dos modos de relação ao objeto, delimi­tando o que se tornará o campo de análise da fenomenologia de Hus­serl. Todavia essa escola fica na descrição dos fenômenos psíquicos, e não responde às questões fundamentais colocadas por ele: “poderá um conceito lógico ou matemático, como um número, se reduzir à operação mental que o constitui, por exemplo à nume­ração? E se ele não reduz a isto, não será o estudo da operação mental mais que uma simples descrição do psiquismo?” Assim, verifica-se necessário um ultrapassamento da psicologia descritiva de Brentano, que ele realizará sob o nome de fenomenologia.

NOTA:

Positivismo é um conceito utópico que possui distintos significados, englobando tanto perspectivas filosóficas e científicas do século XIX quanto outras do século XX. Desde o seu início, com Augusto Comte (1798-1857) na primeira metade do século XIX, até o presente século XXI, o sentido da palavra mudou radicalmente, incorporando diferentes sentidos, muitos deles opostos ou contraditórios entre si. Nesse sentido, há correntes de outras disciplinas que se consideram "positivistas" sem guardar nenhuma relação com a obra de Comte. Exemplos paradigmáticos disso são o Positivismo Jurídico, do austríaco Hans Kelsen, e o Positivismo Lógico (ou Círculo de Viena), de Rudolph Carnap, Otto Neurath e seus associados.
Para Comte, o Positivismo é uma doutrina filosófica, sociológica e política. Surgiu como desenvolvimento sociológico do Iluminismo, das crises social e moral do fim da Idade Média e do nascimento da sociedade industrial - processos que tiveram como grande marco a Revolução Francesa (1789-1799). Em linhas gerais, ele propõe à existência humana valores completamente humanos, afastando radicalmente a teologia e a metafísica (embora incorporando-as em uma filosofia da história). Assim, o Positivismo associa uma interpretação das ciências e uma classificação do conhecimento a uma ética humana radical, desenvolvida na segunda fase da carreira de Comte.
O método geral do positivismo de Auguste Comte consiste na observação dos fenômenos, opondo-se ao racionalismo e ao idealismo, através da promoção do primado da experiência sensível, única capaz de produzir a partir dos dados concretos (positivos) a verdadeira ciência, sem qualquer atributo teológico ou metafísico, subordinando a imaginação à observação , tomando como base apenas o mundo físico ou material. O Positivismo nega à ciência qualquer possibilidade de investigar a causa dos fenômenos naturais e sociais, considerando este tipo de pesquisa inútil e inacessível, voltando-se para a descoberta e o estudo das leis (relações constantes entre os fenômenos observáveis). Em sua obra Apelo aos conservadores (1855), Comte definiu a palavra "positivo" com sete acepções: real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático.
O Positivismo defende a idéia de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro. Assim sendo, desconsideram-se todas as outras formas do conhecimento humano que não possam ser comprovadas cientificamente. Tudo aquilo que não puder ser provado pela ciência é considerado como pertencente ao domínio teológico-metafísico caracterizado por crendices e vãs superstições. Para os Positivistas o progresso da humanidade depende única e exclusivamente dos avanços científicos, único meio capaz de transformar a sociedade e o planeta Terra no paraíso que as gerações anteriores colocavam no mundo além-tumulo.
O Positivismo é uma reação radical ao Transcendentalismo idealista alemão e ao Romantismo, no qual os afetos das individuais e coletivos e a subjetividade são completamente ignoradas, limitando a experiência humana ao mundo sensível e ao conhecimento aos fatos observáveis. Substitui-se a Teologia e a Metafísica pelo Culto à Ciência, o Mundo Espiritual pelo Mundo Humano, o Espírito pela Matéria. (Extraído de http://pt.wikipedia.org/wiki/Positivismo).

HUSSERL E A NECESSIDADE DE UM RECOMEÇO

É preciso fundar a "filosofia verdadeira"
O sentimento de uma crise
Toda vida filosófica de Husserl é dominada pelo sentimento de uma crise da cultura.
A fenomenologia nasceu de uma crise, e Husserl destina-se em seu espírito a resolver simultaneamente uma crise da filosofia, uma crise das ciências do homem, uma crise das ciências, pura e simplismente.
Dez últimos anos do século XIX - derrocada dos grandes sistemas filosóficos tradicionais (Hegel e Schopenhauer).
A ciência preenche o espaço vazio deixado pela filosofia especulativa.
Duas ciências são notáveis: a Psicologia (constituir-se como ciência exata de acordo com as ciências da natureza, eliminando os aspcetos subjetivos) e a Matemática (construir sistemas formais, afastando-se dos dados da intuição).
Em 1880 a segurança do pensamento positivista começa a ser abalado, pois cada vez mais os fundamentos e o alcance da ciência tornam-se objeto de interrogação.
Em 1884 Husserl entra em contato com Franz Brentano (sua contribuição consiste em de início distinguir fundamentalmente os fenômenos psíquicos. Intencionalidade, a visada de um objeto. Esta escola fica apenas na descrição dos fenômenos psiquícos).
Husserl fará um ultrapassamento a psicologia descritiva de Brentano sob o nome de fenomenologia.

UM DUPLO ESCOLHO: O EMPIRISMO E A FILOSOFIA ESPECULATIVA

Husserl não procura depreciar os resultados que puderam obter as ciências experimentais, mas, estas ciências não determinam exatamente seu objeto e não sabem pois a que se referem os resultados obtidos.
Husserl quer rejeitar o naturalismo dessas ciências que não tendo especificidade de seu objeto e tratando-o como objeto físico, confundem a descoberta das causas exteriores de um fenômeno com a natureza própria deste fenômeno.
O caminho de Husserl: buscar a via média entre dois escolhos. Como pensar segundo a sua natureza e em cada uma de suas nuanças os dados da experiência em sua totalidade?
O fenômeno esta penetrado no pensamento, de logos e que o logos expões e só se expõe no fenômeno.

RECOMEÇO E RETORNO ÀS COISAS MESMAS

Os fenômenos se dão a nós por intermédio dos sentidos, eles se dão sempre como dotados de um sentido ou de uma "essência". Eis por que, para além dos dados dos sentidos, a intuição será uma intuição da essência ou do sentido.

A INTUIÇÃO DAS ESSÊNCIAS

Uma visão das essências não significaria pois devotar-se a uma contemplação mística que permitira a alguns iniciados ver o que o comum dos mortais não vê, mas ressaltar que o sentido de um fenômeno lhe é imanente e pode ser percebido, de alguma maneira por transparência.
A intuição da essência se destingue da percepção do fato: ela é a visão do sentido ideal que atribuímos ao fato materialmente percebido e que nos permite identificá-lo.
A essência não é uma coisa ou qualidade. As essências constituem como que a armadura inteligível do ser, tendo sua estrutura e suas leis próprias. Elas são a racionalidade imanente do ser, o sentido a priori no qual deve entrar todo mundo real ou possível e fora do qual nada pode se produzir.

A ANÁLISE INTENCIONAL

O princípio de intencionalidade é que a consciência é sempre consciência de alguma coisa, e que só é consciência estando dirigida a um objeto (sentido de intentio). O objeto só pode ser definido em sua relação à consciência ele é sempre objeto-para-um-sujeito.
A análise intencional vai nos obrigar assim a conceber a relação entre a consciência e o objeto sob uma forma que poderá parecer estranha ao senso comum (correlação entre sujeito x objeto)
A fenomenologia deve elucidar a essência dessa correlação na qual não somente aparece tal ou qual objeto mas se estende ao mundo inteiro.

A REDUÇÃO FENOMENOLÓGICA E SEU RESÍDUO

Uma mudança de atitude
Mudança da atitude natural (concepção do senso comum) - consiste pensar que o sujeito está no mundo como em algo que o contem ou uma coisa entre as coisas - para a atitude fenomenológica - que através da análise intencional levá-nos a distinguir entre sujeito e objeto ou consciência e mundo, uma correlação original, a dualidade sujeito-objeto e sua tradução interior - exterior (consciência transcedental)
A fenomenologia constitutiva
A tarefa efetiva da fenomenologia será analisar as vivências intencionais da consciência para perceber como aí se produz o sentido dos fenômenos, o sentido desse fenômeno global que se chama mundo.
A fenomenologia se tornara consequentemente o estudo da constituição do mundo na consciência ou fenomenologia constitutiva.
Idealismo ou existencialismo?
Merleau-Ponty: "Voltar às coisas mesmas é voltar a esse mundo antes do conhecimento, do qual o conhecimento fala sempre e com relação ao qual toda determinação científica é abstrata, significativa e dependente, como a geografia com relação à paisagem, onde aprendemos pela primeira vez o que é uma floresta, uma campina, ou um rio".

ANALÍTICS