FREUD - O MAL ESTAR DA CIVILIZAÇÃO


APRESENTAÇÃO
O presente relatório de leitura apresenta o registro dos principais temas abordados por Freud, no texto O Mal-Estar da Civilização(1930[1929]).

INTRODUÇÃO
‘Das Unglück in der Kultur’ (‘A Infelicidade na Civilização’) foi o título original escolhido por Freud para sua obra, e intitulado na presente versão brasileira de ‘O Mal-Estar da Civilização’. Esta obra tem como tema principal - o antagonismo irremediável entre as exigências do instinto e as restrições da civilização – e que parece ter sua origem remontada a alguns dos seus mais antigos trabalhos psicológicos, bem como, a noção apresentada por Freud, de haver uma repressão orgânica que prepara o caminho para a civilização. Uma grande parte desta obra interessa-se pela exploração e clarificação ulteriores da natureza do sentimento de culpa, que por sua vez torna-se o mais importante problema no desenvolvimento da civilização. E como segundo tema, Freud aborda o instinto de destruição. Na seção 4 do segundo ensaio (obra Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade -1905d), ele reconhece a independência dos impulsos agressivos: “pode-se presumir que os impulsos de crueldade surgem de fontes que são, na realidade, independentes da sexualidade, mas podem unir-se a ela num estágio prematuro.” Foi somente após a hipótese por ele formulada de um instinto de morte, que um instinto agressivo verdadeiramente independente apareceu em Beyond the Pleasure Principle (1920g). A interiorização do instinto agressivo é correspondente da exteriorização da libido quando ela se transfere do ego para os objetos, ou seja, toda a libido era dirigida para o interior e toda a agressividade para o exterior, alterando-se gradativamente no decorrer da vida. Portanto, a civilização é construída sobre uma renuncia ao instinto.
UNIDADE I
Freud enuncia que é impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida. Ao formular qualquer juízo deste tipo, corremos o risco de esquecer que o mundo humano e sua vida mental são tão variados, e que devido às discrepâncias existentes entre os pensamentos das pessoas e suas ações, e também a diversidade de seus impulsos plenos de desejo, as coisas não são tão simples. Freud declara a seu amigo Romain Rolland, que para ele a religião é uma ilusão, apesar de Romain declarar que a verdadeira fonte de religiosidade consiste num sentimento peculiar (sensação de ‘eternidade’), um sentimento ilimitado – sem fronteiras – “oceânico”. A partir destas considerações, Freud propõe uma tentativa de descobrir uma explicação psicanalítica para o sentimento oceânico. Para ele, não há nada de que possamos estar mais certos do que do sentimento de nosso eu, do nosso próprio ego. No sentido do exterior, o ego parece manter linhas de demarcação bem nítidas, mas esta fronteira entre ego e objeto, ameaça desaparecer no auge do sentimento de amor. Assim, estas fronteiras não são permanentes. Um indivíduo aprende gradativamente a distinguir o ego do mundo externo, reagindo a diversos estímulos. Desse modo, o ego é contrastado por um objeto, sob a forma de que algo existe exteriormente e que só é forçado a surgir através de uma ação especial. Por meio de uma direção deliberada das próprias atividades sensórias e de uma ação muscular apropriada, se pode diferenciar entre o que é interno (pertencente ao ego) e o que é externo (emanante do mundo externo). Este é o primeiro passo no sentido da introdução do princípio da realidade. Nosso presente sentimento do ego é apenas um mirrado resíduo de um sentimento muito mais inclusivo que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o ego e o mundo que o cerca. O conteúdo ideacional a ele apropriado seria exatamente o de ilimitabilidade e o de um vínculo com o universo – sentimento oceânico. No domínio da mente o elemento primitivo se mostra tão comumente preservado. Nada do que uma vez se formou pode perecer – o de que tudo é, de alguma maneira preservado, e que, em circunstâncias apropriadas, pode ser trazido à luz. Freud faz uma analogia utilizando a história da cidade de Roma Quadrata e a atividade característica da vida psíquica, para argumentar que as fases anteriores do desenvolvimento na vida mental, não desaparecem e continuam a existir, mas comparando o passado de uma cidade com o passado da mente, a priori é inapropriado. Só na mente é possível a preservação de todas as etapas anteriores, ou seja, o passado é preservado na vida mental. Freud afirma que o sentimento oceânico existe em muitas pessoas e sua origem pode ser remontada a uma fase primitiva do sentimento do ego. As necessidades religiosas são derivadas, a partir do desamparo do bebê e do anseio pelo pai, ou seja, da proteção de um pai. O papel do sentimento oceânico que seria o de buscar a restauração do narcisismo ilimitado é deslocado de um lugar em primeiro plano. O conteúdo ideacional deste sentimento é a unidade com o universo e soa como primeira tentativa de consolação religiosa, uma outra maneira de rejeitar o perigo que o ego reconhece a ameaçá-lo a partir do mundo externo (o mundo externo ameaça o ego).
UNIDADE II
Para Freud, o fato de que o individuo através do sistema de doutrinas religiosas, espere ser compensado de qualquer frustração experimentada, é patentemente infantil e estranho à realidade, e mais humilhante ainda é descobrir como é vasto o número de pessoas que não podem deixar de perceber que essa religião é insustentável. E ainda continua referindo-se a vida, como árdua demais para nós e de muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. Portanto, a fim de suportá-la, recorremos a medidas paliativas, como: derivativos poderosos que nos fazem extrair luz de nossa desgraça (atividade científica, por exemplo); satisfações substitutiva, que a diminuem (arte, por exemplo); e substâncias tóxicas (que alteram a química nosso corpo) que nos tornam insensíveis a ela. Os homens esforçam-se para obter felicidade, serem felizes e assim permanecer, mas isto implica em dois aspectos: uma meta positiva e negativa. Por um lado, a ausência de sofrimento e de desprazer, e por outro, à experiência de intensos sentimentos de prazer. O que decide o propósito da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer. Este princípio domina o funcionamento do aparelho psíquico desde o início, e todas as normas do universo são-lhe contrárias. O que chamamos de felicidade provém da satisfação (de preferência, imediata) de necessidades represadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica. Nossas possibilidades de felicidade sempre são restringidas por nossa própria constituição. O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadora e impiedosa; e de nossos relacionamentos com os outros homens. E este último, talvez nos seja o mais penoso. Diante da pressão de todas essas possibilidades de sofrimento, os homens se acostumaram a moderar suas reivindicações de felicidade, pensando serem felizes pelo simples fato de terem escapado à infelicidade ou sobrevivido ao sofrimento, e que, em geral, a tarefa de evitar o sofrimento coloque a de obter prazer em segundo plano. Contra o sofrimento que pode advir dos relacionamentos humanos, a defesa imediata é o isolamento voluntário, o manter-se à distância de outras pessoas. A felicidade adquirida através deste método é a da quietude. Há outro caminho melhor, outro método: o de tornar-se membro da comunidade humana e com o auxílio de uma técnica orientada pela ciência, passar para o ataque à natureza e sujeitá-la à vontade humana. Todo sofrimento nada mais é do que sensação. Só o sentimos como conseqüência de certos modos pelos quais nosso organismo está regulado. O mais grosseiro desses métodos de influência é o químico: a intoxicação. É fato que existem substâncias estranhas as quais, quando presentes no sangue ou nos tecidos, provocam em nós diretamente, sensações prazerosas, alterando nossas condições de sensibilidade, tornando-nos incapazes de receber impulsos desagradáveis. A satisfação do instinto equivale para nós à felicidade, também um grave sofrimento surge em nós, caso o mundo externo nos deixe definhar, caso se recuse a satisfazer nossas necessidades. Outra técnica para afastar o sofrimento reside no emprego dos deslocamentos de libido que nosso aparelho mental possibilita e através dos quais sua função ganha tanta flexibilidade, ou seja, reorientar os objetivos instintivos de maneira que eludam a frustração do mundo externo, e para isto, conta-se com a assistência da sublimação dos instintos (a alegria do artista em criar, ou a do cientista em solucionar problemas ou descobrir verdades). E mesmo assim, o método não proporciona uma proteção completa contra o sofrimento, e falha, quando a fonte do sofrimento é o próprio corpo da pessoa. Á frente das satisfações obtidas através da fantasia ergue-se a fruição das obras de arte, fruição que, por intermédio do artista, é tornada acessível inclusive àqueles que não são criadores. A suave narcose a que a arte nos induz, não faz mais do que ocasionar um afastamento passageiro das pressões das necessidades vitais, não sendo suficientemente forte para nos levar a esquecer a aflição real. Outra modalidade de vida é a que faz do amor o centro de tudo, que busca toda satisfação em amar e ser amado. Uma das formas através da qual o amor se manifesta – o amor sexual – nos proporcionou nossa mais intensa experiência de uma transbordante sensação de prazer fornecendo-nos assim um modelo para nossa busca de felicidade. O lado fraco desta técnica de viver é que nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão desamparadamente infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado ou o seu amor. A felicidade na vida é predominantemente buscada na fruição da beleza, onde quer que esta se apresente a nossos sentidos e a nosso julgamento - a beleza das formas e a dos gestos humanos, a dos objetos naturais e das paisagens e a das criações artísticas e mesmo científicas. O amor da beleza parece um exemplo perfeito de um impulso inibido em sua finalidade. Beleza e atração são, originalmente atributos do objeto sexual. A felicidade constitui um problema da economia da libido do indivíduo. O homem predominantemente erótico dará preferência aos seus relacionamentos emocionais com outras pessoas; o narcisista que tende a ser auto-suficiente buscará suas satisfações principais em seus processos mentais internos; o homem de ação nunca abandonará o mundo externo, onde pode testar sua força. Uma pessoa nascida com uma constituição instintiva especialmente desfavorável e que não tenha experimentado corretamente a transformação e redisposição de seus componentes libidinais indispensáveis às realizações posteriores, achará difícil obter felicidade em sua situação externa, em especial se vier a se defrontar com tarefas de certa dificuldade. A está pessoa, é lhe oferecida a fuga para a enfermidade neurótica, fuga efetuada quando ainda é jovem. Outro indivíduo, que vê sua busca de felicidade resultar em nada, pode ainda encontrar consolo no prazer oriundo da intoxicação crônica, ou então se empenhar na desesperada tentativa de rebelião que se observa na psicose. Para Freud, a religião restringe esse jogo de escolha e adaptação, desde que impõe de igual modo a todos o seu caminho para aquisição da felicidade e da proteção contra o sofrimento. E isto, consiste em depreciar o valor da vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante – maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência, forçando as pessoas a um estado de infantilismo psicológico e a um delírio de massa. A religião consegue poupá-las de uma neurose individual.
UNIDADE III
As três fontes de onde provêm nossos sofrimentos são: o poder superior da natureza, a fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade. O que chamamos de nossa civilização é em grande parte responsável por nossa desgraça e seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas. No entanto, todas as coisas que buscamos a fim de nos protegermos contra as ameaças oriundas das fontes de sofrimento, fazem parte dessa mesma civilização. Freud argumenta que o fundamento da estranha hostilidade para com a civilização, assumida por tantas pessoas, consistiu numa longa e duradoura insatisfação com o estado da civilização então existente, ocasionada por certos acontecimentos históricos específicos, como por exemplo, a vitória do cristianismo sobre as religiões pagas (intimamente relacionado a baixa estima dada à vida terrena pela doutrina cristã); e o fato de que as pessoas tomaram conhecimento do mecanismo das neuroses, que ameaçam solapar a pequena parcela de felicidade desfrutada pelos homens civilizados (uma pessoa se torna neurótica porque não pode tolerar a frustração que a sociedade lhe impõe, a serviço de seus ideais culturais). Ainda outro fator, é que a humanidade efetuou um progresso extraordinário nas ciências naturais e em sua aplicação técnica, estabelecendo seu controle sobre a natureza, contudo, o poder recentemente adquirido sobre o espaço e tempo, a subjugação das forças da natureza, não aumentou a quantidade de satisfação prazerosa que poderiam esperar da vida e não os tornou mais felizes. O poder sobre a natureza não constitui a única precondição da felicidade humana, assim como não é o único objetivo do esforço cultural. Sempre tendemos a considerar objetivamente a aflição das pessoas, mas esse método de examinar as coisas que parece objetivo por ignorar as variações na sensibilidade subjetiva, é o mais subjetivo possível, de uma vez que coloca nossos próprios estados mentais no lugar de quaisquer outros. A felicidade é algo essencialmente subjetivo. Freud afirma que a palavra civilização descreve a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais, e que servem a dois intuitos, a saber: o de proteger os homens contra a natureza e do de ajustar os seus relacionamentos mútuos. Ele argumenta que apesar de todas as atividades culturais e recursos úteis aos homens, considerados proveitosos para protegerem os homens contra a violência das forças da natureza, para ampliar seus limites de funcionamento, constituindo-se em materializações do poder que estes possuem, e mesmo através da ciência e tecnologia, estas coisas soam como conto de fadas, e constituem-se também numa realização efetiva de todos os desejos de contos de fadas, e ainda que os homens aumentem sua semelhança como Deus, estes não se sentem felizes neste papel. Freud afirma que esperamos que a civilização valorize a beleza, além disso, esperamos ver sinais de asseio e de ordem. A sujeira de qualquer espécie nos parece incompatível com a civilização. A beleza, a limpeza e a ordem ocupam posição especial entre as exigências da civilização. O que parece caracterizar melhor a civilização é a sua estima e seu incentivo, em relação às mais elevadas atividades mentais do homem – suas realizações intelectuais, científicas e artísticas – e o papel fundamental que atribui às idéias na vida humana. Entre essas idéias, os sistemas religiosos, as especulações da filosofia e os ideais do homem. O elemento de civilização entra em cena com a primeira tentativa de regular os relacionamentos sociais. A vida humana em comum só se torna possível quando se reúne uma maioria mais forte do que qualquer individuo isolado e que permanece unida contra todos os indivíduos isolados. A substituição do poder do individuo pelo poder de uma comunidade constituí o passo decisivo da civilização. A primeira exigência da civilização, portanto, é a da justiça, ou seja, a garantia de que uma lei, uma vez criada, não seja violada em favor de um indivíduo. A liberdade do individuo não constitui um dom da civilização. O desenvolvimento da civilização impõe restrições a ela, e a justiça exige que ninguém fuja a essas restrições. O impulso de liberdade, portanto, é dirigido contra s formas e exigências específicas da civilização ou contra a civilização em geral. O homem sempre defenderá sua reivindicação à liberdade individual contra a vontade do grupo. A sublimação do instinto constitui um aspecto particularmente evidente do desenvolvimento cultural, é ela que torna possível as atividades psíquicas superiores, científicas, artísticas ou ideológicas, o desempenho de um papel tão importante na vida civilizada. É impossível desprezar o ponto até o qual a civilização é construída sobre uma renúncia ao instinto, o quanto ela pressupõe exatamente a não-satisfação de instintos poderosos.
UNIDADE IV
Para Freud, a formação de famílias deveu-se a o fato de ter ocorrido um momento em que a necessidade de satisfação genital tornou-se permanente. O macho adquiriu um motivo para conservar a fêmea junto de si (seus objetos sexuais) e a fêmea não querendo separar-se de seus filhos indefesos, viu-se obrigada a permanecer com o macho mais forte. A vida comunitária dos seres humanos teve um duplo fundamento: a compulsão para o trabalho e o poder do amor. A descoberta feita pelo homem de que o amor sexual (genital) lhe proporcionava o protótipo de toda a felicidade, fez com que este buscasse a satisfação da felicidade em sua vida através das relações sexuais e que tornasse o erotismo o ponto central dessa mesma vida. Desta forma, ele tornou-se dependente de seu objeto amoroso escolhido, expondo-se a um sofrimento extremo, caso fosse rejeitado por esse objeto ou o perdesse através da infidelidade ou da morte. Uma pequena minoria de pessoas acha-se capacitada, por sua constituição, a encontrar a felicidade no caminho do amor. Essas pessoas se tornam independentes da aquiescência de seu objeto, deslocando o que mais valorizam do ser amado para o amar; protegem-se contra a perda do objeto, voltando seu amor, para todos os homens, evitando as incertezas e as decepções do amor genital, desviando-se de seus objetivos sexuais e transformando o instinto num impulso com uma finalidade inibida. Uma das técnicas para realizar o princípio do prazer foi vinculado à religião, essa vinculação pode residir nas remotas regiões em que a distinção entre o ego e os objetos, ou entre os próprios objetos, é desprezado. Essa disposição para o amor universal pela humanidade e pelo mundo representa o ponto mais alto que o homem pode alcançar, mas há duas objeções: um amor que não discrimina parece privado de uma parte de seu próprio valor, por fazer injustiça a seu objeto, e nem todos os homens são dignos de amor. O amor que fundou a família continua a operar na civilização, em sua forma original (satisfação sexual direta) e em sua forma modificada (afeição inibida em sua finalidade), reunindo considerável número de pessoas, mais do que através do interesse do trabalho em comum. Freud faz uma distinção entre o amor genital (sentimentos entre um homem e uma mulher, que conduz a formação de famílias) e o amor inibido em sua finalidade ou afeição (sentimentos positivos existentes entre pais e filhos, que definem as amizades, estas que são importantes culturalmente, por fugirem a algumas limitações do amor genital). Ambos estendem-se exteriormente à família e criam novos vínculos com pessoas anteriormente estranhas. A relação do amor com a civilização perde sua falta de ambigüidade, pois o amor se coloca em oposição aos interesses da civilização, e esta ameaça o amor com restrições substanciais. Essa incompatibilidade se expressa a principio como um conflito entre a família e a comunidade maior a que o individuo pertence. Quanto mais estreitamente os membros de uma família estejam ligados, mais freqüentemente tendem a se afastar dos outros e mais difícil é o ingresso destes no círculo mais amplo da cidade. Separar-se da família torna-se uma tarefa com que todo o jovem se defronta e a sociedade o auxilia nesta solução através dos ritos de puberdade e de iniciação. As mulheres representam os interesses da família e da vida sexual. O trabalho de civilização tornou-se cada vez mais um assunto masculino, confrontado os homens com tarefas difíceis e compelindo-os a executarem sublimações instintivas. A civilização traz consigo, a proibição de uma escolha incestuosa de objeto (talvez a mutilação mais drástica que a vida erótica do homem já experimentou), e a estrutura econômica da sociedade influencia a quantidade de liberdade sexual remanescente. Assim, a civilização esta obedecendo às leis da necessidade econômica, já que uma grande quantidade da energia psíquica que ela utiliza para seus próprios fins tem de ser retirada da sexualidade. Portanto, uma comunidade cultural acha-se, do ponto de vista psicológico, perfeitamente justificada em proscrever as manifestações da vida sexual das crianças, uma vez que os fundamentos para isso já estão lançados na infância. Quanto ao individuo, sexualmente maduro, a escolha de um objeto restringe-se ao sexo oposto, estando proibidas as satisfações extragenitais. A exigência de que haja um tipo único de vida sexual para todos, não leva em consideração as dessemelhanças, inatas ou adquiridas, na constituição sexual do seres humanos. O próprio amor heterossexual que permaneceu isento de proscrição, é restringido sob a forma da insistência na legitimidade e na monogamia (só é permitido relacionamento sexuais na base de um vínculo único e indissolúvel entre um só homem e uma só mulher). Para Freud, apenas os fracos se submeteram a uma usurpação tão ampla de sua liberdade sexual, e as naturezas mais fortes só o fizeram através de uma condição compensatória. A vida sexual do homem civilizado encontra-se severamente prejudicada, talvez esteja em um processo de involução enquanto função.
UNIDADE V
A civilização exige outros sacrifícios, além do da satisfação sexual. A civilização visa unir entre si os membros da comunidade de maneira libidinal, empregando todos os meios; favorece todos os caminhos pelos quais identificações fortes possam ser estabelecidas entre os membros da comunidade e convoca a libido inibida em sua finalidade, para fortalecer o vinculo comunal através das relações de amizade. Para isso, faz-se uma inevitável restrição à vida sexual. Para entender o antagonismo à sexualidade, Freud faz um exame considerando a exigência ideal da sociedade civilizada: “Amarás a teu próximo com a ti mesmo”. Ele diz que se essa pessoa for um estranho para mim e não conseguir atrair-me por um de seus próprios valores, ou por qualquer significação que já possa ter adquirido para minha vida emocional, me será muito difícil amá-la. Portanto, esse estranho possui mais direito a minha hostilidade, e até mesmo meu ódio, do que meu o amor. Assim, Freud continua “É precisamente porque teu próximo não é digno de amor, mas pelo contrario, é teu inimigo, que deves amá-lo como a ti mesmo”, além disso, os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas, e que no máximo, podem defender-se quando atacadas; mas, são criaturas com poderosa quota de agressividade. Por isso, o seu próximo é, não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. A existência da inclinação para agressão constitui o fator que perturba nossos relacionamentos com o nosso próximo e força a civilização a tão elevado dispêndio de energia. Para estabelecer limites aos instintos agressivos do homem e manter suas manifestações sobre controle, a civilização utiliza-se de esforços supremos, como o emprego de métodos destinados a incitar as pessoas a identificações e relacionamentos amorosos inibidos em sua finalidade; a restrição à vida sexual e o mandamento ideal de amar ao próximo como a si mesmo. O fato dos comunistas acreditarem que todo homem é bom e bem disposto para com seu próximo, mas é a instituição da propriedade privada que corrompeu a natureza de seu próximo, é visto por Freud como uma ilusão, já que a agressividade não foi criada pela propriedade, e que uma vez eliminados os direitos pessoais sobre a riqueza material, ainda permanecem, no campo dos relacionamentos sexuais, prerrogativas fadadas a se tornarem a fonte de mais intensa antipatia e da mais violenta hostilidade entre homens, que sob outros aspectos encontra-se em pé de igualdade. Não é fácil aos homens abandonar a satisfação dessa inclinação para agressão, além disso, é sempre possível unir um considerável número de pessoas no amor, enquanto sobrarem outras pessoas para receberem as manifestações de sua agressividade. Assim, podemos compreender melhor porque é tão difícil ser feliz nessa civilização, que impõe sacrifícios tão grandes, não apenas à sexualidade do homem, mas também à sua agressividade.
UNIDADE VI
De todas as partes lentamente desenvolvidas da teoria analítica, a teoria dos instintos foi a que mais penosa e cautelosamente progrediu. Segundo Freud, os instintos visam preservar o individuo e se esforçam na busca de objetos, e sua principal função é a preservação da espécie. Os instintos do ego e os instintos objetais se confrontam mutuamente. Um desses instintos objetais, o instinto sádico, destacou-se do restante, pelo fato de o seu objeto estar muito longe de ser o amar. A descoberta de que o ego se acha catexizado pela libido, de que o ego constitui o reduto original dela, consistiu na introdução do conceito de narcisismo. Essa libido narcisista se volta para os objetos, tornando-se libido objetal, e podendo transformar-se novamente em libido narcisista. O conceito de narcisismo possibilitou a obtenção de uma compreensão analítica das neuroses traumáticas, de várias das afecções fronteiriças às psicoses. Freud concluiu que ao lado do instinto para preservar a substancia viva e para reuni-la em unidades cada vez maiores, deveria haver outro instinto, contrário àquele para dissolver essas unidades e conduzi-las de volta a seu estado primevo e inorgânico (instinto de morte). A afirmação de um instinto de morte ou de destruição deparou-se com resistências, inclusive em círculos analíticos. O instinto de destruição, moderado e domado, e, por assim dizer, inibido em sua finalidade, deve, quando dirigido para objetos, proporcionar ao ego a satisfação de suas necessidades vitais e o controle sobre a natureza. A inclinação para a agressão constitui, no homem, uma disposição instintiva original e auto-subsistente, e é o maior impedimento à civilização. A civilização constitui um processo a serviço de Eros, cujo propósito é combinar indivíduos humanos isolados, depois famílias e, depois ainda, raças, povos e nações numa única grande unidade, a humanidade. O instinto agressivo é o derivado e o principal representante do instinto de morte, que descobrimos lado a lado de Eros e que com este divide o domínio do mundo.
UNIDADE VII
A agressividade é introjetada, internalizada e enviada de volta para o lugar de onde proveio, isto é, dirigida no sentido de seu próprio ego. Uma parte do ego a assume, e aí se coloca contra o resto do ego, como superego, e então, sob a forma de ‘consciencia’, está pronta para por em ação contra o ego a mesma agressividade rude que o ego teria gostado de satisfazer sobre outros indivíduos, a ele estranhos. A tensão entre o severo superego e o ego, que a ele se acha sujeito, é por nós chamada de sentimento de culpa, expressa-se como necessidade de punição. Uma pessoa sente-se culpada quando fez algo que sabe ser ‘mau’, mas não apenas isso, mesmo quando a pessoa não fez realmente uma coisa má, mas apenas identificou em si uma intenção de fazê-la, ela pode encarar-se como culpada. O que é mau não é de modo algum o que é prejudicial ou perigoso ao ego, mas, pode ser algo desejável pelo ego e prazeroso para ele. Assim, mau é tudo aquilo que, com perda do amor, nos faz sentir ameaçados. O sentimento de culpa é claramente, apenas um medo da perda de amor, uma ansiedade ‘social’. Existem duas origens do sentimento de culpa: uma surge do medo de uma autoridade, e outra, posterior, que surge do medo do superego. A primeira insiste numa renuncia às satisfações instintivas; a segunda, ao mesmo tempo em que faz isso exige punição, de uma vez que a continuação dos desejos proibidos ao pode ser escondida do superego. Renúncia ao instinto constituía o resultado do medo de uma autoridade externa (renúncia da própria satisfação para não perder o amor da autoridade). Quanto ao medo do superego, a renúncia instintiva não bata, pois o desejo persiste e não pode ser escondido do superego, assim ocorre um sentimento de culpa. Uma ameaça de infelicidade externa foi permutada por uma permanente infelicidade interna, pela tensão do sentimento de culpa. Toda a renúncia ao instinto torna-se agora uma fonte dinâmica de consciência, e cada nova renúncia aumenta a severidade e a intolerância desta última.

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