sábado, junho 20, 2009

MÉMORIA E SOCIEDADE - PARTE 2

Pesquisando jornais de alguns anos atrás, surpreendi-me com as manchetes que lia. Eventos importantes em sua época eu havia relegado para um segundo plano, onde jaziam na sombra. Desfilaram ante meus olhos pacifistas, resistentes, guerrilheiros, mártires... Leio a manchete de oito anos atrás: A POLÍCIA EVACUOU O RECINTO DO TRIBUNAL PARA QUE AS ÚLTIMAS PALAVRAS DO RÉU NÃO FOSSEM OUVIDAS Eu as havia esquecido! Abro um jornal de agosto de 1973: AS MÃOS DE VICTOR JARA FORAM CORTADAS NO ESTÁDIO CHILENO, ENQUANTO SEUS CARRASCOS O DESAFIAVAM A TOCAR E CANTAR Ele cantou: Canto que mal me sales cuando tengo que cantar espanto! Espanto como el que vivo como el que muero espanto de verme entre tantos y tantos momentos del infinito en que el silencio y el grito... Esquecerei esta notícia daqui a pouco anos? Bem nos adverte Garcia Lorca contra esse tempo atualhado de objetos sem sentido e despovoado de memória: Ay, poeta infantil, quiebra tu reloj! Morre a arte da narrativa quando morre a retenção da legenda. Perdeu-se também a faculdade de escutar, dispersou-se o grupo de escutadores. Quanto mais se esquecia de si o ouvinte, tanto mais entrava nele a história, e a arte de narrar transmitia-se quase naturalmente. Esta rede tecida em milênios se desfia de um lado e de outro. A narração é uma forma artesanal de comunicação. Ela não visa a transmitir o "em si" do acontecido, ela o tece até atingir uma forma boa. Investe sobre o objeto e o transforma. Tendência comum dos narradores é começar com a exposição das circunstâncias em que assistiu ao episódio: "Certa vez, ia andando por um caminho quando...". Isso quando o conta como não diretamente vivido por ele. Valéry lembra os tempos em que o tempo não contava, em que o artesão ia entalhando, esculpindo como se imitasse a paciente obra da natureza, obtendo tonalidades novas com uma série de camadas sutis e transparentes. O homem moderno não cultiva o que ele pode simplificar e abreviar. Roubada à tradição oral, a short story também se imprimiu e abreviou, não permite mais que se conte e reconte, formando sobre ela a superposição de camadas sutis e transparentes com que os contadores retocam a história matriz. Valéry reflete que quando diminui no espírito a idéia da eternidade cresce a aversão pelos trabalhos longos e pacientes. Quando os velhos se assentam à margem do tempo já sem pressa - seu horizonte é a morte - floresce a narrativa. A civilização burguesa expulsou de si a morte; não se visitam moribundos, a pessoa que vai morrer é apartada, os defuntos já não são contemplados. O leito de morte se transformava em um trono de onde o morimbundo ditava seus últimos desejos ante os familiares e vizinhos que entravam pelas portas escancaradas para assistir ao ato solene. Era natural dormir numa cama onde dormiram os avós, onde morreram rodeados pelos seus. Era natural visitar o defunto, acompanhá-lo ao ouvir os sinos plangerem. E guardar o crucifixo onde imprimiu o último beijo. A morte vem sendo progressivamente expulsa da percepção dos vivos. Os agonizantes, diz Benjamin, são jogados pelos herdeiros em sanatórios e hospitais. Os burgueses desinfetam as paredes da eternidade. No entanto, todo o vivido, toda a sabedoria do agonizante pode perpassar por seus lábios. Ele pode examinar sua vida inteira, filtrar o seu significado mais profundo e querer transmiti-lo em palavras entrecortadas cujo sentido todos se esforçam para advinhar e interpretar. A mão se ergue para a última benção sobre os vivos e, à medida que o olhar se apaga, mais cresce a autoridade do que é transmitido. Autoridade que o mendigo possui ao morrer no chão da rua e que é a essência da narrativa. Todas as histórias contadas pelo narrador inscrevem-se dentro da sua história, a de seu nascimento, vida e morte. E a morte sela suas histórias com o selo do perdurável. As histórias dos lábios que já não podem recontá-las tornam-se exemplares. E, como reza a fábula, se não estão ainda mortos, é porque vivem ainda hoje.

(Excertos do livro Ecléa Bosi, MEMÓRIA E SOCIEDADE:lembranças de velhos. páginas 87-89. Companhia das Letras)

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