1. INTRODUÇÃO: O QUE É FENOMENOLOGIA E SUA ORIGEM HISTÓRICA
A fenomenologia é o estudo ou a ciência do fenômeno — isto é, daquilo que se manifesta diretamente à nossa percepção e consciência. Para compreender o que é fenomenologia no pensamento contemporâneo, é fundamental resgatar a evolução do termo na história da filosofia:
J. H. Lambert (1764): O termo figura pela primeira vez em seu texto Novo Órganon.
Immanuel Kant (1770 / 1772): Kant retoma a expressão como "phaenomenologia generalis" em carta a Lambert e posteriormente a Marcus Herz, esboçando as bases que culminariam na célebre Crítica da Razão Pura (1781).
G. W. F. Hegel (1807): Introduz e consolida definitivamente o conceito na tradição filosófica ocidental com a obra Fenomenologia do Espírito.
2. UM POSITIVISMO SUPERIOR: HUSSERL E A CRISE DA CULTURA
Segundo André Dartigues (2003), a trajetória filosófica de Edmund Husserl foi dominada pelo sentimento de uma crise da cultura ocidental. Seu esforço central consistiu em resolver simultaneamente uma tríplice crise: a da filosofia, a das ciências do homem e a das ciências puras.
No final do século XIX, com a derrocada dos grandes sistemas metafísicos, a ciência e o positivismo passaram a preencher o espaço vago. Definia-se que o conhecimento objetivo deveria estar imunizado contra as construções subjetivas. Nesse cenário, duas disciplinas se destacavam:
A Matemática: Buscando afastar-se da intuição para construir sistemas formais unificados.
A Psicologia: Tentando constituir-se como ciência exata nos moldes das ciências da natureza, eliminando os aspectos subjetivos e o uso da introspecção.
A partir de 1880, a segurança do pensamento positivista começa a ser abalada por questionamentos sobre a validade universal de suas leis. Em 1884, Husserl decide consagrar-se à solução desses problemas e entra em contato com Franz Brentano.
Brentano traz a importante contribuição da exploração do campo da consciência e da intencionalidade (a visada de um objeto). Contudo, por permanecer apenas na descrição dos fenômenos psíquicos sem responder à origem dos conceitos lógicos, Husserl realiza o ultrapassamento da psicologia descritiva de Brentano, fundando oficialmente a fenomenologia.
Nota sobre o Positivismo: O positivismo (de Auguste Comte às correntes do século XX) defende o conhecimento científico experimental como única verdade, descartando a metafísica, a subjetividade e os afetos humanos.
Conexão com a Educação Emocional:
A crítica de Husserl ao positivismo é um pilar vital para a educação emocional. Ao tentar reduzir o ser humano apenas a dados mensuráveis ou comportamentos observáveis, a visão estritamente positivista ignora a riqueza do mundo interno. A fenomenologia resgata a legitimidade das vivências emocionais, mostrando que sentimentos como angústia, empatia e alegria não são mero "ruído subjetivo", mas formas reais e estruturadas de vivenciar e dar sentido à realidade.
3. SUPERANDO O EMPIRISMO E A FILOSOFIA ESPECULATIVA
Husserl não buscava depreciar os resultados das ciências experimentais, mas criticava a falta de clareza sobre seus próprios objetos e a tendência de tratar fenômenos humanos como meros objetos físicos (naturalismo).
O caminho de Husserl é a busca por uma via média: reconhecer que o fenômeno está penetrado de pensamento (logos) e que a razão só se expõe no próprio fenômeno.
4. RETORNO ÀS COISAS MESMAS E A INTUIÇÃO DAS ESSÊNCIAS
O célebre imperativo fenomenológico "retornar às coisas mesmas" significa olhar para os fenômenos antes de qualquer teorização abstrata. Os fenômenos se dão a nós pelos sentidos, mas vêm sempre dotados de um sentido ou "essência".
A intuição da essência não é uma contemplação mística, mas a visão do sentido ideal que atribuímos aos fatos percebidos.Na Educação Emocional: Significa compreender a essência de uma emoção. Por exemplo: reconhecer o que a raiva ou o medo sinalizam estruturalmente sobre nossas necessidades e limites, em vez de apenas tentar reprimir o sintoma físico.
5. A ANÁLISE INTENCIONAL E A CONSCIÊNCIA EMOCIONAL
O princípio da intencionalidade estabelece que toda consciência é consciência de alguma coisa. A consciência não é uma caixa fechada, mas uma relação constante com o mundo (objeto-para-um-sujeito).
Sob a ótica da educação emocional, a intencionalidade demonstra que nossas emoções não surgem no vácuo: elas são respostas intencionais voltadas para eventos, memórias e relações. Compreender essa correlação nos permite reorganizar nossa inteligência emocional e a forma como nos posicionamos diante dos acontecimentos.
6. A REDUÇÃO FENOMENOLÓGICA E O MUNDO VIVIDO
A fenomenologia propõe uma mudança da atitude natural (ver o sujeito como apenas mais uma coisa passiva no mundo) para a atitude fenomenológica (reconhecer a criação de sentido do mundo na consciência).
Como resumiu Maurice Merleau-Ponty:
"Voltar às coisas mesmas é voltar a esse mundo antes do conhecimento, do qual o conhecimento fala sempre e com relação ao qual toda determinação científica é abstrata..."
Trata-se de revalorizar o mundo vivido (Lebenswelt), a experiência humana primordial onde aprendemos a sentir, acolher e educar nossas emoções.
Referência Bibliográfica
DARTIGUES, André. O que é a fenomenologia? Tradução de Maria José J. G. de Almeida. 9. ed. São Paulo: Editora Loyola, 2003.
POSITIVISMO. In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2024. Disponível em:
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Olá! Será que vc poderia esclarecer o que é o positivismo superior?
ResponderExcluirEstou com dificuldade para definir com clareza em relação a Kant.
Se puder me enviar por e-mail, pr.jmachado@hotmail.com
1. Entendendo o Conceito de "Positivismo Superior"
ResponderExcluirO termo "positivismo superior" (às vezes associado ao positivismo crítico ou neokantismo) não é uma categoria que Kant tenha criado diretamente para definir sua própria filosofia, mas sim um conceito teórico e historiográfico utilizado posteriormente para distinguir a abordagem kantiana do positivismo comtiano (ou positivismo clássico/ingênuo).
- Positivismo Clássico (Auguste Comte): Defende que a ciência e os fatos empíricos observáveis são a única fonte de conhecimento verdadeiro, rejeitando a metafísica e a investigação sobre as condições prévias da razão.
- Positivismo Superior (Perspectiva Kantiana/Neokantiana): Aceita a importância da experiência e do conhecimento empírico, contudo, argumenta que o dado empírico ("o fato positivo") não existe no vácuo. Ele só é possível porque a mente humana possui estruturas a priori (espaço, tempo e as categorias do entendimento) que organizam e dão sentido a essa experiência.
2. A Relação com Immanuel Kant
Para Kant, o conhecimento seguro começa com a experiência (dimensão "positiva"), mas não se reduz a ela:
1. A Revolução Copernicana de Kant: Kant estabelece que não somos meros receptores passivos dos fatos do mundo. O sujeito cognoscente é ativo e molda a realidade fenomênica a partir de suas faculdades mentais.
2. Separação entre Fenômeno e Coisa-em-si (Nômeno): Nós só podemos conhecer o fenômeno (as coisas como nos aparecem, organizadas pela razão e pela sensibilidade). O nômeno (a coisa em si) permanece inacessível. Nesse sentido, Kant é "positivo" porque restringe o conhecimento científico ao mundo fenomênico observável e verificável.
3. Superação do Positivismo Dogmático: Kant critica tanto o empirismo radical quanto o racionalismo dogmático. O "positivismo superior" atribuído ao espírito kantiano baseia-se na Crítica: antes de afirmar o que conhecemos de forma "positiva" (empírica), precisamos examinar criticamente as capacidades e os limites da própria razão.
Em resumo, enquanto o positivismo ingênuo toma os dados empíricos como verdades brutas e definitivas, o "positivismo superior" em chave kantiana fundamenta a validade dos fatos positivos na própria estrutura da razão humana que os torna possíveis.