A ARTE DE ESCREVER


A ARTE DE ESCREVER
Mirian Lopes

Escrever é uma arte que exige coragem e ousadia, pois conduz-nos para um caminho novo e desconhecido. É um exercício que requer entrega, pois quem escreve dedica-se a fazer aquilo que não sabe. Digo que não sabe, pois ao se colocar diante da página em branco, depara-se com labirintos de dificuldades, o de iniciar suas primeiras linhas a partir de percepções ou do que lhe coloca em suspensão. 
Reconhecer-se como escritor é compreender e aceitar esta condição como um acontecimento, que ocorre através do conhecimento de si mesmo. Este nos conduz para um mergulho nos lugares mais profundos da alma e nos faz aceitar o ato de escrever como necessário. Faz-nos mais próximos da natureza para ver o que vivemos, o que amamos e o que perdemos. Um olhar que alcança as imagens, as lembranças, os lugares talvez invisíveis aos olhares menos atentos. Faz-nos compreender o sentido da solidão como condição por onde brotam as reflexões, as palavras. Escrever leva-nos para além dos limites da criação, e nos coloca em contato com o Universo. Contudo há de se considerar que escrever também é assumir e compreender o sofrimento que os outros não compreendem e talvez não tenham coragem para assumir. É uma missão compreender a condição humana, e carregar as dificuldades intocadas por muitos, o absurdo, o não possível, as angústias perdidas pelos corredores não existentes. O escritor é aquele ser que se comporta normalmente, pois gosta de muitas coisas, sobretudo de apreciar a vida, de tecer diálogos, de observar curiosamente o que pode alcançar de fato ou em seu imaginário. Por vezes, está sozinho. Quando respirando um transe criativo, parece não suportar ninguém ou ninguém o suporta, até que se chegue a uma resolução. O escritor não esconde suas fraquezas e não resiste em reconhecer seus defeitos e limitações, inclusive, se queixa de cansaço como qualquer outra pessoa. O escritor fica contente com o que escreve, ou pode considerar inútil, as linhas que rabisca no papel. Parece uma criança teimosa experimentando um brinquedo novo, procurando sempre uma maneira para alcançar o que deseja, o que a sua imaginação lhe indica. O escritor se apaixona e se dissolve no seu encontro com as palavras, procurando esculpir outras formas e sentidos para além destas na arte de escrever. Finalmente, a arte de escrever exige de quem escreve que este esteja despido de seus preconceitos e de seus temores, sobretudo de se colocar como uma carta escrita para os olhos daqueles que o poderão ler e tecer as mais distintas significações, das mais nobres até as menos importantes. Por tudo isso, escrever é mágico, pois transforma quem se submete ao exercício deste fazer, tanto para quem se aventura a partir da entrega do escritor, a dar continuidade ao enredo, ao contexto construído. Uma dádiva!

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