Para entendermos
um povo, é preciso entender a sua cultura, e isso acontece também com as
organizações. O estudo da cultura organizacional nos permite entender o
conjunto de valores, normas e crenças que regem o comportamento das pessoas.
Por intermédio da cultura de uma organização, os colaboradores entendem quais
são os comportamentos ou as atitudes consideradas aceitas e quais são
inaceitáveis.
Algumas
definições de cultura
Em 1887, para
Edward Tylor, cultura seria: (...) todo o complexo que inclui conhecimento, as
crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e
aptidões adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade.
Traços comuns
entre os autores quanto à definição para cultura:
• é algo
construído e compartilhado pela maioria dos indivíduos componentes de um
determinado grupo social;
Edgar Schein (apud
FREITAS, 1991) define como:
FREITAS (1991)
coloca que a ideia de ver organizações como culturas, nas quais há um sistema
de significado partilhado entre os membros é um fenômeno relativamente recente,
e esse é um tema pesquisado no exterior a partir da década de 50 e, no Brasil,
mais especificamente, na década de 80.
Funções da
cultura
Segundo ROBBINS
(1999), a cultura desempenha várias funções na organização; dentre elas:
Não podemos dizer
que uma cultura é melhor do que a outra, certa ou errada. ROBBINS (1999) diz
que a cultura assume um papel importante à medida que intensifica o compromisso
organizacional e aumenta a coerência do comportamento do empregado, reduzindo a
ambiguidade. No entanto, a cultura organizacional pode servir como barreira
para se efetuarem mudanças, principalmente no que se refere a fusões e
aquisições.
Criação e
identificação da cultura organizacional
Os estudos de
cultura organizacional tem se valido de uma figura que ajuda a representar
esses dois aspectos: a do iceberg organizacional.
Desenvolvimento da
cultura
Para SCHEIN (2001), a cultura é aprendida basicamente por meio de
dois mecanismos interativos: o da redução da dor e ansiedade e o do reforço
positivo.
Redução da dor e ansiedade (modelo de
trauma social):
Segundo KILMANN, as culturas se mantêm principalmente por três
causas:
Alguns elementos da cultura
A cultura organizacional é concebida a partir de seus elementos
constitutivos. FREITAS (1991) ressalta que a descrição dos elementos que
constituem a cultura organizacional, a forma como eles funcionam e, ainda, as
mudanças comportamentais que eles provocam são maneiras de dar à cultura um
tratamento mais concreto ou de mais fácil identificação. Os elementos mais
encontrados, segundo a literatura consultada, são:
Valores:
Pressupostos:
Normas:
Ritos, rituais
e cerimônias:
Ritos
organizacionais mais comuns:
Estórias e
mitos:
Heróis:
Comunicação:
Papel da área de gestão de pessoas
Segundo DUBRIN
(2003), a cultura organizacional pode causar um impacto penetrante na eficácia
da organização. Ele aponta seis principais consequências e implicações da
cultura:
REFERÊNCIAS
Texto escrito pelo Prof. José Benedito Regina Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Administração Geral UNIP
Em 1936, Ralph
Linton propôs que a cultura de qualquer sociedade consistiria: (...) na soma
total de ideias, reações emocionais condicionadas a padrões de comportamento
habitual que seus membros adquirem por meio da instrução ou imitação e de que
todos, em maior ou menor grau, participam.
Clifford Geertz,
em 1973, propõe que cultura deve ser considerada como “(...) um conjunto de
mecanismos de controle – planos, receitas, regras, instituições, para governar
o comportamento”.
Laplantine,
antropólogo francês, afirma que a cultura: (...) é o conjunto dos
comportamentos, saberes e saber fazer característicos de um grupo humano ou de
uma sociedade, sendo estas atividades adquiridas através de um processo de aprendizagem,
e transmitidas ao conjunto de seus membros.
• é normalmente um
conjunto de conhecimentos e hábitos aprendidos por meio da educação e que serve
para imprimir certa padronização à conduta dos indivíduos vivendo no âmbito de
uma determinada sociedade e época, transmitindo-se e garantindo-se por meio da
aprendizagem, da repetição e da imitação;
• é como se fosse
a “alma” de um grupo social ou de uma organização, de onde derivam aspectos
observáveis, como sua estratégia, sua estrutura, seus processos e sistemas;
• formam as
“lentes” pelas quais vemos o mundo a nossa volta, moldando, em grande medida, o
nosso comportamento no mundo em que vivemos.
Cultura
organizacional
“o
conjunto de pressupostos básicos que um dado grupo inventou, descobriu ou
desenvolveu ao aprender a lidar com problemas de adaptação externa e integração
interna e que funcionaram bem o suficiente para serem considerados válidos e
que, portanto, podem ser levados a novos membros como forma correta de
perceber, pensar e sentir em relação a estes problemas.”
Schein busca
respostas para questões como:
O que a cultura pode fazer?
A que funções ela serve?
Como ela se
origina, desenvolve e muda?
As organizações
até meados dos anos 1980 eram tidas como um meio racional pelo qual se
coordenava e controlava um grupo de pessoas. Tinham níveis verticais,
departamentos, relacionamentos de autoridade etc.
Organizações
são mais do que isso:
• têm
personalidade como os indivíduos;
• podem ser
rígidas ou flexíveis, hostis ou amigáveis, inovadoras ou conservadoras;
•
cada uma das organizações tem um sentimento e caráter únicos, além de suas
características estruturais.
É a cultura que
forma o significado das coisas, que orienta e mobiliza, é aquela energia social
que move a empresa para o sucesso ou até sua destruição.
Segundo Schein
(apud FREITAS, 1991):
• não seria
possível entender, administrar ou melhorar uma organização se não se obtivesse
uma compreensão de sua essência cultural (entender a “alma” da organização);
• a cultura
organizacional tem fortes influências no conjunto de respostas que a
organização oferece ao ambiente externo e interno, afetando enormemente sua
estratégia, sua definição estrutural, seus processos e sistemas, bem como sua
produtividade e seu desenvolvimento tecnológico;
• a cultura
organizacional ajuda e orienta os membros a adequarem-se internamente para
melhor lidar com as questões externas.
Segundo
ROBBINS (2004), a prática de diferenciar cultura forte ou fraca tornou-se cada
vez mais popular. A força da cultura pode ser definida em termos de
homogeneidade, estabilidade e intensidade das experiências compartilhadas pelos
membros da organização.
O conceito de
“forte” está ligado ao fato de que os valores essenciais da organização são intensamente
acatados e compartilhados. Uma cultura “forte” demonstra elevado nível de
concordância dos membros sobre os pontos de vista da organização.
• papel de
definição de fronteiras, o que permite a distinção de uma e outra organização;
• sentido de
identidade para os membros da organização;
• facilita o
comprometimento com algo maior que os interesses individuais;
• intensifica a
estabilidade do sistema social, fornecendo padrões apropriados de comportamento
aos funcionários.
Segundo ROBBINS
(1999), a cultura organizacional começa quando os costumes, as tradições e a
maneira de fazer as coisas deram certo, ou seja, no que a organização obteve
sucesso com o que foi feito. O papel dos fundadores é fundamental, pois eles
têm uma visão geral daquilo que a organização deve ser. Eles iniciam a
organização a partir de suas crenças e de seus valores.
Para se
identificar a cultura de uma organização Deal e Kennedy (apud SCHEIN, 2001) sugerem
dois tipos de análise:
1. Dos aspectos
que podem ser vistos de fora:
• estudar o
ambiente físico: o orgulho que as organizações têm de si próprias;
• ler o que a
organização fala de sua própria cultura: os relatórios, entrevistas e
reportagens fornecem bons indícios de como a organização se vê;
• testar como a
organização recebe os estranhos: formal ou informalmente, relaxada ou ocupada
etc.;
• entrevistar as
pessoas sobre história da organização, como foi seu começo, que tipos de
pessoas trabalham na organização, crescimento, que tipo de lugar é aquele para
se trabalhar;
•
observar como as pessoas usam seu tempo e comparar o que dizem com o que fazem.
2. Dos aspectos
relacionados a questões internas:
• entender o
sistema de progressão de carreiras, o que faz um empregado ser promovido;
• como o sistema
de recompensas avalia qualificações, performances, tempo de serviço, lealdade;
• quanto tempo as
pessoas ficam em determinado cargo;
• atentar para o
conteúdo dos discursos e memorandos;
• particular
atenção deve ser dada às anedotas e histórias que circulam.
Essa analogia
mostra que as duas partes do iceberg (a emersa e visível e, a submersa e
invisível) podem ser associadas à cultura da organização.
A parte visível,
que fica acima do nível da água pode ser associada aos aspectos formais,
racionais e abetos da organização.
A parte invisível,
que fica submersa pode ser associada aos aspectos informais e ocultos da
organização. Este é o “território” do comportamento organizacional.
• ansiedade é derivada:
- da incerteza que um indivíduo tem ao encontrar um grupo novo;
- incerteza sobre sua capacidade de sobreviver e ser produtivo;
- incerteza se os membros trabalharão bem uns com os outros;
• as crises conduzem o grupo a perceber, compartilhar e
desenvolver formas de lidar com ela;
• os membros do grupo aprendem a superar o desconforto imediato e
a evitar desconfortos futuros;
• quando outras crises surgirem, a tendência será reduzir ou
eliminar a ansiedade gerada da maneira como eles aprenderam anteriormente.
Reforço positivo:
• as pessoas repetem o que funciona e abandonam o que não
funciona.
Manutenção da cultura
• a energia controladora do comportamento existente em todos os
níveis organizacionais, a força que faz cada membro acreditar que o que ele
está fazendo é o melhor para a organização, para a comunidade e suas famílias;
• as regras não escritas que estão incorporadas na organização,
uma vez que exista consenso de elas representarem o comportamento apropriado;
• o papel dos grupos na observação dessas normas, na sua
reprodução e no trato dispensado aos desviantes.
• são as noções compartilhadas que as pessoas têm do que é
importante e acessível para o grupo a que pertencem;
• formam o coração da cultura, definem o sucesso em termos
concretos para os empregados e estabelecem os padrões a serem alcançados;
• explicitam para a organização o que é considerado importante ou
irrelevante, prioritário ou desprezível; • representam a essência da filosofia
da organização para atingir o sucesso, pois eles fornecem um senso de direção
comum para todos os empregados e um guia para o comportamento
diário.
Crenças:
• é a compreensão
que se dá como certa e que serve de base para o entendimento das coisas;
• aquilo que é
tido como verdade na organização.
• são conjecturas
antecipadas ou respostas prévias sobre o que é, o que se faz, o que acontece;
• é uma solução
pronta, disponível e até certo ponto inquestionável pelo grupo.
• as normas dizem
sobre como as pessoas devem se comportar e se baseiam ou refletem as crenças e
os valores organizacionais.
• conjunto
planejado de atividades relativamente elaborado, combinando várias formas de
pressão cultural, as quais têm consequências práticas e expressivas;
• ao desempenhar
um rito, as pessoas se expressam através de diversos símbolos: certos gestos, linguagem
e comportamentos.
• ritos de
passagem: o processo de introdução ou retreinamento de pessoal;
• ritos de
degradação: usados para dissolver identidades sociais e retirar seu poder, como
nos casos de demissão, afastamento de um alto executivo, “encostar alguém”,
denunciar falhas/incompetências publicamente;
• ritos de
reforço: celebração pública de resultados positivos;
• ritos de
renovação: visa renovar as estruturas sociais e aperfeiçoar seu funcionamento,
como programas de desenvolvimento organizacional, assistência aos empregados;
• ritos de redução
de conflitos: usados para restaurar o equilíbrio em relações sociais
perturbadas, reduzindo os níveis de conflitos e agressão, como nos processos de
negociação coletiva;
• ritos de
integração: recarregar e reviver sentimentos comuns e manter as pessoas
comprometidas com o sistema social; comumente usados nas festas de Natal,
jogos, rodadas de cerveja.
• histórias:
narrativas baseadas em eventos ocorridos que informam sobre a organização,
reforçam o comportamento existente e enfatizam como esse comportamento se
ajusta ao ambiente organizacional;
• mitos:
referem-se a histórias consistentes com os valores da organização, porém não
sustentadas pelos fatos.
• os heróis
personificam os valores e condensam a força da organização.
Função dos heróis:
• tornam o sucesso atingível e humano; outros membros podem seguir seu
exemplo;
• estabelecem padrões de desempenho;
• motivam os
empregados, fornecendo uma influência duradoura.
• as
organizações são vistas como fenômeno de comunicação, sem o qual inexistiriam.
O processo inerente às organizações cria uma cultura, revelando suas atividades
comunicativas.
Tipos de agentes
de comunicação numa organização em que os papéis informais entram em ação:
• contadores de
histórias: interpretam o que ocorre na organização, ajustando os fatos à sua
percepção;
• padres:
guardiões dos valores culturais;
• confidentes:
detentores do poder por trás do trono;
• fofoqueiros:
falam com nomes, datas etc.;
• espiões: leais à
chefia, mantêm seus chefes informados;
• conspiradores:
duas ou mais pessoas se reúnem para tramar algo.
De acordo com
FREITAS (1991), a área de gestão de pessoas nas organizações é “a guardiã da
cultura” e tem o papel fundamental de disseminar, promover, manter e
implementar mudanças culturais definindo, nos processos de seleção, perfis
compatíveis com os valores organizacionais, elaborando sistemas que contemplem
a competência e a lealdade, promovendo eventos que destaquem o comportamento
esperado, veiculando histórias que reforcem os valores da organização,
estabelecendo meios de comunicação que permitam a interpretação adequada das
mensagens institucionais, monitorando os programas de socialização, recuperando
os transgressores, dentre outros.
• Vantagem
competitiva e sucesso financeiro: pesquisas apontam que as empresas nas
quais os empregados percebiam a existência de uma ligação entre os esforços
individuais e as metas da organização demonstraram maior retorno de
investimentos.
• Produtividade,
qualidade e moral: uma cultura que enfatiza a produtividade e a qualidade
encoraja os trabalhadores a serem produtivos.
• Inovação:
da mesma forma, uma organização que encoraja a criatividade e a tomada de
decisão estará contribuindo para a inovação.
• Compatibilidade
de fusões e aquisições: um indicador de sucesso em fusões e aquisições é a
compatibilidade de suas respectivas culturas.
• Ajuste
pessoa/organização: um ponto fundamental para o sucesso tanto do indivíduo
quanto da organização é o ajuste dos valores individuais e da organização.
• Direção
da atividade de liderança: a cultura organizacional diz o modo como
liderar.
Mudança cultural
Na vida, temos duas certezas: a primeira é a de que todos nós
vamos morrer um dia, e a segunda é a de que tudo muda a todo instante.
As organizações sofrem influências dos ambientes interno e externo
continuamente e precisam identificar mecanismos para o gerenciamento das
mudanças que ocorrem no dia a dia.
Segundo GRIFFIN E MOORHEAD (2006), quando os gestores tentam
modificar a cultura organizacional, estão, na verdade, procurando alterar as
noções básicas das pessoas sobre o que é ou não um comportamento adequado na
empresa.
Conforme visto no iceberg organizacional, a mudança
cultural na organização envolve as duas partes da mesma: a mais visível ou
racional e a invisível, a afetiva.
Na verdade, qualquer mudança que se pretenda fazer na cultura da
organização vai exigir um grande esforço sobre a parte invisível do iceberg,
onde se encontram os valores, crenças, relações afetivas, etc..
Nenhuma mudança se efetivará se essa parte informal e oculta da
cultura não for trabalhada adequadamente (recordando: este é o “território”
do comportamento organizacional).
Esses mesmos autores dizem que, para se efetuar mudanças
culturais, os gestores devem criar situações que permitam a introdução de novas
histórias. Eles dão como exemplo uma empresa em que a opinião do funcionário
não tinha importância e a partir de agora passa a ter; nesse caso, os gestores
podem, por exemplo, solicitar a um funcionário para liderar uma discussão numa
reunião, acompanhar e orientar esse processo, de forma que seja um sucesso.
Isso se transformará em uma nova história que poderá substituir a antiga.
Mas os autores alertam que esse é um processo longo e difícil,
pois, não importa quanto se dediquem à implementação de um valor novo, podem,
inadvertidamente, voltar aos padrões antigos de comportamento. Tal fato irá
gerar uma nova história com retorno aos antigos valores.
Para que a nova cultura se torne estável, faz-se necessário um
período de transição, no qual são realizados esforços para adoção de novos
valores e, em longo prazo, esses novos valores serão tão estáveis e influentes
quanto os antigos.
De acordo com MARRAS (2009, P.314-315) as principais técnicas para
trabalhar mudanças organizacionais são:
Empowerment:
ampliar ao máximo o sistema decisório, provendo autonomia às equipes.
trabalho em equipe: buscando envolvimento e compromisso das pessoas, pelo
compartilhamento conjunto de responsabilidades.
qualidade total: fazer da alta qualidade uma norma. Busca da excelência.
estruturas organizacionais: criar novos modelos de organização mais enxutos,
flexíveis e participativos.
aprendizagem organizacional: busca de reeducação e atualização
constantes, com o uso intensivo do benchmarking.
É
fundamental entendermos a cultura organizacional nos processos de mudança, pois
sem mudança cultural não haverá mudança organizacional adequada. A mesma
cultura que leva uma organização ao sucesso pode gerar resistências e
dificultar para essa organização os seus necessários processos de mudança.
FREITAS, M. E. Cultura
organizacional: identidade, sedução e carisma. Rio de Janeiro, FGV, 1991.
GRIFFIN, R. W.;
MOORHEAD, G. Fundamentos do comportamento organizacional. São Paulo,
Ática, 2006.
ROBBINS, S. P. Comportamento
organizacional. 8. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1999.
ROBBINS, S. P. Fundamentos
do comportamento organizacional. 7. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2004.
SCHEIN, E. H. Por
que a cultura corporativa importa? In Guia de sobrevivência da cultura
corporativa. Rio de Janeiro, José Olympio, 2001.
Texto escrito pelo Prof. José Benedito Regina Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Administração Geral UNIP
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