segunda-feira, dezembro 22, 2014

FAUNO E FLORA

A literatura é uma arte que nos faz mergulhar no desconhecido para nos fazer conhecer...quanto mais escrevo...mais amo esta arte...compartilho com meus amigos estas linhas...nascentes...


FAUNO E FLORA
Mirian Lopes


I – Flora e o som: um monólogo.


Estava lá, a ouvir um som que se propagava no ar. Era musical, quase angelical. Ecoava de uma flauta doce a sibilar suas notas no tempo e no espaço, e que se misturava ao farfalhar das folhas, ao cantar das águas de um riacho cristalino, ao sussurrar de vozes femininas. Era um som que nascia da natureza. Deste som revelou-se a visão pronunciada por uma voz suave, serena, a falar de amor e de significados presentes desde a antiguidade. Seus ouvidos estavam ávidos por compreender as nuances melódicas que assim contavam o fato. 


II – Fauno e Flora: um encontro.


Ele estava sereno, belo como a luz da lua, claro como um cristal, e permitiu que ela, a ninfa das Ilhas Afortunadas, se aproximasse, o que logo fez. Em um único olhar viu o que nunca antes foi possível aos olhos naturais. Paisagens de dentro para fora começaram a compor notas melódicas: uma mistura de cenas reais e oníricas, significados míticos desenhados na alma daquele ser especial. Aquela presença, cada vez mais bela, transmitia uma paz intocável, a pureza e a bondade uníssonas. Ele começou a contar ao som de sua flauta, o que sabia sobre seu caminho. Não era o que queria, mas era o que se definia ao caminhar. 


III – Flora e Fauno: o diálogo


Ela a compor, traduzia: o caminhar se constrói. Encontrarás acolhimento, pois sou feliz em abraçar, em serenar contigo. Teu tempo é mágico, a luz e a paz estão contigo. Brilhe. Você é especial. Ele a tocar a música, expressava: se tu falas, eu sou. Sinto-me especial por tê-la sempre. Sou um sonho, tenho essa impressão. Ela sussurrou: um sonho é realidade que 
posso alcançar. Sagrado e poético é o que há em ti, tão nobre que meus olhos cintilam em lágrimas de emoção. Quando te ouço, acesso uma via que só meu coração é capaz de compreender. São muitas imagens ancestrais quase intangíveis. Tu me falas de um entendimento anterior a este tempo, e me transportas para lugares já conhecidos. 


IV – Flora: a visão 


Fauno, o vejo entre a natureza virgem, a tocar magicamente teu som entre as ninfas, livre guerreiro! Você é da natureza e te entendes bem com ela, a se misturar na floresta, ao som das águas, a se deliciar entre as flores e frutos, animalesco e doce, a amá-las. Vejo-te por inteiro, entregue e forte. Ouço você dizer: “compreende quem sou sobre a luz de seus olhos.” Generoso és com quem alcança teu coração. Você cria, nasce em cada tempo, e em cada ciclo estás rodeado de amores. Em cada ato de tua entrega, o sublime se converte em criação, pois teu amor é divino. Porém, devo adverti-lo que cuidado é preciso, para com tua entrega, pois quem não alcança teu sentido poderá exauri-lo. Você concedeu-me permissão para ver uma parte de ti. Teu caminho é de doação que se expressa em amor. Você mergulha e vai aos poucos se equilibrando entre os que estão ao seu redor, pois querem tocar tua aura. Teces um labirinto envolvendo os seres com tua musica e tua dança: gozo, força e transformação. Herdaste maravilhosamente um legado. É assim que muitos te admiram, te desejam, mas, poucos poderão estar contigo, ver-te como és, e compreender-te como aprecias. Teu andar se faz solitário, e ao estar consigo é que tens as respostas. 


V – Fauno: a compreensão 


Flora, que me compreendes por inteiro. Há algo em ti tão maternal. Sinto-me acolhido em teus seios. Somos assim, sagrados. Tu és mãe, musa, esfinge, arte, mulher e fôlego. Eu sou o que teus olhos podem ver; o que seu coração pode alcançar. Poderoso, bela que me apraz e sacia-me, acolhe-me já sem força e me faz revigorar em ti. Sabes exatamente o que busco e me devolves a calma, aquela minha calma. És brilhante, meu diamante, minha fonte, que me colocas em meu lugar.


VI – Fauno e Flora: o desfecho


- Fauno, folego poético e visceral. Teus pés, lindos, teu umbigo uma taça, tuas coxas como colunas de marfim, teus cabelos que aprisionam. Trago mandrágoras, figos e flores frescas, pois em seu lugar, que também é meu, há encantamentos. - Flora, perfeita és tu. Ouço você dizer: “ninfas não perturbem o nosso amor, pois os olhos do meu amado ardem como chamas de fogo. Debaixo das macieiras despertei seu amor. Venha depressa como cervo selvagem”. Flora que me cativas, sabes quem sou, caminharei ao teu encontro, a transbordar de alegria, pois me colocas em meu lugar. Assim sou. 


Créditos da imagem: LOUISE D'AUSSY-PINTAUD - "CHANSON D'AMOUR" OIL ON CANVAS, SIGNED


FRANCE, EXHIBITED 1944 - 38 X 51.5 INCHES

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