O SEGREDO DO INDIVÍDUO

1. O INDIVIDUO E SUA MARCA

1.1. A Originalidade da denominação, ou “um nome para si”

Durante o século XIX, ocorrerá a acentuada difusão do sentimento de identidade individual. O processo de dispersão dos prenomes, iniciado no século XVIII, será acelerado pela Revolução, revelando a vontade de individualização, a preocupação em sublinhar o corte das gerações e o desejo de adaptação a essa nova norma sugerida pelas classes dominantes, e que propaga-se verticalmente, da aristocracia para o povo, da cidade para o campo, sendo favorecida em sua transmissão, pela precisão e complicação crescentes da hierarquia social.

As regras de transmissão familiar dos nomes perdem sua autoridade, enfraquecendo-se, traduzindo o definhar das virtudes hereditárias. A descrença na existência de um patrimônio de caráter transmitido pela denominação favorece o individualismo.

Subsistindo a família de estrutura complexa e a pobreza da gama de prenomes, agrava o risco de confusão, deixando o sistema denominativo, arcaico. O esquecimento do prenome, na linguagem corrente, dá lugar ao apelido, que vincula-se a grupos marginais: o mundo dos artistas e o da boemia, os circuitos da prostituição e do crime, referindo-se a valores e comportamentos arcaicos.

O desejo de individualizar e o risco de homônimo, incrementado pela urbanização, estimula a originalidade e revela o processo de diversificação em curso. Os processos de alfabetização e da escolarização estabelecem um novo vínculo entre o indivíduo, seu prenome e sobrenome. Esta nova familiaridade é registrada pelo crescimento efetivo de cônjuges capazes de assinarem suas certidões de casamento.

Em Fontaineblau, os humildes, conscientes de que, distintamente dos poderosos, não deixariam marcas, habituam-se a gravar nas rochas e árvores, suas iniciais.

Durante a segunda metade do século, com a circulação do correio - e especialmente por volta de 1900 com a expedição de 8 milhões de cartões-postais - contribuiu para a acumulação de símbolos do eu e sinais de possessão individual, até os próprios animais domésticos ganham aos poucos seus nomes.

1.2. O Espelho e a identidade corporal

A contemplação da auto-imagem deixa de ser um privilégio. O uso do espelho aponta para importância do olhar para si. Nas aldeias do século XIX, somente o barbeiro possuía um verdadeiro espelho, para o uso masculino. Os mascates difundem os pequenos espelhos para que as mulheres contemplem seus rostos, mas as aldeias ignoram os espelhos que possibilitam a visualização do corpo inteiro. Entre os camponeses, a identidade corporal continua a ser lida nos olhos dos outros e através de uma escuta interior. O código de boas maneiras, das classes mais providas, proibirá por muito tempo que uma moça admire sua nudez, mesmo através dos reflexos de sua banheira. Para evitar tal vergonha, são colocados pós para turvar a água do banho.

O estimulo erótico da imagem do corpo, provocado pela proibição em visualizá-la, está presente nesta sociedade que enche os bordéis de espelhos antes de pendurá-los, na porta do armário nupcial.

No final do século, a difusão do espelho permite a organização de uma nova identidade cultural, um novo conceito de beleza. O espelho de corpo inteiro permitirá o surgimento da estética do esbelto e guiara o nutricionismo por novos rumos.

1.3. A Democratização do Retrato

A difusão social do retrato revela a demonstração da própria existência, o registro de sua própria lembrança, além de atestar o sucesso e manifestar a posição. Para o burguês trata-se de criar uma linhagem, de inaugurar seu prestigio por meio de seu êxito pessoal. O século da comemoração é também o da fundação das genealogias comerciais, orgulhosamente ostentadas e a moda do retrato satisfaz o desejo de igualdade.

O retrato tem o papel inovador da técnica que reproduz o desejo da imagem de si, convertida ao mesmo tempo em mercadoria e instrumento de poder. Ele se difunde e torna-se íntimo no final do Antigo Regime, é então que triunfa a miniatura, os pingentes, os medalhões, as coberturas de caixinhas de pó facial ostentam rostos amados.

Entre 1786 e 1830, o physionotrace de Gilles-Louis Chrétien contribui, pelo menos na capital, para alimentar a moda do retrato. Em apenas um minuto ele reproduz com o aparelho os contornos da sombra desenhada pelo rosto do modelo, ele pode fazer retratos sobre madeira ou marfim. Os perfis obtidos não tem vida nem expressão.

Em 1839, Daguere registra a patente do procedimento que lhe permite fixar em uma placa de metal, após um quarto de hora de exposição um retrato único, vendido por cinqüenta a cem francos. O artista constrói a imagem em função do rosto e da fisionomia. A fotografia que permitira a democratização do retrato.

Em 1851, a descoberta do registro instantâneo reduz o tempo da pose. Em 1854, Disdéri, lança o retrato em forma de cartão de visita. Em 1862, ele vende sozinho 2400 cartões por dia. Ascender à representação e posse de sua própria imagem é algo que instiga o sentimento de auto-estima, que democratiza o desejo do atestado social.

Milhões de retratos fotográficos impõem normas gestuais que renovam a cena privada, ensinando a olhar com novos olhos para o corpo. O desejo de idealizar as aparências, o repúdio ao feio, convergem para o retrato-foto, técnica difundida após 1860 que suavizava os traços do rosto, manchas, rugas, verrugas inconvenientes por uma artística delicadeza. O álbum de fotografias da família delimita a configuração de parentela e conforta a coesão do grupo.

O retrato modifica a visão das idades da vida e o sentimento do tempo. Ele renova a nostalgia, representando antepassados desaparecidos e parentes desconhecidos, canalizando os fluxos sentimentais, modificando as condições psicológicas de ausência, atenuando a angústia da perda e contribuindo para desarmar o remorso causado pelo o desaparecimento das pessoas. Por fim, este novo processo favorece a vulgarização e a contemplação da imagem da nudez, que difunde um novo tempo do desejo.

1.3. A Perenidade da recordação

Dentro do cemitério manifesta-se o desejo de imprimir sua marca. No início do século XIX, evidencia a tumba individual e a emergência do novo culto aos mortos. O inédito apelo à permanência da lembrança, revela o epitáfio personalizado, procedimento inteiramente novo para a grande maioria da população. Os epitáfios enaltecem os méritos do esposo, do pai ou do cidadão, inscrevendo-se sobre si o avanço da privacy. A industrialização dos túmulos tende a apagar aos poucos todo o discurso original substituído por estereótipos que os medalhões-fotografias incrustados nas pedras irão individualizar.

O primeiro texto fúnebre surge em 1847. Nas pequenas paróquias rurais, a pedra tumular, o epitáfio por muito tempo, continuará esbarrando no sentimento de igualdade.

A época tende a reforçar o sentimento do eu: a tentação de forjar heróis, o ascenso da meritocracia: a importância atribuída ao quadro de honra, ao ritual das distribuições de prêmios, o diploma que se pendura na parede do salão comum. Para muitos humildes, será a emoção de ler seu nome em uma nova coluna de jornal. Até o próprio gesto criminoso traduz a aspiração de herói.

1.4. Os limites do panóptico

O reajustamento do individuo impõe-se com maior razão às autoridades, que, no interior do espaço público, passam paulatinamente do anonimato para relações de interconhecimento. A multidão dissolve-se em um agregado de pessoas com pensamento absorvido por seus interesses privados, tornando preciso a identificação e o controle social.

O Estado civil, secularizado desde 1792, codificado a 28 Pluvioso do ano III, os recenseamentos da população e as listas nominais estabelecidas a cada cinco anos, as listas eleitorais, censitárias até 1848, estendidas ao conjunto da população masculina em março de 1848, e a seguir em setembro de 1851, constituem as referências do sistema. Certas categorias são ademais objeto de procedimentos especiais: os operários, teoricamente sujeitos à carteira desde o Consulado, carteira que eles próprios passarão a portar desde a lei de 22 de junho de 1854; os militares; os domésticos; as mulheres da vida registradas pela Chefatura da Polícia; as crianças abandonadas às quais se deseje atribuir um estado civil ou tutela; os viajantes e especialmente os itinerantes e nômades, que devem providenciar passaportes antes de efetuar suas andanças.

O reconhecimento interpessoal e a memória visual continuarão por muito tempo a ordenar as listas de migrantes e de autoridades. Estas exigências administrativas contribuíram para desenvolver a posse, o uso e a codificação dos “papéis”. A construção do tempo pessoal autoriza a elaboração de uma história individual, condição para a identificação e para a comunicação autônoma. O procedimento mais usual para escarafunchar melhor a personalidade de outro é a investigação de moralidade ou o recurso ao certificado de boa conduta, que era fornecido muitas vezes pelo prefeito e o padre. Está prática institucionaliza e incita o recurso ao boato e o desvendamento da vida privada. Confessores e padres travestidos em conselheiros matrimoniais e parentes da província se convertem em agentes de informação, advogados notórios encarregados de interrogar seus confrades, quadros da administração indagados quanto às qualificações de seus subordinados, domésticos incumbidos de registrar boatos.

A trama da vida privada é impregnada de informações, recomendações e pressões, vale dizer, chantagem.

1.5. O olho do policial

As instituições policiais desempenharam o papel de laboratórios, na busca de singularidades individuais. A identificação da criança perdida era difícil e é a difícil identificação das prostitutas que condena ao fracasso o sistema regulamentado elaborado sob o Consulado.

Até o início da Terceira República, a administração continua a utilizar o método da "descrição”. O olhar do policial detalha a cor dos cabelos e dos olhos, avalia o talhe e se necessário observa deformidades. Isto evidência a ineficiência de semelhante método, baseado em descrições neutras e imprecisas. Para desmascarar o disfarce a policia conta apenas com a perspicácia do olhar de seus agentes.

1.6. Medidas ósseas em busca da marca

No final do século, novas técnicas permitem que se atribua a cada individuo uma identidade invariável e passível de demonstração. Este sistema elimina a falsificação do estado civil. Em 1876 a policia emprega a fotografia, no final da década, a Chefatura já possui 60 mil fotos. Em 1882, com o emprego da identificação antropométrica estabelecida por Alphonse Bertillon, com cinco ou seis medidas ósseas efetuadas com rigor e conforme procedimento fixo são o bastante para marcar um individuo.

Desde o inicio do século XX triunfa a identificação pelas marcas corporais e mais precisamente pelas impressões digitais, apropriadas por Galton que saberá convencer Alphonse Bertillon a integrar o novo dado ao boletim antropométrico.

A lei de 16 de julho de 1912, impõe aos nômades e itinerantes, inclusive industriais e comerciantes do exterior a posse de uma carteira de identidade antropométrica onde consta nome, sobrenome, data e local de nascimento, filiação descrição, impressões digitais e a foto do individuo.

Em 1860 opera-se uma transformação no momento do triunfo da República. O movimento de individualização que anima o século culmina ao passo que o neokantismo inspira dirigentes e estabelece que o controle do individuo é essencial à sobrevivência do grupo.

2. AS AMEAÇAS DO CORPO

2.1. A alma e o corpo

A dicotomia entre a alma e corpo varia conforme a extração social, o nível cultural e o grau de fervor religioso. Muitos etnólogos, entre os quais Françoise Loux, evidenciaram a coerência e o domínio do corpo no seio da sociedade tradicional. Os provérbios coletados por folcloristas em fins do século XIX refletem uma visão laicizada da existência, que privilegia o orgânico. Delineiam uma moral da moderação, constatam que o repúdio à posição mediana, o respeito ao justo meio favorecem a saúde e buscam, aqui, um bem estar mais refinado que o prazer.

A convicção de que o corpo encontra-se perfeitamente ligado à ordem cósmica, vegetal e animal, devido a uma serie de correspondências simbólicas, revelando um caráter obsessivo destaca crenças arcaicas, que são acompanhadas por uma norma higiênica que admite o bom desempenho das funções naturais. È um sistema de opiniões e atitudes que define uma frente de resistência à difusão da higiene acadêmica, contra-ataques até no interior burguês. Em oposição às crenças antigas inscreve-se a permanente tendência a acentuar a mensagem cristã baseada no antagonismo entre a alma e o corpo. Desdenhando os limites dogmáticos do desprezo pela carne, desenhados pelo mistério da Encarnação, da Eucaristia e a fé na ressurreição, reduzindo os despojos mortais a uma provisória prisão, justificando assim a guerra permanente entre os anseios, os impulsos orgânicos e alma.

A partir dos meados do séc XIX declinam as mortificações pouco adequadas à feminização da prática. Interioriza-se assim a renúncia a si mesmo no cotidiano e inaurgura-se a contabilidade dos pequenos sacrifícios. A alma, guia, detentora do segredo da vocação do corpo, dirige sua efetivação. É a alma que modela simultaneamente o corpo e o espírito femininos, a maternidade é primeiramente vocação metafísica daquela que tem o dever de colaborar com a obra da natureza.

2.2. As mensagens da cenetesia

Os ideólogos, em especial Cabanis abandonam as noções da alma-guia e do principio vital, tentando unificar os campos da medicina e da fisiologia, dando mais atenção à relação entre o físico e o moral, ao vinculo existente entre a vida orgânica a vida social e a atividade mental. Em fins do século XVII cenestesia, percepção interior do corpo o conjunto das sensações orgânicas cuja tradução no comportamento constitui instintos. Durante todo o século os especialistas mostram-se convencidos da extrema influencia de um inconsciente percebido como rumor das funções viscerais de onde emergem os atos da consciência. A personalidade aflora já completamente armada de dentro deste inconsciente. Freud contribui para arrebatar a vida orgânica, o monopólio do inconsciente para instalá-lo no próprio aparelho psíquico.

A cenestesia valoriza a escuta do corpo, que não é nossa. Escuta ao desenvolvimento das funções orgânicas e suas repercussões no plano mental, vigilância permanente que privilegia a analise da fisiologia. Constrói-se no cotidiano um grosseiro sistema de imagens da saúde física e psíquica, permitindo comportamentos individuais.

Operou-se uma revolução, a progressiva identificação do sujeito com o corpo, o que implica em atenuamento do desprezo pelo orgânico pela animalidade. Instala-se a solidão dos apetites sentido como sendo os da própria pessoa, e não, expressão das exigencias do outro.

2.3. O leito e o quarto individuais

O século XIX assitiu a continuidade do processo de desamontoamento dos corpos nos espaços coletivos por volta do Antigo regime. O leito individual tornou-se simples precaução sanitária, especialmente nos hospitais e a privatização do espaço reservado ao enfermo demorará a triunfar nestes estabelecimentos, pois contrariava os ritos de sociabilidade popular. A transferência desta preocupação para o espaço privado, ocorrerá como processo acelerado, pela epidemia de cólera em 1832. Os médicos lutam durante todo o tempo contra o leito coletivo e a prosmicuidade.

A nova solidão do leito individual conforta o sentimento de pessoa, favorece autonomia, facilita o surgimento do monologo interior, as modalidades da prece, as formas de devaneio, as condições de adormecer e do despertar. O desenvolvimento do sono, do pesadelo, tudo é transtornado. Atenua-se o calor da fraternidade e se desenvolve na criança a exigência da boneca ou da confortadora mão materna.

Na burguesia avança a idéia do quarto individual, o quarto da moça transformado em templo de sua vida privada, confundindo-se com a personaldade da ocupante. Os locais de defecação são, na verdade, busca do monólogo interior e em 1900 difunde-se o sanitário, mais tarde, transformado em banheiro. Este espaço transforma-se no templo de contemplação de si mesmo.

2.4. A higiene intima

Os progresso da higiene intima revolucionam a vida privada. A reconhecida influência do físico sobre o moral valoriza e recomenda o limpo e acentuam a delicadeza das elites, distinguindo-as do imundo Zé-povinho. Tudo contribui para o estabelecimento de um novo estatuto do desejo sexual e da repulsão, que avivam o impulso das práticas higiênicas. Normas regulam a prática do banho conforme o sexo, a idade, o temperamento e a profissão. A relação entre a água e esterilidade dificultam o avanço da higiene intima da mulher. A higiene tem um caráter fragmentado, além de que propaga-se das classes superiores para a burguesia.

No final do século a limpeza torna-se uma necessidade, traduzindo muitas vezes a idéia de dignidade. Para a elite a higiene para o povo estava ligada a aparência.

2.5. A ameaça do desejo

É no seio do espaço privado que o individuo se prepara para afrontar o olhar dos outros, revelando a constituição da imagem social do corpo. Surge o sucesso da lingerie, valorizando a nudez. Ocorrera a acumulação erótica evidenciada nas vestimentas femininas, que contribuirá para a renovar a mitologia libidinosa difundindo-se rapidamente por toda a sociedade.

Algo para reflexão seria o desejo de conservação o cuidado de proteger-se, o medo da castração, a permanente lembrança da ameaça do desejo realizando um neurótico encontro com a aceitação dos refinados complicadores, em harmonia com a pertubadora hipertrofia do imaginário erótico.

2.6. As estratégias da aparência

Dentro do privado aparece a toalete que prepara a aparição em público, difundido entre 1880 e 1910. O homem do século XIX não se orgulha de seu corpo, exceto de seus pêlos. Todas as modas deste século, inauguram a difusão de um novo estilo de vida privada.

2.7. O pudor e a vergonha

No século XIX, o pudor e a vergonha pretendem reger os comportamentos, ocultando um duplo sentimento: o medo de ver o Outro – o corpo - de outro, o temor de que o segredo íntimo seja violado pela indiscrição. Surgem ansiedades de todos os tipos, como “ o mal branco”, medo de sair e ser visto por desconhecidos, a eurofobia, medo de não impedir o rubor da face.

3. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA.

Coleção dirigida por Philippe Áries/Georges Duby - Historia da vida privada da revolução francesa à primeira Guerra (4) - Michelle Perrot.

Bastidores – O segredo do Individuo – pág. 419 – 455.

Postagens mais visitadas deste blog

PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA: SUBJETIVIDADE E MUNDO SOCIAL

DINÂMICA DE GRUPO - CONCEITOS DA TEORIA DE WILL SCHUTZ

PSICOMOTRICIDADE: PRINCIPAIS CONCEITOS