OLHAR E VER


OLHAR E VER
Mirian Lopes


Sair pela cidade, perceber as cores, luz e sombra, as formas, o som, o silêncio, o ruído, o movimento da vida acontecendo dentro e fora das janelas: a janela do vagão que percorre os trilhos; a janela da alma, dos olhos que se colocam a procurar sentidos. O que passa lá fora, pela janela do vagão: imagens tão rápidas ou tão lentas, a vida que imprime movimento. Pessoas que esperam chegar em algum lugar; pessoas que não sabem para onde estão indo; pessoas que nada esperam; pessoas em movimento; pessoas estáticas enquanto a vida se move. Olhos que se encontram e nada dizem; olhos que perturbam e invadem a alma; olhos abertos que nada veem fora de si; olhos que veem tudo dentro de si. A estação que recebe todas as direções, pessoas que chegam; pessoas que partem; pessoas que esperam por algo ou alguém, que passam por ali, que falam sozinhas, palavras ao vento; pessoas que se silenciam diante do cenário: a vida. Caminhos, sinais, protocolos, sincronias, abraços, sorrisos, direções, um texto a ser escrito. Sabores, burburinho, vozes, doçura em um prato a ser degustado, compartilhado em dois hemisférios, o sensorial e o emocional, sentidos pulverizados em cada esquina, em cada face, o prazer de viver. O tempo marcado pelo ponteiro do relógio, o tempo da existência descontinuado, infinito, que se sente pelas ideias, pelo encontro de experiências, pela alegria do acolhimento e da compreensão. A entrada pelo corredor, a acomodação confortável diante do palco onde todas as possibilidades se fazem presentes, onde as luzes acendem nuances multicoloridas seguidas de uma trilha sonora impactante, em um só momento: um enredo que se desenrola através dos corpos, da entrega de artistas que constroem sentidos. A beleza dos corpos, a entrega, a coragem de despir-se de si mesmo, e despir-se aos olhos de outros; a força que vem da alma e se expressa pelos espaços, produzindo sensações: a transformação daquele que olha e realmente vê. A sensibilidade de agora. A arte conversa comigo, uma longa conversa, intensa. O tempo é de transição, de descoberta, e provoca reflexões, e faz flutuar, e faz lembrar a sensação de ser criança. Tudo parece recortado de beleza e magia. Algo que nos arrebata, e nos leva a falar coisas do coração, ainda sem saber exatamente o que acontece aqui do lado de dentro. Olhar e ver, de modo diferente, o que surge diante de nós. É delicado, é bom: a emoção, a inquietação, a alegria que se mistura com lágrimas, e que se misturaram com poesia. Esta mesma inquietação que faz escrever, desenhar, cantar, dançar, amar, conhecer um pouco de cada coisa e tudo ao mesmo tempo: uma linda metáfora, metamorfose. Dormirei após escrever, ainda bem, aprecio papel e lápis. A possibilidade de ver a vida acontecendo aqui e acolá. Gosto de senti-la, de vê-la assim e assim, como ela é de fato. Ah, vida! Há coisas que ouvimos dizer e outras vamos compreendendo o sentido através do experimentar. Ouvia falar: o que será Presença? Um dia entendi o sentido. Considerava o termo tão comum, tão igual aos outros termos. Porém, em um tempo comecei a ver diferente e entendi a amplitude de Presença. Enquanto caminhava pela cidade, ora sob as árvores, ora sob o Sol, a ouvir o crepitar das folhas, compreendi o sentido de Presença: era algo mais do que a materialidade, era a essência. Passamos pela vida sem prestar atenção nas presenças que nos cercam, na forma como se desvelam para nossos olhos, aquela natural... Não nos damos conta da vida como ela é. Até que de repente, acordamos de um longo adormecimento, entorpecimento, e começamos a ver claramente o que está ali diante de nós. Olhar e ver, é desfazer-se de um olhar vítreo que esta a mirar e nada enxerga. Compreende? Há profundidade nas coisas e estamos habituados a ficar na superfície. Olhar e ver, é cada vez mais, ir além de seus limites; é estar disponível para observar, para tentar compreender o que surge. É estar despido de preconceitos; é ter um distanciamento para capturar o todo; é romper com as velhas formas de um contexto; é mover-se em direção à...

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