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Transexualismo não está ligado a personalidade psicótica

Por Rafaela Carvalho - rafaela.souza.carvalho@usp.br

Publicado em 10/fevereiro/2011
Editoria : Sociedade

Psicanalistas que se pautavam na teoria lacaniana desenvolvida nos anos 1950 associavam o transexualismo à personalidade psicótica. A perda da noção da realidade do corpo faria com que um homem se enxergasse mulher e vice-versa. Porém, uma pesquisa apresentada ao Instituto de Psicologia (IP) da USP aponta para um outro caminho. Segundo o estudo, a vontade de ser do sexo oposto não implica necessariamente uma patologia ou uma disfunção de percepção da aparência, mas uma singularidade de algumas pessoas.

Muitas vezes, o transexual aceita seu corpo, mas se porta como o sexo oposto O psicólogo Rafael Cossi, autor da pesquisa, trabalhou com diferentes noções da psicanálise lacaniana para tentar explicar por que algumas pessoas buscam viver suas vidas como se fossem do sexo oposto. Seu objetivo era contrapor o ponto de vista lacaniano mais corrente, que julgava que a psicose era condição para o transexualismo.

Funcionamento normal da mente

Baseando-se em seis biografias de pessoas transexuais, o pesquisador trabalhou quatro conceitos para explicar a condição de uma pessoa com esse perfil: o estágio do espelho; o verleugnung (do alemão, “renegação” ou “desmentido”); o semblante; e o sinthoma. Todos estão vinculados ao funcionamento comum da mente humana e não se relacionam com a noção de verwerfung — condição psicótica que, traduzida do alemão, significa “rejeição”.

O estágio do espelho está relacionado à formação inicial do ego da pessoa. Segundo Cossi, é nessa fase que a mente forma uma imagem antecipada do corpo, mesmo que não exista uma noção totalizante de como ele é. No caso de transexuais, há momentos, no início da vida, em que a criança percebe que o tratamento que ela recebe do outro não é, sob o seu ponto de vista, coerente com o seu sexo. “O comportamento e a atitude de outras pessoas, neste momento precoce da vida, contribuem para moldar o psiquismo de cada um. Às vezes, há hesitações por parte do outro, não confirmando para a criança que ela pertence ao sexo que o seu corpo indica”, explica o psicólogo.

A noção de verleugnung implica negar a presença de algo, mesmo reconhecendo sua existência. No transexualismo, a pessoa tenderia a desmentir sua realidade física. “O transexual não alucina que seu corpo é o do outro sexo. Ele o reconhece de fato como é, mas nega isso e recorre à realização de intervenções hormonocirúrgicas, como meio de adequar sua anatomia à sua identidade sexual”, diz Cossi. O semblante, terceiro conceito que o autor sustenta, diz respeito à noção de aparência. “O transexual faz o semblante de que existem personalidades masculina e feminina claramente definidas e incorpora rigidamente uma delas. Por meio dessa atitude, o transexual quer se mostrar como uma mulher legítima presa em um corpo de um homem ou vice-versa. A encarnação deste estereótipo é condição fundamental para que o transexual possa ser reconhecido como tal e lhe seja permitido realizar a cirurgia de mudança de sexo”, aponta o pesquisador.

 
Por fim, segundo Cossi, o conceito de nome sinthoma é útil porque reconfigura, a partir dos anos 1970, a clínica psicanalítica lacaniana, esvaziando seu caráter patologizante. O psicólogo diz que os casos de transexualismo não devem ser encaixados automaticamente em padrões que, inevitavelmente, condenam os sujeitos que não se enquadram no modelo heterossexual ao campo da patologia. “Devem ser estudadas as peculiaridades das pessoas e conduzir tratamentos específicos em direção à singularidade de cada um.”

Cirurgia plástica

Tratar o transexualismo como uma singularidade de cada pessoa, segundo Cossi, é entender a personalidade de cada uma delas e fugir dos estereótipos. “Transexual não é apenas a pessoa que solicita a cirurgia de mudança de sexo. Há homens que vivem como mulheres e mulheres que vivem como homens mesmo com o órgão sexual oposto. Eles lidam bem com isso e sentem que não precisam fazer a cirurgia. Para muitos deles, sua redesignação civil, a mudança de nome, já lhes é suficiente, assim como o reconhecimento e o respeito do outro.”

A dissertação de Mestrado Transexualismo, psicanálise e gênero: do patológico ao singular foi apresentada ao Instituto de Psicologia em 19 de maio de 2010 e teve orientação da professora Maria Lucia de Araujo Andrade.


Mais informações: email rkcossi@hotmail.com

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